Corridas pela Presidência e por governos estaduais começam com mulheres escanteadas por partidos

Há apenas uma mulher entre os pré-candidatos a presidente e somente três estados apresentam mulheres com competitividade nas disputas

10 fev 2026 - 04h58
Sub-representação feminina marca início das disputas políticas pelo Executivo em 2026
Sub-representação feminina marca início das disputas políticas pelo Executivo em 2026
Foto: Gemini

A primeira mulher a se colocar oficialmente na disputa pela Presidência da República se apresentou na última semana. Nos governos estaduais, o cenário é amplamente dominado pelos homens. Hoje, entre as 27 unidades da federação, apenas uma é comandada por uma mulher: Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco. Para as eleições de outubro, em apenas em três estados (Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Pernambuco) há mulheres ocupando posições de destaque nas pesquisas eleitorais. 

Nas eleições de 2026, mais uma vez, as mulheres não deverão ter protagonismo nas disputas pelos principais cargos do Poder Executivo. Lideranças políticas e especialistas ouvidos pelo Terra apontam que esse cenário é resultado de barreiras estruturais, partidárias e culturais que continuam limitando o acesso feminino aos espaços de maior poder político.

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Para a professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Beatriz Sanchez, a baixa presença feminina nos cargos do Executivo está diretamente ligada a barreiras estruturais que ainda afastam as mulheres da política institucional. “As mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e de cuidado, o que reduz significativamente o tempo disponível para a dedicação às atividades políticas."

A maternidade, segundo Beatriz, amplia ainda mais esse obstáculo, já que o peso do cuidado recai de maneira desproporcional sobre as mulheres mães. Além disso, ela aponta a violência política de gênero como um fator central de exclusão. “A política continua sendo um espaço hostil para as mulheres, que são frequentemente descredibilizadas, atacadas e questionadas em sua legitimidade”, afirma, citando episódios envolvendo lideranças femininas. "Casos recentes envolvendo a ministra Marina Silva e a presidenta do México evidenciam como essas práticas seguem presentes mesmo nos mais altos cargos de poder".

A cientista política Karla Gobo, professora da ESPM, reforça que a sub-representação feminina não pode ser explicada por uma única causa. Segundo ela, mesmo quando mulheres alcançam posições máximas de poder, suas trajetórias são mais vigiadas e contestadas. “O problema não é apenas de acesso, mas de reconhecimento e permanência no poder”, diz. “Superar isso exige políticas de incentivo, enfrentamento da violência política e uma mudança cultural profunda sobre quem ‘pode’ governar.”

Poucas candidatas

As avaliações das especialistas dialogam com a própria trajetória histórica do país. Ao longo da história republicana, o Brasil elegeu apenas uma mulher para a Presidência da República: Dilma Rousseff, que governou por dois mandatos, entre 2011 e 2016. Desde então, nenhuma outra mulher conseguiu chegar ao cargo, reforçando o padrão de sub-representação feminina no comando do Executivo.

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A presidente Dilma Roussef disse que “precisamos nos manter vigilantes e oferecer resistências às tendências antidemocráticas e às provocações"
Foto: Agência Brasil

Nas eleições presidenciais de 2022, houve um número recorde de mulheres na disputa pelo Palácio do Planalto. Ao todo, quatro mulheres concorreram à Presidência da República, entre os 11 nomes registrados na urna. Foram elas Soraya Thronicke (União Brasil), Simone Tebet (MDB), Sofia Manzano (PCB) e Vera Lúcia (PSTU).

Para este ano, esse grupo tende a ser ainda menor. Até o momento, há apenas uma mulher oficialmente lançada como pré-candidata à Presidência da República: Samara Martins, candidata da Unidade Popular (UP). Para ela, o fato de ser, até agora, a única mulher na disputa revela mais do que um dado eleitoral isolado.

“Essa é uma pequena expressão da situação das mulheres na sociedade no geral, que expressa a desigualdade, a discriminação e a violência que nós, mulheres, sofremos”, afirmou. “Nós temos que provar a todo instante nossa relevância para poder ser aceita, ou pelo menos suportada, nos espaços”, disse ao Terra.

