Flávio Bolsonaro mente sobre votações em Estados e ao alegar que seriam matematicamente impossíveis

CANDIDATO DERROTADO PUBLICOU VÍDEO EM QUE CITA DADOS FALSOS SOBRE DESEMPENHO DO ADVERSÁRIO; PROCURADO, ELE NÃO SE MANIFESTOU

6 nov 2026 - 17h55
Resumo
O senador Flávio Bolsonaro disseminou desinformação ao alegar, sem provas, que a vitória de Lula seria "matematicamente impossível". Ele inflou porcentagens de crescimento do petista em Goiás, SP, RJ e SC, ignorando que o aumento de votos entre turnos é comum e decorre da migração de votos e da queda de abstenções, brancos e nulos. Dados oficiais do TSE desmentem as acusações de fraude, levantadas apenas após sua derrota, repetindo a postura de questionar as urnas sem respaldo na realidade.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou um vídeo nesta quinta-feira, 5 de novembro, em que mentiu sobre os resultados das eleições em quatro Estados. Ele também propagou a falsa alegação de que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva seria "matematicamente impossível".

Foto: Estadão

O candidato derrotado citou números errados e omitiu dados importantes, como a redução na abstenção e nos votos nulos e brancos entre o primeiro e o segundo turnos. As alegações falsas foram feitas durante entrevista ao jornal The New York Times. As mentiras não foram publicadas na reportagem publicada pelo veículo. O senador foi procurado pelo Estadão Verifica, mas não respondeu à tentativa de contato.

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Flávio sugeriu haver irregularidade no fato de Lula ter ganhado 10,3 milhões de votos a mais no segundo turno. Trata-se de uma falácia, ou seja, de um raciocínio enganoso na construção de um argumento que acaba por invalidar a conclusão. O acréscimo significativo de votos no segundo turno não é impossível e nem sequer inusual. Em 2018, por exemplo, o candidato à Presidência derrotado Fernando Haddad (PT) teve 15 milhões de votos a mais em relação ao primeiro turno. O vencedor daquela eleição, Jair Bolsonaro (PL), elevou sua votação em quase 8 milhões. Nada impede que eleitores mudem de voto entre um turno e outro, e pesquisas indicam que isso ocorre frequentemente.

A alegação de uma vitória "matematicamente impossível" faz parte de uma campanha de desinformação, impulsionada pelo senador e por seus aliados, que já foi desmentida pelo Estadão Verifica. As mentiras ignoram dados do próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que auxiliam a compreender a virada de Lula no segundo turno. Flávio não questionou os resultados do primeiro turno, quando ficou à frente de Lula. As insinuações de fraude só ocorreram quando perdeu. Ao não reconhecer o resultado da eleição, Flávio imitou o pai e mentor político, Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe.

Contas erradas

No vídeo analisado, o senador citou "exemplos estranhos" de votações que "não param de pé". Ele mencionou dados de Estados como Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Em todos os casos, citou porcentagens falsas de crescimento de votos de Lula na segunda rodada da eleição.

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Flávio afirmou que o eleitorado do adversário cresceu mais de 43% no segundo turno em Goiás. Na realidade, o petista aumentou sua votação em cerca de 33% entre o primeiro e o segundo turnos no Estado. Ainda assim, Lula perdeu em Goiás. A participação do presidente nos votos válidos (excluindo brancos e nulos) passou de 31,1% para 40,3%.

Primeiro turno - Goiás

Flávio: 2.051.888 votos (53,6% dos válidos) Lula: 1.188.880 votos (31,1% dos válidos)Em branco: 45.643 (1,1% do eleitorado presente)Nulos: 98.121 (2,5% do eleitorado presente) Outros: 587.055 (15,3% dos válidos)Abstenção: 1.109.003 (21,8% do eleitorado total)

Segundo turno - Goiás

Flávio: 2.345.334 (59,7% dos válidos);Lula: 1.585.555 (40,3% dos válidos);Em branco: 43.214 (1,1% do eleitorado presente);Nulos: 73.177 (1,8% do eleitorado presente); Abstenção: 1.033.105 (20,3% do eleitorado total)

Depois, Flávio fez a mesma comparação em São Paulo, e disse que a votação de Lula cresceu mais de 35% no segundo turno. O correto, porém, é 27%. O petista também perdeu no Estado: a participação nos votos válidos passou de 38,2% para 46,15%.

