O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá início neste domingo à sua última campanha pela Presidência no exato local de onde liderou as greves que o lançaram na vida política nacional, mas com um novo desafio: conquistar uma geração de trabalhadores com pouca ligação com os sindicatos e o chão de fábrica, que já foram a espinha dorsal do seu Partido dos Trabalhadores (PT).
Aos 80 anos e prestes a iniciar sua sétima campanha presidencial, Lula sabe que o movimento que liderou há quase 50 anos reunindo milhares de trabalhadores no Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), para lutar pelos direitos dos trabalhadores, praticamente desapareceu.
Hoje, seu governo e seu partido enfrentam dificuldades para encontrar pontos em comum com uma geração de trabalhadores para a qual a estabilidade do emprego formal não é a norma -- e, em muitos casos, nem mesmo é desejada.
"Houve uma mudança substancial no mundo do trabalho", disse Lula em um dos muito discursos em que reconheceu essas dificuldades. "E nós, então, precisamos adequar o nosso discurso ao mundo do trabalho, que não é só a carteira profissional assinada."
Para a eleição de outubro, o PT tenta alcançar esses novos trabalhadores com uma campanha pela redução da jornada de trabalho com o fim da chamada escala 6 x 1 e buscando novas proteções para trabalhadores de aplicativos, incluindo regras sobre remuneração, condições de trabalho, benefícios previdenciários e algoritmos das plataformas.
A resistência das empresas tem impedido a maior parte desses esforços até agora, e milhões de trabalhadores de aplicativos, em sua maioria homens jovens, parecem céticos em relação à intervenção governamental. Esse é um grupo eleitoral que o principal rival de Lula pela Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está pronto para disputar.
A ECONOMIA DE BICOS
No centro do dilema de Lula está o crescimento dos empregos fora do sistema formal de trabalho que garante aos trabalhadores uma série de direitos trabalhistas e benefícios previdenciários. Dados do IBGE mostram que, embora o número de pessoas ocupadas no país tenha crescido, o emprego formal tornou-se menos comum.
Em dezembro de 2010, quando Lula concluiu seu segundo mandato, a taxa de desemprego estava em 5,3% e 46,7% dos trabalhadores tinham empregos formais. Em dezembro de 2025, o desemprego havia caído para 5,1% -- o menor nível já registrado --, mas a proporção de trabalhadores no regime CLT havia caído para 38,2%.
Darlan Almeida, de 27 anos, já foi CLT, mas há sete anos trabalha fazendo entregas por aplicativos em São Bernardo do Campo, onde nasceu. Sua conta é simples: um emprego CLT lhe pagaria em torno de R$3 mil. Nos aplicativos, diz, ganha cerca de R$8 mil e fica com em torno de R$5,5 mil depois das despesas com a moto.
Filho de nordestinos, Darlan conta que seu pai, que chegou à cidade durante o auge da industrialização do ABC Paulista, na década de 1970, era operário de uma fábrica e admirador de Lula até falecer.
"Ele contava que naquela época as fábricas andavam com carro nas ruas chamando as pessoas para trabalhar. Hoje não existe mais isso", disse.
O filho não herdou a admiração pelo presidente e diz que não pensa muito em política. Preocupa-se com melhorias na vida dos entregadores, mas tem dúvidas sobre as propostas do governo.
"Eles não sabem do que a gente precisa nem como a gente trabalha. Deveriam passar um dia com a gente nas ruas", afirmou.
Almeida é um dos 2,1 milhões de brasileiros que trabalham por meio de plataformas digitais, uma força de trabalho que cresceu 170% entre 2015 e 2025, segundo estimativa do Banco Central baseada em dados da Pnad Contínua.
O motorista Eduardo Marini Filho, de 51 anos, diz que o que mais o atrai é a flexibilidade do trabalho, e não as proteções associadas ao emprego formal. Depois de passar a maior parte de sua carreira em empregos temporários, ele afirma não ter intenção de retornar ao mercado de trabalho tradicional.
Eleitor de direita, Marini reclama das condições de trabalho nas plataformas, mas também faz eco a uma crítica comum à regulamentação governamental, argumentando que as regras propostas ameaçam a autonomia dos trabalhadores.
"Se impuserem uma exigência mínima de tarifa, como o governo quer, acho que a Uber vai sair do país", disse ele.
