Documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein indicam que seu interesse pelo Brasil ia além do seu vínculo com modelos e o suposto financiamento de uma rede de prostituição que incluía mulheres brasileiras.
A BBC News Brasil identificou, por exemplo, a existência de um CPF em nome de Epstein junto à Receita Federal. A reportagem também encontrou um e-mail em que Epstein classificou como uma "interessante" a sugestão feita a ele para obter a cidadania brasileira. Não há registros, porém, de que ele tenha, de fato, se naturalizado como brasileiro.
Os e-mails, extratos bancários e outros documentos divulgados pelo governo norte-americano nas últimas semanas também apontam que Epstein tinha uma equipe de consultores que monitorava a economia brasileira e lhe sugeria investimentos ligados ao Brasil.
Os e-mails também mostram que ele tinha intenção de se aproximar de empresários brasileiros como Eike Batista, Jorge Paulo Lemann e do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga — nos documentos, os nomes foram citados por terceiros como pessoas de grande relevância no cenário do país.
Ser mencionado ou ter sua imagem incluída nos arquivos divulgados pelo governo americano não implica, necessariamente, um delito.
Não foram encontrados documentos que comprovem que Epstein de fato se encontrou com os três ou que teve negócios com eles. Procurados, Fraga, Batista e Lemann disseram que não se encontraram e que não tiveram nenhum tipo de negócio com o norte-americano encontrado morto na prisão, em Nova York, em 2019.
O CPF brasileiro
O CPF brasileiro em nome de Epstein foi registrado, segundo a Receita Federal, em 2003. O ano coincide com a época em que Ghislaine Maxwell, considerada cúmplice de Epstein e condenada por aliciamento de menores de idade para exploração sexual, trocou e-mails com um empresário brasileiro a respeito de uma viagem que o casal faria ao Brasil entre o final de 2002 e o início de 2003.
A BBC News Brasil identificou que o CPF foi registrado com a mesma data de nascimento de Epstein e está em situação regular.
O advogado e mestre em Direito tributário Alexandre Tortato explica que, em 2003, que qualquer estrangeiro pode obter um CPF junto à Receita Federal desde que apresente os documentos requeridos.
Ele afirma que em 2003, era necessário que o estrangeiro ou algum procurador fosse a uma representação diplomática brasileira no exterior ou a algum posto de atendimento da Receita Federal no Brasil.
Segundo ele, é comum que investidores estrangeiros tenham CPFs.
"O CPF é necessário para aberturas de contas em bancos brasileiros, para a realização de operações na bolsa de valores em nome de pessoa física ou mesmo para adquirir bens que precisam de registro público", afirma Tortato.
Para o advogado, obter um CPF indica que Epstein tinha interesses no Brasil para além do turismo.
"Um turista não precisa ter CPF. Normalmente, o estrangeiro que emite um CPF em seu nome tem interesses comerciais por aqui", afirma.
Procurada, a Receita Federal disse, inicialmente, que não poderia fornecer detalhes sobre o CPF em nome de Epstein porque a "solicitação de informações ou a confirmação de dados cadastrais vinculados ao Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) está restrita ao próprio titular da inscrição ou ao seu representante legal".
Em uma nova nota, a Receita disse que "a inscrição no CPF, inclusive a de estrangeiro, pode ser solicitada pela própria pessoa ou seu procurador, conforme dispõe o Anexo IV da Instrução Normativa RFB 2.172/2024".
Um outro indício de que o CPF em nome de Epstein pertencia, de fato, ao financista é uma relação de documentos coletados por autoridades norte-americanas e que também foi divulgada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
No documento, consta: "Brazilian CPF (has old POA in it)". Na tradução livre, a anotação indica que foi encontrado um CPF brasileiro com um "POA" anexado a ele. "POA" é uma sigla frequentemente usada em inglês que significa "procuração". Como mencionado pela Receita Federal, o uso de procurações é uma das formas de um estrangeiro obter um CPF.
