Eleições no Brasil: como algoritmos e direitas globais ajudam a explicar a polarização

A poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, o Brasil chega às urnas em um ambiente de forte polarização política e de disputa intensa nas redes sociais. Para o historiador Rodrigo Nabuco de Araujo, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, o cenário atual é resultado de transformações profundas ocorridas na última década.

20 out 2026 - 14h03
(atualizado às 14h30)
Resumo
Segundo o historiador Rodrigo Nabuco de Araujo, a polarização política no Brasil decorre da união do bolsonarismo a uma direita global, do papel dos algoritmos e de um eleitorado jovem mais liberal e autônomo, forjado nas redes desde 2013. Sob a liderança mais polida de Flávio Bolsonaro, essa vertente afasta o militarismo e atrai jovens empreendedores avessos ao Estado, enquanto filtros de plataformas privadas e vieses digitais aprofundam as divisões e desafiam a esquerda e a Justiça Eleitoral.

A ascensão das direitas globais, a politização de uma geração formada nas mobilizações de 2013 e o papel crescente dos algoritmos na circulação da informação ajudam a explicar, segundo Rodrigo Nabuco de Araujo, a forte polarização que marca a política brasileira. Historiador e professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, especialista em história das direitas e da vida política brasileira contemporânea, ele analisa nesta entrevista as transformações que remodelaram o debate público e contribuíram para aprofundar as divisões do eleitorado.

RFI: O bolsonarismo de hoje está inserido em uma rede internacional de direitas?

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Rodrigo Nabuco de Araujo: Sim, eu diria que com certeza o bolsonarismo de hoje está ligado a uma direita internacionalizada. Essa corrente está vinculada aos meios de produção, mas também aos meios de difusão e comunicação. Existem relações pessoais entre Bolsonaro e Trump, relações regionais entre candidatos brasileiros e Javier Milei, na Argentina, e várias outras conexões, inclusive com países europeus.

É uma direita muito integrada internacionalmente. Há projetos compartilhados, ideais compartilhados, de liberalização da economia por um lado e conservadorismo em pautas morais e sociais por outro. É uma direita que troca ideias, participa de congressos, debates e discussões. Os meios de comunicação são um elemento central, porque favorecem essa rapidez das trocas e a presença desses grupos em diversos países.

Mas a campanha não é a mesma. Entre o bolsonarismo de 2026 e o de 2018, o que evoluiu nesse movimento?

Talvez o principal elemento atual seja a ausência do componente militar. Jair Bolsonaro tinha uma forte nostalgia da ditadura militar e utilizava isso como argumento político. Flávio Bolsonaro não tem essa nostalgia, pelo menos não a instrumentaliza da mesma forma.

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O público também está mudando. A Michelle Bolsonaro permitiu ao bolsonarismo estabelecer um diálogo com o eleitorado feminino, o que não acontecia com Jair Bolsonaro, que enfrentava uma rejeição muito maior entre as mulheres. Há também elementos de continuidade, principalmente no voto evangélico. Silas Malafaia, que já estava presente na campanha de Jair Bolsonaro, continua sendo uma referência importante, assim como outros pastores. Mas eu diria que Flávio Bolsonaro está se mostrando mais preparado do que o pai para enfrentar esta eleição. Isso já pode ser percebido em um discurso mais afiado e mais afinado.

Agora, o projeto de fundo é o mesmo: reduzir o tamanho do Estado, diminuir a independência entre os três poderes, ou seja, reverter parte das conquistas da redemocratização e da Constituição de 1988?

Sim, esse projeto não muda. Inclusive, o Flávio Bolsonaro fez uma declaração, alguns dias depois do primeiro turno, dizendo que uma das primeiras medidas que vai tomar será mudar a Constituição. Então ele tem esse projeto.

Para reduzir direitos e diminuir liberdades?

Isso. Acho que essa palavra, liberdade, tem várias interpretações. Quando falamos em reduzir liberdades, estamos falando de determinadas liberdades. Não da liberdade de empreendedorismo ou da liberdade econômica, mas de uma liberdade política, de uma liberdade social. É uma outra concepção de liberdade. Digamos que o Flávio Bolsonaro seria um libertário conservador, que defende realmente uma redução drástica da participação do Estado.

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O presidente Lula perdeu parte do eleitorado jovem que o apoiou em eleições anteriores para esse discurso de Flávio Bolsonaro. O que mudou nessa nova geração de eleitores em comparação com as gerações anteriores, especialmente as que chegaram à vida adulta antes dos anos 2000?

Há uma grande mudança no eleitorado jovem. Eu diria que o principal fator é uma relação muito mais distante com o Estado. Talvez isso esteja ligado à própria profissionalização dessa geração. São profissões mais digitalizadas, menos próximas do que seria o funcionalismo público. Não existe mais aquele ideal dos anos 1970 e 1980 de se tornar funcionário público. Hoje em dia, o ideal é ser o seu próprio empreendedor, ser o seu próprio patrão. Ou seja, não ter relações empregatícias.