Pesquisadores afirmam que o surgimento desse grupo reflete mudanças econômicas mais amplas. Oswaldo Amaral, do Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade de Campinas, diz que o aumento do desemprego durante a recessão de 2015-2016 no Brasil levou muitos trabalhadores a empregos informais e, por fim, às plataformas digitais.
"Com o surgimento da economia de plataforma, surgiu um novo tipo de trabalhador autônomo que, muitas vezes, acredita ser seu próprio empresário. Isso os leva a defender que não precisam do governo, que o governo apenas atrapalha e que seus próprios esforços são suficientes para ter sucesso", afirmou.
Essa visão, explica, acaba empurrando esses trabalhadores ainda mais para a direita, que tradicionalmente defende a ideia de um Estado menor.
Uma pesquisa encomendada ao instituto Datafolha em 2023 pela Uber e o Ifood mostrou que 40% dos motoristas se classificam como de direita, 40% como de centro e apenas 20%, de esquerda.
CRISE DE IDENTIDADE
Lula tentou regulamentar o trabalho por aplicativos em 2024, mas os esforços perderam força diante da resistência das grandes empresas de tecnologia e do aumento da desconfiança dos trabalhadores. O governo voltou a tentar neste ano, mas não houve ainda um acordo com o Congresso.
Para o partido que nasceu para representar os trabalhadores, adaptar-se a essa realidade tem se mostrado difícil.
"O PT surgiu de um movimento sindical intimamente ligado ao emprego formal e à relação empregador-empregado. Os trabalhadores de aplicativos, no entanto, não se encaixam nesse quadro: não são nem empregados nem empregadores. O PT não tinha uma mensagem adaptada a esse grupo", disse Marco Teixeira, professor de ciências políticas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. "O objetivo agora é compreender essa nova face do capitalismo."
Uma pesquisa encomendada pelo PT e realizada pelo instituto de pesquisa Vox Populi em junho do ano passado, analisada pela Reuters, ressalta as contradições desse grupo, que quer se manter independente, mas também quer direitos.
De acordo com o levantamento, 65% dos entrevistados afirmaram que gostariam de se tornar empreendedores, enquanto apenas 27,5% disseram que prefeririam um emprego formal. No entanto, 56% afirmaram que ter direitos trabalhistas era "muito importante".
Entre as medidas citadas como as mais importantes para melhorar as condições de trabalho estavam o adicional de periculosidade, os adicionais por doença e acidente e um piso salarial mínimo.
PROCURA-SE AJUDA
Após sete anos dirigindo para a Uber, Rogério do Santo, de 43 anos, está procurando novamente um emprego formal. Ele afirma que as tarifas baixas reduziram seus ganhos, enquanto a falta de representação organizada deixa os motoristas com pouca capacidade de pressionar por condições melhores.
"Não temos ninguém do nosso setor para nos representar e buscar melhorias ou benefícios em nosso nome", afirmou.
Suas queixas indicam um possível caminho para o PT reconquistar pessoas como ele. Muitos trabalhadores informais rejeitam os rótulos de empregado ou sindicalizado, mas ainda desejam maior proteção.
A taxa de sindicalização no Brasil praticamente caiu pela metade na última década, recuando para 8,9% em 2024, ante 15,7% em 2014, segundo os dados oficiais mais recentes. Dados da pesquisa feita pelo PT mostram uma ambivalência em relação à organização coletiva. Quase 40% dos entrevistados afirmaram que ter seu próprio sindicato seria benéfico, mas uma porcentagem igual afirmou que não se filiaria a um.
O presidente do PT, Edinho Silva, considera que os sindicatos e as organizações políticas continuam desconectados dos trabalhadores de plataformas porque ainda atuam com base na lógica do emprego formal.
"O movimento sindical e as organizações de esquerda não estão conseguindo abordar as condições de trabalho desses trabalhadores. Não estão dialogando com eles, não estão organizando-os e não estão presentes em seu dia a dia", disse, argumentando que as cooperativas poderiam oferecer um caminho para a organização do setor.
A questão continua sendo central para a estratégia política do PT, que busca reconstruir laços com uma classe trabalhadora cada vez mais moldada pelas plataformas digitais, em vez das linhas de montagem.
"Queremos estabelecer um sistema para proteger os trabalhadores da economia digital e das plataformas, que regule adequadamente a atividade empresarial e defina as regras para a relação de trabalho, remuneração, condições de trabalho, proteções e direitos trabalhistas e previdenciários, além da transparência algorítmica", afirmou o partido em sua plataforma de governo divulgada nesta semana.