Nacionalidade brasileira: "ideia interessante"
Em uma troca de e-mails entre Epstein e a empresária alemã Nicole Junkermann, os dois comentam sobre a possibilidade de o norte-americano obter a cidadania brasileira.
"O que você acha de tirar a cidadania brasileira?", indagou Junkermann em um e-mail enviado no dia 5 de outubro de 2011.
No mesmo dia, Epstein respondeu.
"Ideia interessante, entretanto vistos podem ser um problema, quando viajar para outros países", disse o norte-americano.
Os e-mails divulgados não deixam claro qual o contexto no qual a sugestão foi dada. A correspondência aconteceu dois anos depois de ele ter cumprido 13 meses de prisão após um acordo com a justiça da Flórida em que ele reconheceu ter praticado exploração sexual de menores.
Em depoimento prestado às autoridades norte-americanas em 2010, uma ex-funcionária de Epstein disse que o empresário fazia viagens constantes ao Brasil tanto para visitar clientes e que, quando estava no Brasil, fazia contato com uma mulher que lhe apresentava garotas, inclusive, menores de idade.
A nacionalidade brasileira, portanto, facilitaria os trâmites para Epstein viajar ao Brasil, uma vez que como norte-americano, ele precisaria se submeter ao processo de obtenção de visto junto ao governo brasileiro.
A BBC News Brasil tentou contato com Nicole Junkermann por e-mail, mas não obteve resposta.
Uma nota atribuída a ela publicada pelo portal de notícias britânico The Tab diz que um porta-voz de Junkermann afirmou que ela foi "enganada e iludida" por Epstein e classificou os crimes cometidos por ele como "terríveis".
Procurado, o Ministério da Justiça e Segurança Pública enviou uma nota informando que não consta nenhum registro de naturalização em nome de Jeffrey Edward Epstein no Brasil.
Aposta em valorização do Real às vésperas da Copa
Outro e-mail identificado pela BBC News Brasil aponta que Jeffrey Epstein recebia informações sobre a economia brasileira e sugestões de investimentos envolvendo ativos brasileiros.
Em 12 de março de 2013, Epstein recebeu sugestões para investir em notas cambiais atreladas ao Real com a expectativa de valorização em função do provável aumento da taxa de juros brasileira.
"Eu realmente acho que deveríamos colocar algum dinheiro nesta nota. Estar comprado em BRL (real) para a Copa do Mundo faz sentido. A inflação doméstica deve permitir que eles aceitem uma leve valorização cambial. E eles provavelmente devem aumentar os juros em 150 pontos-base este ano", diz um trecho do e-mail enviado por Paul Barret, que à época, trabalhava no banco JP Morgan.
Barret, então, aconselha Epstein a investir US$ 1 milhão.
Em seguida, o norte-americano responde: "Ok".
Pela legislação brasileira, não há vedação para que estrangeiros possam fazer investimentos em notas cambiais atreladas ao real. A BBC News Brasil não encontrou e-mails que comprovem que a transação foi realizada.
Ainda de acordo com o e-mail, o investimento teria sido feito por meio da empresa Southern Trust, uma das empresas usadas por Epstein para fazer negócios.
A aposta , no entanto, teria sido acertada se foi de fato concretizada. Como previsto pelos consultores de Epstein, a taxa básica de juros brasileira subiu nos meses seguintes. Em julho de 2014, mês da Copa do Mundo, ela já havia subido de 7,5% para 11% ao ano.
Visita ao Brasil e tentativas de reunião
O interesse pelo Brasil também fez com que Epstein tentasse se aproximar de empresários brasileiros, segundo documentos divulgados nas últimas semanas.
As tentativas estão registradas em registrada em trocas de e-mails ocorridas entre os anos de 2002 e 2003 e entre 2012 e 2013.
Na primeira, Ghislaine Maxwell, condenada a 20 anos de prisão por aliciamento de menores para fins de exploração sexual, conversa com o empresário brasileiro Marcelo de Andrade em dezembro de 2002 sobre uma viagem que ela e Epstein fariam ao Brasil nos meses seguintes.
