Lobista recebeu R$ 4,1 mi de alvo da PF que contratou vizinho de Lulinha para atuar no Dnit

Roberta Luchsinger recebeu a quantia de empresas de pavimentação investigadas por desvios em obras que contratou Amauri Pinha, citado por ela em entrevista à CNN Brasil como vizinho e parceiro de negócios de filho do presidente Lula. Defesa de Lulinha afirma que ele é apenas amigo de Pinha; Roberta e empresário não se manifestaram

18 out 2026 - 15h57
(atualizado às 16h40)
Resumo
A lobista Roberta Luchsinger recebeu R$ 4,1 milhões de empresas de Eduardo DP, alvo da PF, que contratou o empresário Amauri Pinha — vizinho e amigo de Lulinha — para representá-las no Dnit. As investigações apuram repasses para intermediar verbas públicas federais e suspeitas de tráfico de influência envolvendo o filho do presidente. Em meio a inquéritos no STF, Roberta manifestou intenção de fechar delação premiada, enquanto a defesa de Lulinha e o governo negam qualquer irregularidade.

SÃO PAULO E BRASÍLIA — A lobista Roberta Luchsinger recebeu R$ 4,1 milhões de uma empresa alvo da Polícia Federal que foi representada junto ao governo federal pelo empresário Amauri Rodrigues Pinha. Engenheiro de formação, ele foi citado pela lobista, em entrevista à CNN Brasil, como amigo e parceiro de negócios de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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Procurada, a defesa de Luchsinger não se manifestou. Advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho afirmou que ele tem apenas amizade com Amauri Pinha, e nunca fizeram negócios juntos. "Fábio está disponível para prestar esclarecimentos a investigadores", disse. Procurado, Pinha não se manifestou. Após a entrevista de Roberta, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República disse que Lula "desconhece inteiramente os fatos relatados pela senhora Roberta Luchsinger".

Amauri Pinha é presidente do conselho de Administração da Empresa Construtora Brasil (ECB), um braço da construtora portuguesa Mota Engil. O grupo, de fato, detém, contratos públicos bilionários. Um deles, por exemplo, para obras na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, no valor de R$ 4,4 bilhões. Levou também a concorrência para construção do Túnel Santos-Guarujá, uma PPP do governo de São Paulo.

Em entrevista à CNN Brasil, Roberta Luchsinger afirmou que o grupo tem R$ 2 bilhões em contratos com o governo federal e citou a amizade de Lulinha com Pinha. Ela não detalhou se há algo ilegal ou para qual contrato Lulinha teria atuado para ajudar a empresa. Lulinha e Pinha são vizinhos em São Paulo, onde o filho do presidente tem um apartamento na Zona Sul da cidade. "Não estou dentro dessa história, mas conheço essa história", afirmou.

17.10.2026 Roberta Luchsinger em entrevista à CNN.
17.10.2026 Roberta Luchsinger em entrevista à CNN.
Foto: Reprodução/CNN / Estadão

Apesar de dizer que não está por dentro, Roberta recebeu pagamentos de uma empresa que também contratou Amauri Pinha para representá-la junto ao governo federal. Trata-se da EDP Infraestrutura e Pavimentação, que pertence ao empresário Eduardo José Barros Costa, conhecido como Eduardo DP, ou Eduardo Imperador, alvo da PF.

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O advogado Eduardo Leite, afirmou que "a empresa EDP cumpre rigorosamente os comandos legais de regência e colabora, sempre que chamada, com as autoridades públicas que solicitam ou requisitam informações ou esclarecimentos".

Eduardo é pivô das investigações sobre desvios de emendas parlamentares enviadas pelo deputado e ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho (União). Para a PF, o dinheiro enviado à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) com a finalidade de pavimentar rodovias foi desviado pela dupla. Juscelino foi denunciado pela PGR nas investigações.

Vizinho de Lulinha esteve no Dnit por empresa que pagou Roberta

No dia 10 de setembro de 2024, Amauri Pinha foi um dos representantes da EDP num encontro com o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Fabrício de Oliveira Galvão, para tratar de obras públicas. Segundo consta na agenda pública da reunião, Eduardo DP foi um dos participantes.

A reunião se deu no mesmo período em que foram feitos pagamentos de empresas de Eduardo DP a Roberta Luchsinger. De acordo com o relatório do Coaf, obtido pelo Estadão, a EDP Infraestrutura e Pavimentação pagou R$ 2,2 milhões à RL Consultoria e Intermediações, que pertence a Roberta, em um período entre setembro de 2024 e março de 2025.

