Luciana Rosa, correspondente da RFI em Washington
O encontro entre Lula e Trump foi classificado pelo governo americano como uma "visita de trabalho". A viagem vinha sendo negociada desde março, mas acabou adiada por causa da escalada da guerra no Oriente Médio e do envolvimento dos Estados Unidos no conflito.
Comitiva inclui ministros da Fazenda, Justiça e diretor-geral da PF
Lula desembarcou nos Estados Unidos acompanhado de cinco ministros, além do diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, em uma composição que evidencia o peso político e estratégico das negociações.
Entre os integrantes da comitiva estão o chanceler Mauro Vieira e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que deve tratar diretamente das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e também da investigação americana envolvendo o Pix. Antes do encontro, Durigan afirmou que a expectativa do governo brasileiro é "normalizar a relação bilateral" e evitar que "elementos estranhos" prejudiquem a população brasileira.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Rosa, também participa das discussões econômicas. Já o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, abordará temas ligados às terras raras e minerais estratégicos, enquanto o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e o diretor-geral da Polícia Federal integram as conversas voltadas à segurança pública e ao combate ao crime organizado.
Nos bastidores, a principal preocupação do governo brasileiro é impedir que o PCC e o Comando Vermelho sejam classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Diplomatas do Itamaraty avaliam que uma decisão desse tipo poderia abrir espaço para uma maior interferência americana em temas de segurança pública dentro do Brasil.
A presença do diretor-geral da Polícia Federal na comitiva também ganhou importância depois da crise diplomática registrada no mês passado entre os dois países. Na ocasião, o governo Trump expulsou o delegado da PF Marcelo Ivo, que atuava como oficial de ligação junto ao ICE, a polícia de imigração americana, após a detenção, na Flórida, do ex-deputado Alexandre Ramagem, considerado foragido pela Justiça brasileira.
O Brasil respondeu com medidas de reciprocidade e expulsou um agente norte-americano que trabalhava em Brasília.
Governo teme interferência americana nas eleições presidenciais brasileiras
Outro ponto de preocupação do governo brasileiro é a possibilidade de interferência americana nas eleições presidenciais de outubro. O temor aumentou depois que Darren Beattie, assessor sênior do governo Trump, tentou visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, em março deste ano. Na ocasião, o governo brasileiro cancelou o visto de Beattie, gerando mais um episódio de tensão diplomática entre os dois países.
Integrantes do Itamaraty avaliam que a visita de Lula a Washington também funciona como uma tentativa de reconstruir canais de diálogo e reduzir o clima de desconfiança entre os dois governos.
Casa Branca destaca "interesses econômicos e de segurança compartilhados"
Ao confirmar a reunião, a Casa Branca afirmou que Lula e Trump devem discutir "interesses econômicos e de segurança compartilhados".
A imprensa americana tem destacado que o encontro acontece apesar dos meses de atrito entre os dois governos, marcados por disputas tarifárias, diferenças ideológicas e pelo caso Bolsonaro no Brasil.
Segundo informações da agência Reuters, o bilionário brasileiro Joesley Batista, um dos donos da JBS, teve papel central na articulação do encontro entre os dois presidentes.
Esta será a terceira reunião presencial entre Lula e Trump desde o início do atual mandato do presidente brasileiro.