Nos e-mails, Andrade, que dirige uma organização não-governamental ambientalista, sugere o nome de empresários brasileiros com os quais Epstein e Maxwell poderiam se encontrar durante sua permanência no Brasil.
Andrade sugeriu reuniões com Armínio Fraga, que à época estava deixando o comando do Banco Central; com o empresário Jorge Paulo Lemann, atualmente considerado o terceiro brasileiro mais rico pela lista da Forbes; e com o então dono do jornal Gazeta Mercantil, Luiz Fernando Levy, morto em 2017.
Andrade contou à BBC News Brasil que um amigo em comum pediu que ele ajudasse um "casal muito rico" durante sua viagem ao Brasil.
"A Ghislaine me mandou um e-mail perguntando quem eram as pessoas que eu mais admirava no Brasil e eu fiz uma lista com pessoas que eu achava bacana", diz Andrade.
Em um e-mail enviado por Andrade a Ghislaine Maxwell no dia 16 de dezembro de 2002, o brasileiro diz ter conseguido confirmar uma primeira agenda.
"Consegui confirmar o primeiro encontro: Luis Fernando Levy, presidente da Gazeta Mercantil, na sexta-feira, às 10h, no escritório dele. Jorge Paulo Lemann está voltando de viagem nesta noite, então vou confirmar amanhã. Arminio Fraga, presidente do Banco Central (garoto prodígio de Soros) está entregando seu cargo nesta semana para Meirelles, seu sucessor e talvez não seja capaz de participar, talvez no sábado, você estaria disponível?", diz o e-email.
O termo Soros no e-mail é uma menção ao financista George Soros. Meirelles era uma menção ao ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.
Andrade conta que se encontrou com o casal em um restaurante em São Paulo, entre o final de 2002 e 2003. Na ocasião, segundo ele, os três discutiram sobre as possíveis reuniões com os nomes sugeridos por ele.
O brasileiro diz que, na época do encontro e dos e-mails, ele não tinha conhecimento dos crimes pelos quais Epstein e Ghislaine foram condenados.
"Eu não tinha a menor ideia. Quando as notícias saíram, anos depois, eu fiquei bastante surpreso. É realmente uma pena quando vemos pessoas usando seu poder e influência para coisas tão terríveis", diz Andrade.
O brasileiro diz não acreditar que os encontros sugeridos por ele aconteceram.
"Eles nunca me falaram nada sobre se os encontros aconteceram ou não. E eu acho que eles me falariam porque eles teriam que usar o meu nome para chegar (nas pessoas). Nunca ouvi nada deles. Tenho quase certeza de que não aconteceu", diz Andrade.
Procurado pela BBC News Brasil, Armínio Fraga negou ter se encontrado com Epstein.
"Deram meu nome como alguém a conhecer, em lista com outros. Não aconteceu", disse Fraga por e-mail.
A assessoria de imprensa de Jorge Paulo Lemann disse, em nota, que Nikolic foi apresentado a ele por Bill Gates. A nota também diz que o brasileiro e Epstein não se conheceram.
"Não havia nenhuma relação conhecida entre Boris Nikolic e Jeffrey Epstein, tampouco o nome de Epstein foi citado na ocasião. Reiteramos que Jorge Paulo Lemann nunca conheceu Jeffrey Epstein".
Do jantar com Epstein e Maxwell, Andrade diz ter tido impressões diferentes sobre eles.
"Socialmente, ela era uma mulher muito simpática e falava sobre um projeto de conservação de oceanos que me parecia muito bom. Ele, por outro lado, tinha uma energia ruim. Parecia ter uma nuvem negra sobre a cabeça. Não gostei", conta.
Em outro e-mail, de junho de 2013, o médico Boris Nikolic relata um encontro que teve com Jorge Paulo Lemann. À época, Nikolic tentava obter investidores para um fundo que ele organizava. Nikolic é médico e foi indicado por Epstein como um dos inventariantes do seu patrimônio.
