Antes de ser associada a uma das festas que vieram à tona nas investigações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, a Madame Satã era conhecida por outro tipo de transgressão. No início dos anos 1980, o casarão da rua Conselheiro Ramalho, no Bixiga, virou um dos endereços mais importantes da noite underground paulistana, reunindo rock, performances, teatro e artistas que encontravam ali espaço para experimentar.
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Aberta em 21 de outubro de 1983 como Restaurante Cultural Madame Satã, a casa ganhou no ano seguinte uma pista de dança, palco para apresentações e um espaço dedicado a performances de artistas plásticos, atores e dançarinos. A programação acompanhava a efervescência do rock brasileiro e de movimentos como new wave, punk, pós-punk e dark. Entre 1984 e 1986, passaram pelo palco 79 bandas, segundo o próprio estabelecimento, entre elas RPM, Legião Urbana, Ira!, Capital Inicial, Ultraje a Rigor, Plebe Rude e Engenheiros do Havaí.
Em uma São Paulo que ainda carregava as marcas da ditadura, o casarão funcionava como ponto de encontro de diferentes tribos e manifestações artísticas.
Madame
Depois do encerramento de sua primeira etapa, em 1993, o endereço de Madame Satã passou a funcionar com outros nomes, entre eles The The e Morcegóvia. O nome Madame Satã foi retomado posteriormente. Em 2012, após uma reforma, o espaço reabriu como Madame Underground Club, mantendo a referência ao endereço que havia se tornado parte da história cultural do Bixiga.
O endereço foi palco de uma festa de Halloween organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mensagens de WhatsApp obtidas pela Polícia Federal revelaram detalhes da organização do evento, que teria uma proporção de 120 mulheres para 20 homens. Em uma das mensagens, Vorcaro orienta que fossem escolhidas "só menina nova".
Os celulares dos convidados seriam recolhidos na entrada, enquanto mulheres teriam sido recrutadas por agências de modelos.
Quem foi Madame Satã
A casa foi batizada em referência a João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, um dos personagens mais lendários da boemia da Lapa, no Rio de Janeiro. Negro, homossexual, capoeirista, transformista e figura frequente dos cabarés cariocas, João nasceu em Glória do Goitá, em Pernambuco, em 1900.
Ainda jovem, chegou ao Rio de Janeiro e passou a viver na Lapa. obreviveu fazendo diferentes trabalhos, entre eles os de cozinheiro, vendedor ambulante e segurança. Também se envolveu em conflitos com a polícia e passou parte significativa da vida na prisão. Sua trajetória acabou se confundindo com a própria história da noite marginal carioca.
Ao mesmo tempo em que ganhou fama como brigão e capoeirista, João Francisco também encontrou nos palcos uma forma de expressão. Em 1928, participou do espetáculo Loucos em Copacabana, no Teatro Casa de Caboclo, na Praça Tiradentes, interpretando a Mulata do Balacochê. Em 1975, chegou a atuar no musical Lampião no Inferno, ao lado de Elba Ramalho e Tania Alves.
O apelido pelo qual ficou conhecido, porém, só seria consolidado posteriormente, quando vestiu uma fantasia inspirada no filme Madam Satan, de Cecil B. DeMille.