A primeira mulher a se colocar oficialmente na disputa pela Presidência da República se apresentou na última semana. Nos governos estaduais, o cenário é amplamente dominado pelos homens. Hoje, entre as 27 unidades da federação, apenas uma é comandada por uma mulher: Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco. Para as eleições de outubro, em apenas em três estados (Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Pernambuco) há mulheres ocupando posições de destaque nas pesquisas eleitorais.
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Nas eleições de 2026, mais uma vez, as mulheres não deverão ter protagonismo nas disputas pelos principais cargos do Poder Executivo. Lideranças políticas e especialistas ouvidos pelo Terra apontam que esse cenário é resultado de barreiras estruturais, partidárias e culturais que continuam limitando o acesso feminino aos espaços de maior poder político.
Para a professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Beatriz Sanchez, a baixa presença feminina nos cargos do Executivo está diretamente ligada a barreiras estruturais que ainda afastam as mulheres da política institucional. “As mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e de cuidado, o que reduz significativamente o tempo disponível para a dedicação às atividades políticas."
A maternidade, segundo Beatriz, amplia ainda mais esse obstáculo, já que o peso do cuidado recai de maneira desproporcional sobre as mulheres mães. Além disso, ela aponta a violência política de gênero como um fator central de exclusão. “A política continua sendo um espaço hostil para as mulheres, que são frequentemente descredibilizadas, atacadas e questionadas em sua legitimidade”, afirma, citando episódios envolvendo lideranças femininas. "Casos recentes envolvendo a ministra Marina Silva e a presidenta do México evidenciam como essas práticas seguem presentes mesmo nos mais altos cargos de poder".
A cientista política Karla Gobo, professora da ESPM, reforça que a sub-representação feminina não pode ser explicada por uma única causa. Segundo ela, mesmo quando mulheres alcançam posições máximas de poder, suas trajetórias são mais vigiadas e contestadas. “O problema não é apenas de acesso, mas de reconhecimento e permanência no poder”, diz. “Superar isso exige políticas de incentivo, enfrentamento da violência política e uma mudança cultural profunda sobre quem ‘pode’ governar.”
Poucas candidatas
As avaliações das especialistas dialogam com a própria trajetória histórica do país. Ao longo da história republicana, o Brasil elegeu apenas uma mulher para a Presidência da República: Dilma Rousseff, que governou por dois mandatos, entre 2011 e 2016. Desde então, nenhuma outra mulher conseguiu chegar ao cargo, reforçando o padrão de sub-representação feminina no comando do Executivo.
Nas eleições presidenciais de 2022, houve um número recorde de mulheres na disputa pelo Palácio do Planalto. Ao todo, quatro mulheres concorreram à Presidência da República, entre os 11 nomes registrados na urna. Foram elas Soraya Thronicke (União Brasil), Simone Tebet (MDB), Sofia Manzano (PCB) e Vera Lúcia (PSTU).
Para este ano, esse grupo tende a ser ainda menor. Até o momento, há apenas uma mulher oficialmente lançada como pré-candidata à Presidência da República: Samara Martins, candidata da Unidade Popular (UP). Para ela, o fato de ser, até agora, a única mulher na disputa revela mais do que um dado eleitoral isolado.
“Essa é uma pequena expressão da situação das mulheres na sociedade no geral, que expressa a desigualdade, a discriminação e a violência que nós, mulheres, sofremos”, afirmou. “Nós temos que provar a todo instante nossa relevância para poder ser aceita, ou pelo menos suportada, nos espaços”, disse ao Terra.
Para ela, a política brasileira permanece “majoritariamente masculina, branca e dos ricos”, o que impõe barreiras adicionais, sobretudo às mulheres negras. “Nós, mulheres negras, somos questionadas e até ridicularizadas nesses espaços de poder e de decisão.” Ainda assim, reforçou que a presença das mulheres na política é resultado de enfrentamento e resistência: “Esse espaço tem sido conquistado e não dado. Não sem luta, não sem resistência, as mulheres avançam.”
Ela também relatou experiências pessoais de discriminação e violência, tanto fora quanto dentro da política, citando episódios de assédio moral, racismo e ataques de cunho elitista, de gênero e sexual. “Na minha primeira candidatura, fui subestimada intelectualmente, politicamente e fisicamente, com agressões racistas e de gênero, sugerindo que eu fosse para casa cuidar da casa e das crianças”, relatou.
Cenário nos estados
A presença feminina no comando das disputas estaduais ainda é exceção no cenário eleitoral brasileiro. Entre os 27 estados e o Distrito Federal, apenas três unidades da federação contam com mulheres ocupando a liderança, ou dividindo o topo, nas pesquisas para o cargo de governador.
No Rio Grande do Sul, a ex-deputada Juliana Brizola (PDT) aparece tecnicamente empatada na liderança em levantamentos do instituto Quaest, disputando o primeiro lugar com o tenente-coronel Zucco (PL). Com a impossibilidade de reeleição do atual governador Eduardo Leite, a corrida eleitoral no estado permanece bastante aberta.
No Distrito Federal, a atual vice-governadora Celina Leão (PP) desponta como um dos principais nomes para a sucessão de Ibaneis Rocha (MDB). Ela tem figurado entre as primeiras posições das pesquisas estimuladas, liderando diversos cenários em que é testada como candidata do grupo governista.
Em Pernambuco, embora a governadora Raquel Lyra (PSD) apareça em segundo lugar em algumas pesquisas, atrás do prefeito do Recife, João Campos (PSB), ela é a principal liderança feminina na disputa e busca a reeleição. O cenário no estado é marcado pela polarização, mas a governadora mantém uma base sólida de intenções de voto.
Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, principais colégios eleitorais, não há mulheres participando com destaque da disputa até o momento.
Para o PSD, único partido a ter uma mulher à frente de um governo estadual, a sub-representação feminina permanece como um desafio estrutural. Ao Terra, o partido disse que o aumento do engajamento das mulheres na política está diretamente relacionado à forma como o processo político foi historicamente construído. Embora as mulheres representem mais da metade da população e do eleitorado brasileiro, elas seguem como minoria na Câmara dos Deputados e no Senado.
Mesmo assim, o partido não tem mulheres na disputa pela Presidência, contando com três homens como pré-candidatos: Ronaldo Caiado, governador de Goiás; Ratinho Júnior, governador do Paraná; e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. O PSD disse, em nota, à reportagem que ampliar a participação feminina nas disputas majoritárias é um desafio que se coloca não apenas no Brasil, mas também em âmbito global.
Em 2025, dados da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres apontaram um progresso limitado no avanço da igualdade de gênero na liderança política. A edição de 2025 do mapa “Mulheres na política” mostrou que os homens continuam ocupando mais de três vezes o número de cargos executivos e legislativos em comparação às mulheres em todo o mundo.
O Brasil segue a tendência dos últimos anos e permanece mal posicionado nos rankings internacionais. O país ocupou a 133ª colocação no ranking global de representação parlamentar feminina e a 53ª posição no ranking de representação ministerial.
Embora as Américas apresentem a maior proporção de mulheres parlamentares do mundo, com 35,4%, o Brasil registrou índices muito abaixo da média continental. Apenas 18,1% da Câmara dos Deputados era composta por mulheres, o equivalente a 93 parlamentares. No Senado, elas representavam 19,8% das cadeiras, somando apenas 16 senadoras. Segundo dados divulgados pela ONU no ano passado, esses números colocam o país entre os piores desempenhos globais em termos de representação feminina no Legislativo.