No dia 10 de junho de 2013, Nikolic narra seu encontro com Lemann.
"Acabei de deixar Paulo Lemann. Fiquei com ele por cinco horas. Imediatamente após eu dizer a ele que eu estava deixando Bill e pensando em um fundo, ele se ofereceu para investir (eu não pedi a ele). Ele também disse que ele poderia trazer muitos outros amigos bilionários para se entrar", diz.
Pelos e-mails, não fica claro se Epstein tinha alguma participação no fundo e nem se Lemann de fato investiu no fundo mencionado por Nikolic. O nome "Bill" é uma provável menção ao bilionário Bill Gates, de quem Nikolic foi conselheiro.
Convite a Eike Batista
Outro empresário brasileiro que esteve na mira de Epstein foi o ex-bilionário Eike Batista.
E-mails trocados ao longo de 2012 entre Epstein e o empresário britânico Ian Osborne mostram tentativas de aproximar o norte-americano com Eike Batista. Parte destes e-mails foram revelados por uma reportagem da Folha de S. Paulo.
Em um dos e-mails revelados, Epstein indica que Osborne seria a pessoa indicada para estabelecer o contato com Eike Batista.
Em outro e-mail, no dia 28 de agosto de 2012, Epstein demonstra estar informado sobre os negócios de Batista e escreve para o executivo Sultan bin Sulayem, CEO do grupo de logística DP World, se ele teria interesse em fazer negócios com o brasileiro.
"Sei que Eike Batista abordou Hutchinson para uma JV (abreviação para joint-venture) em um novo porto no Brasil. Ele tem problemas de caixa. Algum interesse?", disse Epstein.
Sulayem respondeu em seguida dizendo que só tinha interesse em portos que fizessem parte do negócio principal do grupo.
Em outro e-mail, no dia 6 de março de 2012, Ian Osborne, apontado como responsável por estabelecer contato entre Epstein e Batista, consulta o então executivo do grupo de Batista, Marcelo Horcades, sobre a possibilidade de um encontro com o brasileiro.
Como resposta, Horcades diz que Eike.
"Eike está completamente ocupado na quinta. Vamos fazer a reunião com Eike na sexta", diz um trecho da resposta de Horcades.
Não há documentos, no entanto, que comprovem que o encontro aconteceu.
No dia seguinte, Osborne enviou um e-mail a Epstein com o título "Eike Batista 120225 final.doc", indicando uma tentativa de acordo comercial entre Epstein e Batista.
O documento, no entanto, não foi localizado.
No ano seguinte, em 2013, Epstein avisa Osborne que estará indo à ilha de St. Barth, no Caribe e diz ao britânico que ele poderia convidar Eike Batista para um almoço com Epstein e Elon Musk.
"Estou indo a St. Barth, eu acredito que Ike (sic) ainda está na sua lancha. se ele quiser almoçar comigo e elon musk, sinta-se à vontade para convidá-lo", disse Epstein.
Em nota, a assessoria de Eike Batista disse que recebeu propostas do emissário de Epstein.
"No início da década passada, quando Eike estava entre os 7 maiores bilionários do planeta, muitos investidores internacionais o procuravam com interesse no Super Porto do Açu, Super Porto Sudeste e Super Porto Brasil, entre outros. Entre estes investidores internacionais estava Ian Osbourne, mas as propostas dele não tiveram qualquer resultado concreto".
Em outro trecho, a assessoria de Batista nega ter tido contato com Epstein.
"O empresário Eike Batista reafirma mais uma vez que não conhece, nunca conversou ou trocou mensagens com Epstein. As citações aos nomes de Eike são meramente incidentais e sem qualquer relevância".
A BBC News Brasil enviou questionamentos a Ian Osborne por e-mail direcionado à sua empresa, mas não obteve resposta.
Infografia por Daniel Arce e Carlos Serrano, Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil.