BRASÍLIA — Dois governadores executaram movimentos opostos nesta segunda-feira, 23, que foram lidos por aliados como tentativas de salvar o próprio capital político e garantir seus sucessores em meio ao risco de fracasso eleitoral, segundo lideranças bolsonaristas com quem o Estadão conversou.
Enquanto o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), decidiu abandonar a pré-candidatura à Presidência da República para se manter no cargo, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), optou pela solução contrária: renunciou ao cargo às vésperas do julgamento na Justiça Eleitoral que pode torná-lo inelegível.
Bolsonaristas avaliam que a decisão de Ratinho foi influenciada pela jogada do PL de filiar o senador Sergio Moro (União) para concorrer ao governo do Paraná e enfraquecer os palanques do PSD.
O coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o senador Rogério Marinho (PL-RN) pediu a Ratinho apoio dele à pré-candidatura do filho de Jair Bolsonaro no primeiro turno — o que implicaria desistir do próprio projeto presidencial.
O governador, no entanto, ficou de dar um retorno. O PL então decidiu fazer a fila andar e apoiar a pré-candidatura de Moro para garantir um palanque para Flávio no Estado. A cerimônia de filiação do ex-juiz da Lava Jato será nesta terça-feira, 24, em Brasília.
Uma candidatura de Moro, eleito senador com 33,50% dos votos dos paranaenses, aliado à força do bolsonarismo pode superar a força eleitoral de Ratinho. O governador era o pré-candidato do PSD com melhor desempenho nas pesquisas para presidente, mas bem atrás dos números do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio.
Ficando no cargo, agora Ratinho poderá manter o controle da máquina e direcionar esforços para eleger o seu sucessor, diante da ameaça de Moro. Um dos cotados para o posto é o secretário de Cidades, Guto Silva — que seria favorecido em ter um aliado no cargo até a data da eleição.
Outro cotado como nome de Ratinho é Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), que também se beneficiaria com um aliado na cadeira de governador. Se for bem sucedida, a jogada pode ajudar a manter o poder de Ratinho, turbinar a campanha de Guto e derrotar o PL.
Uma liderança da cúpula do PL diz que Ratinho cometeu um "erro primário" na política ao subestimar o partido, uma vez que, segundo ela, o governador achou que os bolsonaristas voltariam atrás na aliança com Moro assim que o PSD tomasse sua decisão. Para ele, o "café esfriou" e Ratinho não percebeu.
Se a decisão de Ratinho visa combater o PL com mais força no Estado, segundo essa avaliação, por outro lado empurra o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), para perto da candidatura presidencial — o que é visto com bons olhos por bolsonaristas, uma vez que o goiano pode usar sua campanha para desgastar o PT com mais ênfase do que acreditam que Ratinho faria.
No Rio, a saída de Castro, que é pré-candidato ao Senado, mira na esperança de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux reconsidere sua decisão que alterou as regras para eleição indireta ao Palácio Guanabara.
Entre as principais mudanças determinadas pelo magistrado estão a derrubada do voto nominal aberto e a alteração do prazo reduzido de desincompatibilização, que permitia que candidatos deixassem cargos públicos apenas 24 horas antes da votação. Com isso, Fux restabeleceu o prazo de 180 dias previstos em lei.
A decisão prejudica o PL porque impede que o candidato preferido de Flávio e Castro, o também secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas, possa ocupar o posto, uma vez que hoje exerce um cargo público.
Se Fux rever a decisão e Ruas conseguir ocupar o mandato-tampão, terá mais chances de se eleger governador de fato em outubro, avaliam os bolsonaristas. Mas dentro do PL a torcida era que Castro continuasse no cargo, para continuar com o controle da máquina estadual por mais tempo e, assim, dar mais força a todos os outros candidatos da sigla na eleição fluminense.
Quem assume o governo do Estado de forma interina é o presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto de Castro. Isso porque o antigo vice-governador, Thiago Pampolha, deixou o posto para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado, e o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, segundo na linha sucessória, está afastado por determinação judicial.
Aliados de Castro dizem que, até o começo da noite desta segunda-feira, ele não estava certo de qual decisão tomar, e que esperava um sinal vindo de Brasília antes de anunciar seu futuro. Eles não veem vantagem na renúncia, já que a expectativa é de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidir pela condenação nesta semana de qualquer forma.
Um aliado diz que, "com Castro renunciando, ele fica inelegível e deixa o Estado na mão do Judiciário, não adianta nada", e que, "ficando na cadeira, Castro ajudaria o partido, porque conseguiria fazer uma campanha para o Douglas melhor do que o TJ assumindo o Estado".
No TSE, o clima é de "game over", de acordo com um ministro. Até o momento, o placar está em 2 a 0 pela condenação do governador por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O julgamento será retomado nesta terça-feira.