Para ela, a política brasileira permanece “majoritariamente masculina, branca e dos ricos”, o que impõe barreiras adicionais, sobretudo às mulheres negras. “Nós, mulheres negras, somos questionadas e até ridicularizadas nesses espaços de poder e de decisão.” Ainda assim, reforçou que a presença das mulheres na política é resultado de enfrentamento e resistência: “Esse espaço tem sido conquistado e não dado. Não sem luta, não sem resistência, as mulheres avançam.”

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Ela também relatou experiências pessoais de discriminação e violência, tanto fora quanto dentro da política, citando episódios de assédio moral, racismo e ataques de cunho elitista, de gênero e sexual. “Na minha primeira candidatura, fui subestimada intelectualmente, politicamente e fisicamente, com agressões racistas e de gênero, sugerindo que eu fosse para casa cuidar da casa e das crianças”, relatou.

Cenário nos estados 

A presença feminina no comando das disputas estaduais ainda é exceção no cenário eleitoral brasileiro. Entre os 27 estados e o Distrito Federal, apenas três unidades da federação contam com mulheres ocupando a liderança, ou dividindo o topo, nas pesquisas para o cargo de governador.

No Rio Grande do Sul, a ex-deputada Juliana Brizola (PDT) aparece tecnicamente empatada na liderança em levantamentos do instituto Quaest, disputando o primeiro lugar com o tenente-coronel Zucco (PL). Com a impossibilidade de reeleição do atual governador Eduardo Leite, a corrida eleitoral no estado permanece bastante aberta.

No Distrito Federal, a atual vice-governadora Celina Leão (PP) desponta como um dos principais nomes para a sucessão de Ibaneis Rocha (MDB). Ela tem figurado entre as primeiras posições das pesquisas estimuladas, liderando diversos cenários em que é testada como candidata do grupo governista.

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Em Pernambuco, embora a governadora Raquel Lyra (PSD) apareça em segundo lugar em algumas pesquisas, atrás do prefeito do Recife, João Campos (PSB), ela é a principal liderança feminina na disputa e busca a reeleição. O cenário no estado é marcado pela polarização, mas a governadora mantém uma base sólida de intenções de voto.

Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, principais colégios eleitorais, não há mulheres participando com destaque da disputa até o momento.

Para o PSD, único partido a ter uma mulher à frente de um governo estadual, a sub-representação feminina permanece como um desafio estrutural. Ao Terra, o partido disse que o aumento do engajamento das mulheres na política está diretamente relacionado à forma como o processo político foi historicamente construído. Embora as mulheres representem mais da metade da população e do eleitorado brasileiro, elas seguem como minoria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Mesmo assim, o partido não tem mulheres na disputa pela Presidência, contando com três homens como pré-candidatos: Ronaldo Caiado, governador de Goiás; Ratinho Júnior, governador do Paraná; e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. O PSD disse, em nota, à reportagem que ampliar a participação feminina nas disputas majoritárias é um desafio que se coloca não apenas no Brasil, mas também em âmbito global. 

Em 2025, dados da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres apontaram um progresso limitado no avanço da igualdade de gênero na liderança política. A edição de 2025 do mapa “Mulheres na política” mostrou que os homens continuam ocupando mais de três vezes o número de cargos executivos e legislativos em comparação às mulheres em todo o mundo.

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O Brasil segue a tendência dos últimos anos e permanece mal posicionado nos rankings internacionais. O país ocupou a 133ª colocação no ranking global de representação parlamentar feminina e a 53ª posição no ranking de representação ministerial.

Embora as Américas apresentem a maior proporção de mulheres parlamentares do mundo, com 35,4%, o Brasil registrou índices muito abaixo da média continental. Apenas 18,1% da Câmara dos Deputados era composta por mulheres, o equivalente a 93 parlamentares. No Senado, elas representavam 19,8% das cadeiras, somando apenas 16 senadoras. Segundo dados divulgados pela ONU no ano passado, esses números colocam o país entre os piores desempenhos globais em termos de representação feminina no Legislativo.

Fonte: Portal Terra
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