O grupo Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, voltou ao centro de investigações da Polícia Federal após ser alvo da Operação Sem Refino, deflagrada nesta sexta-feira, 15. A ação investiga suspeitas de fraude fiscal bilionária, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e evasão de recursos ao exterior envolvendo o conglomerado do setor de combustíveis, que também tem entre os alvos o ex-governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL), e o empresário Ricardo Magro, dono da empresa. A Refit negou as irregularidades.
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A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e cumpre 17 mandados de busca e apreensão e sete medidas de afastamento de função pública no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Distrito Federal. A Justiça também determinou o bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e a suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas.
Segundo a PF, o grupo é suspeito de utilizar uma complexa estrutura societária e financeira para ocultação patrimonial e dissimulação de bens. A investigação apura ainda inconsistências relacionadas à operação da refinaria e possíveis fraudes tributárias envolvendo o mercado de combustíveis.
Fundada durante a campanha nacionalista "O petróleo é nosso", a Refinaria de Manguinhos foi construída nos anos 1950 e, décadas depois, passou a ser chamada de Refit. Atualmente, a empresa afirma em seu site ser a primeira refinaria privada do Rio de Janeiro e possuir um dos maiores parques de armazenagem de líquidos do país, com capacidade superior a 200 milhões de litros.
No site institucional, a companhia diz atuar há mais de 70 anos no setor de refino de petróleo e afirma seguir padrões internacionais de qualidade. A empresa também atua com investimentos em combustíveis aditivados e operações voltadas ao mercado nacional de distribuição.
Apesar disso, a Refit acumula histórico de investigações. O conglomerado é considerado o maior devedor de ICMS do Estado de São Paulo, o segundo maior do Rio de Janeiro e um dos maiores da União. As dívidas e suspeitas de sonegação podem ultrapassar R$ 26 bilhões.
Em novembro de 2025, o grupo já havia sido alvo da megaoperação Poço de Lobato, que investigava suspeitas de organização criminosa, crimes tributários e lavagem de dinheiro. Na época, investigadores apontaram que o esquema teria causado prejuízo bilionário aos cofres públicos estaduais e federais.
Outro episódio envolvendo a empresa ocorreu em outubro de 2025, quando a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) interditou temporariamente a refinaria por suspeitas de não realizar refino e importar gasolina ilegalmente. A Refit negou irregularidades e afirmou que a medida era desproporcional.
Dono da Refit e ex-goverador do Rio investigados
O empresário Ricardo Magro, dono do grupo, também é alvo da operação desta sexta-feira, 15. O STF determinou sua inclusão na lista de Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localizar e prender foragidos fora de seus países de origem. Segundo as investigações, Magro mora atualmente nos Estados Unidos.
Ele ganhou fama no setor após adquirir a Refinaria de Manguinhos em 2008, e já apareceu em outras investigações ligadas a evasão fiscal, lavagem de dinheiro e offshores em paraísos fiscais.
Já Claudio Castro é investigado no âmbito da Operação Sem Refino por suspeitas relacionadas ao esquema apurado pela PF. Policiais cumpriram mandado de busca e apreensão na residência do ex-governador, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.
Castro, que deixou o governo estadual após renunciar ao cargo em março deste ano, pretende disputar uma vaga no Senado nas eleições de outubro.
Procurada pelo Terra, a Refit negou "veementemente ter fornecido combustíveis para o crime organizado" e disse que "sempre atuou como denunciante de postos ligados a facções criminosas, incluindo aqueles de bandeiras renomadas que integram o Instituto Combustível Legal (ICL) e foram alvos de operações policiais".
Em nota, a empresa disse que "jamais falsificou declarações fiscais para ter vantagens tributárias" e que recebeu com "estranheza" o fato de a Receita Federal "impedir a realização da perícia judicial que possa corroborar os laudos de profissionais já apresentados em juízo". "Laudos científicos da carga apreendida nas últimas operações comprovam que o produto importado é óleo bruto de petróleo, conforme devidamente declarado no documento de importação", seguiu a Refit.
O grupo esclareceu que "questões tributárias envolvendo a companhia estão sendo discutidas no âmbito judicial e administrativo" e ressaltou que "a atual gestão da Refit herdou passivos tributários acumulados por administrações anteriores e, desde então, vem adotando medidas para regularização dessas obrigações". Além disso, de acordo com a empresa, operações policiais contra a Refit "prejudicam a concorrência no setor de combustíveis".
As defesas dos investigados ainda não foram localizadas. O espaço segue aberto.