[Coluna] A volta do imperialismo dos EUA e o isolamento do Brasil

21 jan 2026 - 13h26

Política de Donald Trump para a América Latina representa ruptura histórica para o Brasil e evidencia como o país está sozinho.O presidente Donald Trump anunciou, no início de dezembro, a nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para o Hemisfério Ocidental. Em poucas palavras, o plano diz que, na América Latina, os EUA têm a palavra final.

Captura de Nicolás Maduro foi ação prática da nova estratégia de segurança dos EUA
Captura de Nicolás Maduro foi ação prática da nova estratégia de segurança dos EUA
Foto: DW / Deutsche Welle

"Os Estados Unidos ampliarão sua presença militar no Hemisfério Ocidental e se reservarão ao direito de realizar operações direcionadas, incluindo, quando o necessário, o uso de força letal", acrescentou Trump.

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Um mês depois ele deixou claro que estava falando sério. Em 3 de janeiro, as Forças Armadas dos Estados Unidos atacaram a Venezuela e levaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, para um tribunal nos EUA. Estima-se que uma centena de militares cubanos e venezuelanos tenham morrido na ofensiva.

Depois disso, as relações entre Estados Unidos e América Latina mudaram radicalmente. Nenhum país da região pode mais ter certeza de que estará fora da mira dos EUA. Cuba e Colômbia já foram advertidas por Trump de que correm o risco de ter um destino semelhante ao da Venezuela.

Para o Brasil, isso também representa uma virada histórica. Trata-se de uma ruptura tão radical com o passado como não se via desde o início da Guerra Fria.

O Brasil agora está sozinho. Os vínculos geopolíticos que, até mais recentemente, eram importantes na ONU ou no grupo Brics perderam grande parte de sua importância. Os EUA querem enfraquecer as Nações Unidas e estão se retirando aos poucos da entidade.

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O Brics também vem mostrando ser um tigre sem dentes.A Rússia e a China não conseguiram proteger um aliado próximo como a Venezuela. Além disso, o protesto de Moscou e da China contra a ação militar dos EUA acabou sendo meramente protocolar.

Também na América do Sul, as chances de o Brasil aumentar seu peso geopolítico, por exemplo, atuando como potência regional, diminuíram. Isso porque a região está ideologicamente dividida. Chefes de Estado conservadores ou libertários, como Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, celebraram a ação contra Maduro. Os líderes de esquerda da América Latina, por outro lado, a condenaram.

No geral, o Brasil, assim como toda a América do Sul, perdeu importância na nova constelação geopolítica. "Vejo a América Latina como um continente quase irrelevante nas relações internacionais, pouco melhor que a África, mas também não muito melhor", afirmou o diplomata brasileiro Rubens Ricúpero ao Valor Econômico. "É um continente que não desempenha um papel, não tem poder nem peso." Segundo ele, ninguém na América Latina segue o Brasil.

A China também precisa, devido aos ataques da América Latina, repensar sua política para a América Latina. Trump já deixou claro que tolerará os investimentos e a influência dos chineses na região apenas de forma limitada e, se for necessário, que irá intervir militarmente para restringir essa presença.

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A China é o país que mais sofrerá prejuízos econômicos com a ação militar dos EUA na Venezuela. Até agora, Pequim podia adquirir petróleo da Venezuela a preços acessíveis. Isso acabou.

A ascensão econômica da China na América Latina nos últimos 20 anos ocorreu principalmente porque os EUA não se ocuparam mais da região após os ataques de 11 de setembro de 2001. Dessa forma, as empresas estatais chinesas puderam garantir, com empréstimos de Pequim, fontes de matéria-prima na América Latina, construir a infraestrutura necessária e ampliar a influência política.

O Brasil não tem outra alternativa a não ser manter o diálogo com todas as potências, principalmente com os EUA. Até agora, essa estratégia tem se mostrado bem-sucedida. O Brasil age de maneira semelhante à Índia ou à China, mas diferente dos europeus, ao não ceder diretamente às ameaças de Trump e não oferecer concessões de maneira precipitada.

No entanto, o Brasil pode ser novamente atingido por uma sanção de Trump a qualquer momento, especialmente neste ano eleitoral. Novas tarifas poderiam prejudicar gravemente o país. Assim como as sanções da Lei Magnitsky ao juiz Alexandre de Moraes, que já foram suspensas, eram extremamente perigosas.

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Os EUA poderiam ter isolado o Brasil dos mercados financeiros internacionais a qualquer momento com esse argumento. Um perigo semelhante paira sobre o país caso os EUA declarem grupos do crime organizado brasileiro, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. Nesse caso, medidas de retaliação, inclusive militares, poderiam ser tomadas a qualquer momento.

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Há mais de 30 anos o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.

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