Aposta de Lula nas redes, deputada mais votada do PT vira dor de cabeça por postagens antigas

Publicações feitas por Ana Elisa (PT-MG), que entrou no time de redes do presidente, incluem críticas a públicos prioritários na disputa pelo segundo turno; deputada eleita diz que mensagens foram tiradas de contexto e nega ter defendido o fechamento de igrejas; campanha do petista não se manifesta

9 out 2026 - 16h19
Resumo
A campanha de Lula apostou na deputada jovem Ana Elisa para rejuvenescer sua comunicação digital, mas a estratégia virou crise após a oposição resgatar postagens antigas e polêmicas da parlamentar com declarações radicais sobre raça, religião e censura. Especialistas apontam a falha como um erro de avaliação que afasta o eleitorado jovem em vez de agregar. Diante da repercussão e de ameaças recebidas, a deputada, apelidada de "janjinha" por adversários, acabou desativando seu perfil no X.

Depois do resultado frustrante do primeiro turno, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viu na deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), a candidata do partido mais votada do País nesta eleição, uma oportunidade para rejuvenescer a comunicação e aproximá-lo do público jovem.

Publicidade

Aos 21 anos e com milhões de seguidores, ela foi convocada para ajudar a renovar a estratégia digital petista e tornar a disputa com o bolsonarismo nas redes sociais mais equilibrada. Os vídeos do presidente em formato de selfie foram os primeiros sinais desse novo - e celebrado - momento da campanha. Mas antes mesmo que a aposta pudesse se consolidar, publicações antigas da deputada eleita voltaram a circular nas redes, expondo a campanha de Lula justamente entre segmentos que o presidente busca conquistar neste segundo turno.

A oposição resgatou postagens que vão de 2020 a 2026. As mensagens incluem críticas a pessoas brancas ("Kkkkkkkkkkkkkkkkk, odeio branco"), feita em 2024, a defesa do bloqueio de redes sociais ("pois eu já não vejo a hora do Xandão bloquear, Instagram, Facebook, e WhatsApp, por favor, TORNE REAL!") e ataques à direita ("Hoje, finalmente assisti "Ainda estou aqui", e só tenho uma coisa a dizer, quem ainda apoia a direita, merece putrificar nesse tal inferno, que os "crentes" tanto acreditam!"), ambos em 2025.

Em nota, a assessoria de Ana Elisa confirmou a autoria das postagens, alegando que "posts antigos e autênticos também foram tirados de contexto". A campanha da deputada negou, entretanto, que Ana Elisa tenha publicado a mensagem compartilhada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que lhe atribuía a defesa do fechamento de igrejas. A assessoria do deputado foi procurada pela reportagem, mas não houve manifestação até a publicação deste texto.

No início da semana, o presidente Lula já havia admitido, para aliados, que a campanha à reeleição não estava bem ordenada.

Publicidade

"Acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade, poderíamos ter feito mais. Disse para o Edinho (presidente do PT) que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989", declarou o presidente.

Petista segue sem conseguir entender a lógica da comunicação para os jovens

Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados, destaca que o presidente não conseguiu se comunicar com o público jovem durante toda a campanha e a falta de avaliação sobre as postagens de Ana Elisa prejudicaram a estratégia montada para a etapa final da corrida presidencial.

"O Lula não conseguiu se comunicar com os jovens durante a campanha inteira, chegou ao segundo turno atrás, buscou uma deputada que foi muito bem votada, que é jovem, só que alçaram essa parlamentar a um patamar para tentar agregar esse público e não checaram que ela tem posições muito radicais e de divisão: divisão racial, por exemplo, divisão religiosa. Isso afasta mais do que agrega, porque é uma pessoa com posições que não vão trazer novos públicos. Eu acho que um perfil que divide não é o perfil de que o Lula realmente precisa. E o Lula segue sem conseguir entender a lógica da comunicação para os jovens", disse Denicoli.

Ana Elisa, eleita com mais de meio milhão de votos, desativou sua conta no X após relatar estar sendo alvo de ameaças. "A minha equipe desativou minha conta no Twitter porque nós estávamos recebendo ameaça de morte e de estupro a cada dois minutos. Estou totalmente vulnerável. Eu, por enquanto, não tenho uma força-tarefa de segurança", disse a deputada eleita na quinta-feira, 8.

Publicidade

Como a conta da deputada na rede social foi desativada, não é possível verificar a data de publicação de todos as mensagens. Apoiadores do candidato Flávio Bolsonaro (PL), no entanto, têm compartilhado capturas de tela dos tuítes, além de registros arquivados no site Archive.is, que já acumulam milhares de compartilhamentos. De bolsonaristas, ela ganhou o apelido de "janjinha", em referência à primeira-dama Janja da Silva.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se