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Segundo o Portal da Transparência do governo federal, a EDP está proibida de ser contratada pelo poder público. A ordem partiu de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. O caso está em sigilo e sob relatoria do ministro Flávio Dino, que também é o relator da investigação sobre Juscelino Filho. A sanção é de junho de 2026. Em sua justificativa, consta que se trata de uma medida preventiva contra a empresa fundamentada no Código Penal, para casos em que haja "justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais".

Além da EDP, uma segunda empreiteira do Maranhão, que é apontada em relatórios da PF como também controlada por Eduardo DP, a Pentágono Comércio e Engenharia, também transferiu R$ 1,9 milhão para Roberta nesse período.

Como mostrou o portal Metrópoles, mensagens identificadas pela PF indicam que os pagamentos a Roberta se deram para intermediar a liberação de verbas federais para obras no Maranhão. O negócio teria sido feito com um assessor do governador Carlos Brandão (MDB) e os pagamentos teriam sido indicados por ele por meio da EDP.

O Estadão mostrou que no celular de Roberta há mensagens em que ela afirma que Lulinha foi responsável por marcar uma reunião no Palácio do Planalto para o governador do Maranhão, com a finalidade de liberar obras.

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Relação de lobista com Lulinha foi identificada pela PF no caso INSS

Roberta Luchsinger passou a ser investigada após a PF identificar pagamentos do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, para suas empresas. Ele é alvo da PF na Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos de associações sobre os vencimentos de aposentados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O "Careca do INSS" é suspeito de atuar em nome das entidades e corromper ex-dirigentes do órgão.

Com o avanço das investigações, a PF identificou trocas de mensagens entre Roberta e Lulinha. Três inquéritos foram abertos no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar a dupla por tráfico de influência junto a órgãos públicos. Como mostrou o Estadão, ela esteve em mais de 40 visitas a órgãos públicos que não constam em agendas públicas durante o governo Lula.

Lobista fez acusações a Lulinha após ser chamada de pilantra por Lula

Até as últimas semanas, Roberta vinha apenas negando a pecha de lobista e se defendendo das investigações. Também reafirmava a amizade com Lulinha. Questionado em entrevistas, Lula chamou Roberta Luchsinger de "pilantra" e de versão "feminina" do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investigado por fraudes e corrupção pela PF. E negou que Lulinha tenha traficado influência em seu governo ao lado de Roberta.

No sábado, 17, a lobista mudou o tom em entrevista à CNN Brasil. Disse querer fazer um acordo de delação premiada e afirmou que não irá poupar nem Lula, nem Lulinha.

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"(A Polícia Federal) vai poder fazer o trabalho dela investigativo e contar com minha absoluta colaboração. Eu não vou poupar ninguém. Pode ser o presidente da República, que a meu ver é um grande mau-caráter, é um grande mentiroso, e eu repito, um grande covarde. Não vou poupar filho de presidente, ninguém, porque o que está em questão é a verdade", disse Roberta.

Roberta Luchsinger foi mulher do ex-deputado federal Protógenes de Queiroz. Tentou ser deputada estadual pelo PT em 2018, mas ficou somente na suplência. Em 2022, ensaiou candidatura à Câmara dos Deputados, mas desistiu.

Nos últimos anos, a lobista tem feito acenos ao presidente Lula. Em 2017, ofereceu doar R$ 500 mil a Lula após a Operação Lava Jato bloquear seus bens. Estreitou amizade com Lulinha e sua família e viajaram juntos.

Em mensagens encontradas pela PF, ela aparece mencionando pagamento de viagens a Lulinha e também negociações com empresas com interesses no governo federal. Ela também fez repasses a servidores públicos, como foi o caso de R$ 217 mil em despesas do chefe de gabinete de Lula, o Marco Aurélio Santana, o Marcola. Ele foi exonerado após o caso vir à tona. E afirma que apenas contraiu e quitou um empréstimo com a lobista.

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Veja a íntegra da resposta da Secretaria de Comunicação da Presidência da República:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desconhece inteiramente os fatos relatados pela senhora Roberta Luchsinger. Como já esclareceu em outras ocasiões, jamais manteve qualquer interlocução com ela, nunca recebeu suas demandas e tampouco tem conhecimento de supostas tratativas como as mencionadas. Importante ressaltar que não existe nenhum contrato do governo federal com a Roberta.

Causa estranheza que essas declarações sejam lançadas justamente às vésperas do segundo turno da eleição. O Brasil já assistiu, em outros processos eleitorais, à divulgação de denúncias sem comprovação, usadas como instrumento de manipulação da opinião pública. A repetição desse expediente representa uma tentativa irresponsável de tumultuar o processo democrático e interferir na livre escolha dos eleitores.

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