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Primeiro turno - São Paulo

Flávio: 12.922.023 votos (51,9% dos válidos);Lula: 9.505.413 votos (38,2% dos válidos); Em branco: 632.801 (2,4% dos presentes); Nulos: 916.243 (3,5% dos presentes);Outros: 2.455.512 (9,9% dos válidos)Abstenção: 7.690.900 (22,5% do eleitorado total)

Segundo turno - São Paulo

Flávio: 14.139.178 votos (53,8% dos válidos)Lula: 12.119.274 votos (46,2% dos válidos)Em branco: 389.606 (1,4% dos presentes)Nulos: 716.331 (2,6% dos presentes)Abstenção: 6.759.202 (19,8% do eleitorado total)

No Rio de Janeiro, Flávio afirmou que os votos no petista aumentaram mais de 30%. Mais uma vez, a conta não fechou. O correto é cerca de 24%. A participação de Lula nos votos válidos passou de 39,41% para 46,90%, ou seja, ele também não alcançou a maioria entre os fluminenses.

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Primeiro turno - Rio de Janeiro

Flávio: 4.966.844 votos (53% dos válidos);Lula: 3.693.021 votos (39,4% dos válidos);Em branco: 201.979 (2% do eleitorado presente);Nulos: 288.123 (2,9% do eleitorado presente)Outros: 709.835 votos (7,6% dos válidos)Abstenção: 2.997.846 (23,3% do eleitorado total)

Segundo turno - Rio de Janeiro

Flávio: 5.169.033 votos (53,1% dos válidos);Lula: 4.565.393 votos (46,9% dos válidos);Em branco: 111.682 (1,1% do eleitorado presente);Nulos: 231.341 (2,3% do eleitorado presente);Abstenção: 2.780.077 (21,6% do eleitorado total)

Flávio também mencionou Santa Catarina como suposta evidência de irregularidade ao dizer que a votação de Lula cresceu mais de 30% no Estado. Mas isso não aconteceu. O aumento foi de quase 26% entre o primeiro e o segundo turnos. A participação nos votos válidos passou de 25% para 30,6%. Flávio disse ainda que Lula teve crescimento atípico mesmo depois de chamar os catarinenses de "fascistas". Não há registro de que o presidente tenha feito isso.

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Primeiro turno - Santa Catarina

Flávio: 3.000.020 votos (66,7% dos válidos)Lula: 1.127.168 votos (25% dos válidos)Em branco: 69.007 (1,5% dos presentes)Nulos: 78.255 (1,7% dos presentes)Outros: 373.709 (8,3% dos válidos)Abstenção: 1.086.492 (18,9% do eleitorado total)

Segundo turno - Santa Catarina

Flávio: 3.220.071 votos (69,4% dos válidos);Lula: 1.418.314 votos (30,6% dos válidos);Em branco: 48.674 (1% dos presentes);Nulos: 75.244 (1,6% dos presentes);Abstenção: 972.384 (17% do eleitorado total)Brancos e nulos

Os Estados mencionados anteriormente acompanharam uma tendência importante do cenário nacional: houve redução de votos brancos e nulos e queda na abstenção. Isso significa que houve um aumento de votos válidos e que mais eleitores compareceram às urnas no segundo turno. Isso, assim como a absorção de uma parcela dos votos de outros candidatos, ajuda a entender a virada de Lula.

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O TSE explicou que a mudança na votação entre os turnos é algo plausível. O comportamento eleitoral pode variar ao longo da campanha, influenciado por fatores como debates, propostas e novos acontecimentos entre as votações.

Flávio citou também o caso do Acre, onde sua votação caiu. Ele afirmou que não haveria "explicação lógica" para isso. De fato, no primeiro turno, o candidato pelo PL recebeu 302,8 mil votos (64,6%). No segundo turno, o candidato ainda ganhou no Estado, mas obteve 287,7 mil votos (66,6%).

O que Flávio omitiu, porém, é que a abstenção no Acre subiu de 125,4 mil no primeiro turno (20,4%) para 160 mil (26%) no segundo. Houve ainda um aumento de votos nulos: de 13,6 mil (2,8%) para 16,4 mil (3,6%) no segundo turno. Os dois fenômenos podem ter afetado o desempenho do candidato derrotado.

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