Ciro indica que PP não comporá chapa de Flávio Bolsonaro nem será oposição ao próximo governo eleito

A neutralidade na eleição é uma posição consensuada no partido para permitir que os Estados fiquem livres para apoiarem quem quiserem localmente, ampliando a bancada de deputados federais eleitos pela Federação União-PP

22 jul 2026 - 20h30
(atualizado às 20h51)

BRASÍLIA — O presidente nacional do PP, Ciro Nogueira (PI), indicou a aliados que o partido vai adotar neutralidade na eleição nacional. A decisão fragiliza o pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que fica mais isolado na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Presidente do PP, Ciro Nogueira, indicou que partido não vai apoiar Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência
Presidente do PP, Ciro Nogueira, indicou que partido não vai apoiar Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência
Foto: Lula Marques/Agência Brasil / Estadão

O dirigente também tem dito a aliados que não deve ser oposição ao Palácio do Planalto a partir de 2027, independentemente de quem vença as eleições de outubro, e que Lula parece hoje mais perto da vitória do que Flávio.

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A neutralidade na eleição é uma posição consensuada no partido para permitir que os Estados fiquem livres para apoiarem quem quiserem localmente, ampliando a bancada de deputados federais eleitos pela Federação União-PP, segundo interlocutores de Ciro.

Na prática, isso significa que o PP não vai apoiar o filho mais velho do ex-presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. Ciro foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, responsável por sua articulação política.

A equipe de Flávio apostava na coligação com União-PP a nível nacional para ganhar maior tempo de propaganda na TV e no rádio, uma vez que as cotas são divididas de acordo com o tamanho das bancadas dos partidos na aliança dos candidatos. O PT de Lula terá consigo PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede.

Procurados pelo Estadão, tanto Ciro quanto o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, negam que a rejeição de apoio tenha sido dada na reunião que o dirigente do PP teve com Flávio em Brasília nesta quarta-feira, 22.

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Os dois grupos devem manter conversas nos próximos dias, mas a decisão do PP é definida como "irreversível" por uma pessoa próxima a Ciro.

Digitais do Planalto

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, e o presidente do PT, Edinho Silva, participaram das negociações para que o PP e o União Brasil ficassem neutros na disputa presidencial. O acordo foi acompanhado de perto por Lula, que chegou a se encontrar com Ciro.

Para o presidente da Repúlica, a neutralidade dos dois principais partidos do Centrão já é considerada uma vitória. Sem esse apoio, Flávio terá um tempo menor na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. Pelas projeções feitas até agora, Lula contará com 5 minutos e 32 segundos em cada bloco do programa, enquanto o senador terá 4 minutos e 20 segundos se não conquistar novos aliados.

O Republicanos, partido comandado pelo deputado Marcos Pereira, também deve liberar os seus diretórios para que apoiem quem quiser nas eleições. No Nordeste, por exemplo, muitas seções do Republicanos já fazem a campanha de Lula.

Sem uma coligação formal com o Republicanos, Flávio ficará isolado e não poderá ter como vice a economista Daniella Marques. Um dos nomes preferidos do senador para compor a chapa, Daniella coordena o programa econômico do pré-campanha do PL e se filiou recentemente ao Republicanos.

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O PP e suas diferenças

A decisão de não tomar lado na disputa presidencial é uma demanda das lideranças regionais, uma vez que o PP recebe votos da esquerda em Estados do Nordeste e da direita no Sul e Sudeste. Em Estados como Piauí, Pernambuco e Paraíba, por exemplo, estar associado a Flávio Bolsonaro pode prejudicar a campanha eleitoral de diversos candidatos.

Há Estados, entrentanto, em que PP e PL estarão no mesmo palanque, como é o caso de Mato Grosso do Sul (com o governador Eduardo Riedel no PP e os dois candidatos ao Senado pelo PL) e São Paulo (onde PP e PL farão dobradinha ao Senado, apoiados pelo governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos).

Em outros Estados, há disposição para caminharem juntos, mas a conjuntura tem prejudicado alianças: No Rio de Janeiro, o PP retirou a vice do candidato bolsonarista ao governo, Douglas Ruas; e em Santa Catarina a chegada de Carlos Bolsonaro (PL) e a permanência de Caroline de Toni (PL) na chapa afugentaram um aliado leal da aliança, o senador Esperidião Amin.

Além de facilitar os palanques estaduais, outra motivação para a neutralidade foi o incômodo de Ciro com a falta de uma defesa pública de Flávio ao presidente do PP durante a fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que teve o senador como alvo, em maio.

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A aliados, o presidente do PP lembra que até Lula se manifestou sobre o assunto. "A Polícia Federal cumpriu uma decisão judicial. Eu espero que todas as pessoas investigadas sejam inocentes", disse o petista na ocasião.

Flávio, por sua vez, tentou se afastar de Ciro. "Olha, vocês querem me vincular com o Ciro Nogueira, mas o Banco Master é do Lula", afirmou em maio.

Interlocutores do senador afirmam que Ciro ficou magoado com o episódio. Além disso, a decisão tem um componente pragmático. Na disputa por uma das duas vagas ao Senado no Piauí, o presidente do PP aparece empatado com o deputado Júlio César (PSD) — o senador Marcelo Castro (MDB) surge em primeiro.

Já a intenção de não fazer oposição ao próximo governo, seja ele do PT ou do PL, foi vista como uma tentativa de angariar apoio da esquerda num Estado que vota majoritariamente com Lula.

Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) conseguiu atrair PP e Republicanos para sua coligação na tentativa de se reeleger, mas acabou derrotado. Ambos os partidos, assim como União Brasil, PSD e MDB, indicaram nomes para o ministério de Lula, mas na prática não entregavam os votos no Congresso que uma base governista costumava amealhar.

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