SÃO PAULO E BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quarta-feira, 8, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), durante entrevista ao canal ICL Notícias. Segundo o presidente, o senador e pré-candidato à Presidência pelo PL defende a venda de terras raras brasileiras aos Estados Unidos, enquanto classificou como "uma vergonha" um acordo firmado por Caiado com os americanos nessa área.
"Flávio quer vender para os EUA uma coisa tão importante quanto petróleo", disse Lula. "É uma vergonha, inclusive, o que o Caiado fez em Goiás. O Caiado fez um acordo com uma empresa americana, fazendo concessão de coisa que ele não pode fazer, porque é da União", acrescentou.
Na avaliação do presidente, é necessário cautela para evitar a entrega de ativos estratégicos e recursos naturais do País. Lula afirmou que o cenário internacional impõe ao Brasil a necessidade de tratar com maior atenção os temas de segurança e defesa, diante de pressões externas e disputas geopolíticas.
"Precisamos fortalecer a indústria de defesa, um país do nosso tamanho não pode ficar sem segurança", afirmou Lula. "Qualquer dia alguém resolve invadir a gente, tem um cidadão do mundo que acha que é imperador", disse em indireta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O presidente também avaliou que há uma tentativa de consolidação de um campo político de ultradireita no País, que, segundo ele, representa riscos ao funcionamento das instituições democráticas. Lula citou críticas recorrentes ao sistema eleitoral brasileiro por parte de grupos ligados ao bolsonarismo, ressaltando que não houve comprovação de irregularidades nas urnas eletrônicas.
Ainda segundo o petista, a defesa da democracia deve ocupar posição central no debate eleitoral. Ele afirmou que pretende ampliar a discussão pública sobre o tema, destacando que o regime democrático envolve não apenas o direito ao voto, mas também a garantia de direitos sociais. Nesse contexto, mencionou a defesa do fim da escala de trabalho 6x1.
Lula promete Ministério da Segurança na semana seguinte à aprovação da PEC
Na área de segurança pública, Lula afirmou que uma atuação mais direta do governo federal depende da definição clara das competências da União. Segundo ele, é necessário que uma legislação estabeleça esse papel de forma objetiva.
O presidente acrescentou que, com a eventual aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, o governo pretende avançar na reorganização da área. De acordo com Lula, a criação de um Ministério da Segurança Pública poderá ser anunciada na semana seguinte à aprovação da medida. "Para governo federal entrar na segurança pública, precisamos de uma lei que diga nosso papel", disse. "Hoje, a segurança é quase toda de responsabilidade dos Estados."
Presidente quer aliança forte para 'fascistas não voltarem'
Na entrevista, Lula disse ainda que vai pleitear ao PT que seja reconstruída uma frente ampla para impedir a volta do bolsonarismo ao Poder Executivo.
"Vou pleitear ao PT a necessidade da gente reconstruir uma aliança política forte para a gente não permitir que os fascistas voltem a governar este País. Este é o papel que eu tenho para jogar agora", disse Lula.
Lula disse que dificilmente não será candidato à reeleição, mas evitou dizer que concorrerá antes da convenção do PT, em julho. Mesmo assim, o presidente disse que o seu diferencial é ser o político mais experiente do País. "Eu tenho o acúmulo de experiência que ninguém tem neste País. Não tem nenhum político que tenha a experiência que eu tenho neste País. Essa é a vantagem de ser longevo", afirmou.
De acordo com ele, é preciso melhorar a qualidade dos políticos do País onde, segundo o presidente, há muita "coisa podre". Lula também afirmou que o crime organizado conseguiu se infiltrar em diversos setores da sociedade, inclusive no setor público.
"O crime organizado está em tudo quanto é lugar, o crime organizado está na política, no futebol, na religião, está em tudo quanto é lugar", afirmou.
Nada com Trump é impossível, diz Lula sobre interferência dos EUA nas eleições
Lula também disse que nada com Trump "é impossível", ao ser questionado sobre possível interferência americana no processo eleitoral brasileiro. "Pelo que eu tenho visto do Donald Trump nesses anos, nada com ele é impossível", afirmou Lula. "O dado concreto é que não tem nenhum país do mundo que tem o direito de levantar qualquer suspeita sobre o processo eleitoral brasileiro."
O petista disse que, desde a redemocratização, sempre esteve entre os dois mais votados nas eleições presidenciais em que disputou. Destacou ainda que, nos pleitos em que não concorreu à Presidência, candidatos de seu grupo político também alcançaram posições de destaque, citando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), eleita duas vezes, e o ex-ministro Fernando Haddad (PT), que chegou ao segundo turno. Segundo Lula, esse histórico demonstra que não haveria possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas, argumentando que, se isso fosse possível, ele não teria sido eleito presidente da República por três vezes.
"Então, ninguém - nem Trump, nem Emmanuel Macron (França), nem Xi Jinping (China) - ninguém neste mundo tem o direito de colocar sob suspeita o processo eleitoral brasileiro. Pelo comportamento da nossa Justiça Eleitoral e pela seriedade das urnas", continuou o presidente. "Se ele (Trump) fizer, nós vamos dizer que ele está mentindo, que não é verdade."
Lula classificou que uma eventual interferência de Trump no processo eleitoral do País poderia gerar um enfrentamento político desnecessário. Segundo ele, ao se encontrar com o americano, destacou que ambos, já próximos dos 80 anos, deveriam tratar com seriedade a relação bilateral, que soma mais de dois séculos de diplomacia.
Lula disse que o Brasil não busca conflito com nenhum país, mas exige respeito mútuo. Defendeu que divergências sejam tratadas por meio do diálogo e da negociação, com reconhecimento dos interesses de cada lado.
O presidente também relatou ter proposto cooperação no combate ao crime organizado, mencionando que apresentou a Trump informações sobre brasileiros envolvidos em crimes que estariam nos Estados Unidos. Segundo ele, instituições como a Polícia Federal e a Receita Federal estão preparadas para atuar em ações conjuntas.