Rodrigo Nabuco de Araujo é historiador, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autor de "Les diplomates en uniforme" (2022), obra sobre as relações militares entre França e Brasil durante a Guerra Fria.
Rodrigo Nabuco de Araujo é historiador, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autor de "Les diplomates en uniforme" (2022), obra sobre as relações militares entre França e Brasil durante a Guerra Fria.
Foto: RFI

Isso representa uma mudança muito grande. E, eleitoralmente, tem impacto sobre a recepção das propostas do governo Lula, que são mais voltadas para grupos que têm vínculo empregatício e relações com o Estado. Assim, são jovens que tendem a buscar candidatos mais liberais, que defendem a liberalização da economia. Eles veem essas políticas sociais como políticas que desviam recursos, que poderiam ser usados para outras finalidades e não para ajudar grupos e classes sociais com os quais não se identificam. Por isso, eles não têm essa identificação com as políticas do governo nem com os projetos do governo.

Como o eleitorado está muito dividido, com algo em torno de 52% a 48%, independentemente de quem vença o segundo turno, podemos dizer que hoje existem dois Brasis dentro do Brasil?

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Até muitos Brasis. Há divisões geracionais, territoriais, entre homens e mulheres. O eleitorado está muito dividido, muito polarizado. O Brasil está muito polarizado.

Foi dito muitas vezes que o eleitor do Lula é mais velho do que o eleitor do Flávio Bolsonaro, porque tem uma identificação com o Lula e com a Constituição de 1988 que é diferente da identificação dos mais jovens.

Há também um grau diferente de politização e de identificação de valores?

De identificação de valores, sim. Agora, de politização, de certa forma também, mas os jovens estão politizados. Há uma forma de politização característica do período iniciado em 2013, com as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte, que depois deram lugar a movimentos como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua.

Esses movimentos se desenvolveram fortemente na internet e nas redes sociais. Essa geração teve seu primeiro contato com a política nesse momento, nas mobilizações que culminaram nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. É uma forma de politização, mas uma forma de politização à direita.

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Talvez essa geração mais jovem tenha tido um contato maior com esse tipo de politização. Há também outro elemento: ela entra em contato com a política de maneira muito mais autônoma por meio das redes sociais e, muitas vezes, se radicaliza sem a mediação de um partido político, de um professor ou de alguém que possa explicar determinadas questões e promover uma forma de socialização política.

São jovens que têm menos espaços de socialização, outras experiências e outras ambições. Isso contribui para a divisão geracional e também para as divisões territoriais observadas no Brasil.

Você está descrevendo uma mudança profunda, porque novas gerações continuarão crescendo nesse mesmo ambiente.

Na verdade, é uma mudança que não tem volta. Vivemos em um mundo totalmente digitalizado e não há como retornar ao mundo anterior.

Mas os algoritmos têm influência nesse processo?

Totalmente.

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Nos últimos dias, houve denúncias de favorecimento algorítmico por parte da Meta, a ponto de o Tribunal Superior Eleitoral intervir a favor da campanha do Partido dos Trabalhadores. Quais podem ser os impactos desse fenômeno no longo prazo?

Não sei quem vai ganhar esta eleição, mas há uma questão importante para o futuro. O Lula está aí para disputar esta eleição, mas daqui a quatro anos não estará necessariamente no mesmo cenário. Portanto, se coloca desde já a questão da renovação da liderança política.

Quanto aos algoritmos, eles são muito importantes. Você tem uma plataforma como a Meta favorecendo determinados conteúdos que chegam com mais facilidade a públicos próximos do Flávio Bolsonaro. Isso é determinante no acesso à informação e na maneira como essa informação circula. Existe uma interferência de uma empresa privada na esfera da comunicação, e isso tem impacto direto sobre uma eleição.

Houve também, por exemplo, o caso do canal Exército do Lula, que ficou impedido de operar por ordem do TSE durante um período e depois teve sua situação revertida.

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Agora, falar em ingerência dos Estados Unidos por meio da Meta talvez seja mais delicado, porque a Meta é uma empresa privada e age segundo os seus próprios interesses, que são interesses conservadores. Mark Zuckerberg estava próximo de Donald Trump e tem esse viés conservador, que acaba sendo veiculado também por meio dos algoritmos.

Os algoritmos são um instrumento de direcionamento da informação. Talvez a palavra "manipulação" seja forte, mas eles funcionam como um mecanismo de filtro e moderação. É um instrumento que acaba tendo um viés político negativo para o governo Lula e para a candidatura de Lula.

E também para o eleitorado, porque ele passa a receber apenas parte das informações disponíveis.

Exatamente. O filtro impede que determinadas informações cheguem ao eleitorado. E a Meta controla plataformas como Instagram, WhatsApp e Facebook. Como uma parte enorme da circulação de informações passa por esses três canais, qualquer filtro aplicado ali terá um impacto muito grande.

Creio que o TSE está sendo obrigado a agir justamente para evitar que a disputa ocorra em condições tão desiguais.

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