Venda de zolpidem bateu recorde em 2020 e acendeu alerta das autoridades. Medicamento pode provocar várias reações adversas, principalmente, quando recomendações da bula são ignoradas.Na manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, de 34 anos, enfrentava dificuldades para dormir após voltar de um plantão em um hospital de São Paulo. "Tinha muito barulho, por causa da construção de uma linha de metrô", conta.
Ele precisava descansar, porque trabalharia em mais um plantão naquela noite. Piva fez o que era rotina nos dias insones: tomou um comprimido de zolpidem. Ainda sem conseguir dormir, tomou mais um, depois outro, outro… e apagou. "Até onde me lembro, tomei quatro", conta à DW.
O médico só acordou dias depois, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas, em São Paulo. A sobrevivência dele foi considerada um milagre. Na cama do hospital, após diversas cirurgias, amputação da perna direita e sem conseguir enxergar, Piva descobriu o que havia acontecido: ele caiu da sacada do sétimo andar do apartamento em que morava.
A Polícia Civil de São Paulo investigou o caso, que a princípio foi tratado como suspeita de tentativa de suicídio. "Eu sabia que não tinha tentado me matar, mas não sabia o que tinha acontecido", conta o médico. "Era uma sacada pequena e baixa, mas não sei exatamente como caí", completa.
Três meses depois da queda, as autoridades policiais arquivaram o caso. Elas concluíram que não havia sido tentativa de suicídio, muito menos crime. No relatório final da polícia, a queda de Piva foi relacionada ao uso de zolpidem, medicamento que, como o inquérito policial cita, tem "efeitos colaterais como: alucinações e parassonias (sonambulismo)."
Popularizado na década de 1990
A família de Piva acredita que ele teve um episódio de sonambulismo, se desequilibrou perto da televisão da sala, que era próxima à sacada, e despencou. O caso dele ilustra um problema de saúde pública no país: o uso inadvertido do zolpidem, medicamento mais popular para insônia no Brasil.
Lançado no fim dos anos 1980 para quem tem dificuldades para dormir ou manter o sono, o zolpidem faz parte de drogas sedativas e hipnóticas para tratamento de insônia a curto prazo. A recomendação de uso é de, no máximo, quatro semanas. O remédio chegou ao Brasil em meados dos anos 1990, mas foi popularizado a partir de 2007, quando a patente expirou e foram lançadas versões genéricas.
Um estudo recente do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), publicado na revista Sleep Science, mostrou que a insônia, que atinge até um em cada três brasileiros, costuma ser tratada na maioria das vezes com remédios (60% dos entrevistados), seja por prescrição médica ou automedicação.
Segundo esse estudo, intitulado Uso de medicamentos para dormir e fatores associados entre adultos com sintomas de insônia, os remédios mais consumidos são os hipnóticos (44% dos participantes), classe que tem o zolpidem como o principal medicamento.
"O zolpidem é eficaz e tem lugar no tratamento da insônia quando há indicação correta, dose adequada, orientação e acompanhamento. O problema foi a progressiva banalização de seu uso, muitas vezes como se fosse um simples indutor do sono de baixo risco, sendo prescrito de forma não cuidadosa", explica o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Programa de Transtornos do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq-FMUSP).
Um problema de saúde pública
Em 2020, início da pandemia de covid-19, a comercialização do zolpidem explodiu no país. Naquele ano foram vendidas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 23,3 milhões de caixas. Foi a primeira vez que ultrapassou a marca de 20 milhões de caixas comercializadas.
Os profissionais da saúde acenderam um alerta e chegaram a classificar a situação como uma epidemia de zolpidem.
O medicamento pode provocar várias reações adversas, como dependência química, crises de abstinência, amnésia, sonambulismo e delírios. Esses efeitos são atípicos quando consumido no prazo e dosagem indicada. Mas especialistas dizem que se tornaram corriqueiros porque muitos pacientes fazem consumo inadequado.
Esses riscos aumentam quando o remédio é associado a álcool ou depressores do sistema nervoso central, que são medicações que podem causar sonolência ou lentidão. Por ser um remédio de curta duração, a tolerância ao zolpidem aumenta com facilidade. Isso faz com que muitos pacientes tomem cada vez mais comprimidos.
Quanto mais doses, mais riscos de efeitos adversos. "É muito comum um paciente que toma cinco, seis ou até oito vezes a dose máxima recomendada, que é um comprimido de 10 mg por dia", diz o psiquiatra Sérgio Tamai, membro da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
"Um dos principais efeitos adversos é a amnésia lacunar. A pessoa tem um 'branco' e não sabe o que fez durante um determinado período. Por exemplo, um paciente já ficou com o carro amassado e mal estacionado, pensou que alguém tinha pegado o veículo. Depois descobriu que havia sido ele mesmo", completa Tamai.
As restrições da Anvisa
Diante do cenário de alto consumo do remédio, a Anvisa adotou medidas para restringir a venda do zolpidem no país. Desde agosto de 2024, o medicamento entrou na lista daqueles popularmente conhecidos como "tarja preta".
Assim, a comercialização, que antes era liberada com a receita branca de controle especial, passou a ser feita somente por meio de receita azul, um documento da Anvisa para medicamentos que podem causar dependência. Desde então, ele só pode ser prescrito presencialmente.
Depois dessa medida, os números oficiais de comercialização caíram. No ano passado, as vendas reduziram para quase 13,5 milhões de caixas. Os dados, porém, escondem um problema que já existia antes dessa mudança: o mercado ilegal de venda desses medicamentos sem prescrição médica.
A Anvisa tenta combater esse problema por meio de apurações sobre as origens desse comércio irregular.
"No Brasil, esse mercado paralelo é muito grande, diferente de outros países. Então, aqueles que são dependentes dessa medicação, muitas vezes usam receitas falsificadas ou buscam farmácias irregulares. Por causa desse mercado paralelo, não dá para dizer que o problema de abuso do medicamento está resolvido", explica a médica Sandra Doria Xavier, do Instituto do Sono de São Paulo.
Novas diretrizes
No ano passado, a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) publicou uma nova diretriz clínica nacional na qual classificou o uso inadvertido do zolpidem como problema de saúde pública no Brasil. O documento cita os eventos adversos e o uso inadvertido por pacientes que se tornaram dependentes do remédio.
Nessa diretriz, assinada por especialistas de diferentes universidades brasileiras, o tratamento indicado para a insônia é a terapia cognitivo-comportamental, como a higiene do sono e a regulação de horários para dormir. Segundo os especialistas, essas medidas são importantes porque tratam as causas do problema.
No caso do consumo do zolpidem, a orientação é que o paciente saiba que o tratamento é temporário. Além disso, a retirada ou troca do remédio deve ser acompanhada por um médico, porque pode levar a crises graves.
"O zolpidem não é uma medicação que deve ser abominada, quando bem indicado e no prazo correto é um ótimo remédio", afirma o neurologista Alan Eckeli, professor da USP de Ribeirão Preto e um dos responsáveis pela diretriz.
Eckeli afirma que o problema com o uso indevido é quase exclusivo do Brasil. "Talvez haja algo em outro país, mas nada como aqui. Um dos motivos disso é que a comunidade médica daqui recebe, muitas vezes, um treinamento muito aquém do ideal quando se fala de queixas do sono", afirma o neurologista.
Os especialistas apontam que é fundamental que haja orientações mais detalhadas aos médicos brasileiros sobre o tratamento de insônia, além dos cuidados adequados quando recorrerem aos hipnóticos.
Pacientes mais atentos
Os pacientes ficaram mais conscientes sobre os riscos do zolpidem após a medida da Anvisa, avalia Eckeli. "Não foi uma mudança total, porque ainda é um problema importante e complexo. Mas serviu como orientação. Hoje, os pacientes que procuram os serviços especializados já têm receio dessa classe de medicamentos. A maioria quer parar de usar", completa.
No caso do médico Vitor Piva, as consequências do uso inadvertido do remédio são sentidas diariamente, por causa das limitações causadas pela queda do sétimo andar. Ele não recuperou a visão, passou por cerca de 20 cirurgias e faz acompanhamento para reaprender a falar, pois teve inúmeras fraturas no rosto.
Para as atividades diárias, Piva precisa do apoio dos pais e do irmão. Recentemente, começou a trabalhar na área de assistência particular para perícias médicas. "Ainda tenho esperança de que vai existir, mais pra frente, algum tratamento que vai me ajudar a voltar a enxergar", diz.
Piva admite que sabia dos riscos do zolpidem, mas ainda assim prescrevia os medicamentos para si. "É aquilo, dizem que os médicos são os piores pacientes. Eu acredito que é um pouco de culpa minha, por ter feito o uso errado da medicação."
Piva nunca mais tomou o zolpidem e hoje alerta sobre os riscos do remédio. "Quando algum amigo diz que está tomando, já aconselho a parar", diz.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.