Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance

Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d'être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte.

7 mai 2026 - 13h57

A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação.

Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. "Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo", explica.

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"Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia", afirma Juliana em entrevista à RFI. 

Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. "É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual", explica.

As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse.

"Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação", detalha. 

Observação das atletas nos Jogos Paris 2024

À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma. 

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O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje "teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta":

"Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo", relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura.

Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo - no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: "Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta".

Conhecimento e empoderamento 

Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. "Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina", descreve. 

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Para Juliana Antero, escutar o ciclo menstrual é uma forma concreta de empoderamento. "Significa entender que não funcionamos de maneira linear, mas cíclica, e aprender a tirar proveito dessa ciclicidade para gerenciar a própria saúde e o bem-estar". 

Por enquanto, 'Votre Cycle Menstruel Mérite d'être Écouté'  está disponível apenas em francês. Segundo a autora, há uma tradução avançada para o chinês em andamento e outras propostas.

Apesar do desejo de ver uma versão do seu livro em sua língua materna, ainda não há previsão de adaptação para o português. "As brasileiras querem cada vez mais entender o que acontece com seus corpos e melhorar a saúde", afirma Juliana Antero. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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