Onde tem mais gente vivendo sozinha em SP? Nº quase dobra em uma década

Quantidade de residências individuais na cidade cresce 86%; envelhecimento da população, custo de vida alto e verticalização das periferias ajudam a explicar mudança

7 set 2026 - 05h42
Resumo
O número de pessoas morando sozinhas em São Paulo cresceu 86% entre 2010 e 2022, migrando dos bairros ricos do centro para as periferias, com destaque para a liderança do Grajaú. O fenômeno, impulsionado pelo alto custo de vida, verticalização das bordas da cidade e avanço de programas habitacionais, atinge principalmente idosos (40% do total) e jovens em busca de independência, refletindo novas dinâmicas familiares e a crise econômica pós-pandemia.

Poliana Suyane Gomes nasceu e cresceu no Grajaú, zona sul de São Paulo. Aos 24 anos, a estudante de Biomedicina já mora sozinha há três. "A decisão envolveu conquistar minha independência sem dar satisfação para ninguém." O financeiro também pesa na opção de seguir no bairro. "As coisas são bem mais baratas aqui."

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A escolha de Poliana, que também é funcionária de um laboratório de microbiologia, não é exceção. O número de pessoas morando sozinhas disparou 86% na cidade na última década, enquanto o aumento de moradias no período foi de 21%.

Antes concentrados no centro, os domicílios individuais se expandiram para as periferias. Décimo segundo distrito com mais residências individuais em 2010, o Grajaú agora lidera, segundo levantamento do Estadão com dados do Censo de 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2010, o município tinha 504.945 residências solo. O Jardim Paulista, na região central, liderava o grupo, com 13.494 solitários, seguido de Vila Mariana (zona sul), Santa Cecília (centro) e Itaim Bibi (sul).

Doze anos e uma pandemia depois, o total quase dobrou: eram 940.250 em 2022. O Jardim Paulista desapareceu do top 10 e o topo do ranking de distritos com mais residências individuais, antes ocupado por regiões de classe alta, foi substituído por áreas periféricas: Grajaú (24 mil), Jardim Ângela (20,8 mil) e Capão Redondo (20 mil).

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As causas exatas do fenômeno ainda precisam de análises minuciosas. Especialistas listam como principais hipóteses o alto custo de vida, a verticalização da periferia, o envelhecimento populacional e a mudança na dinâmica familiar (entenda abaixo).

O número de moradias em São Paulo cresceu 21% de 2010 para 2022. Enquanto isso, o número total de domicílios unipessoais na capital cresceu 86% no período.

Proporcionalmente, a taxa de domicílios individuais na cidade passou de 14% para 22%. No Grajaú, foi de 9% para 18%.

A mudança de coloração no mapa a seguir confirma a expansão dos solitários para os extremos da cidade. "Morar sozinho deixou de ser um fenômeno de bairro rico. Ele se disseminou para a cidade inteira", diz Ciro Biderman, diretor do FGV Cidades.

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Alto custo de vida

"Sem dúvida, há influência das limitações orçamentárias da população nesse fenômeno. O custo da habitação no centro, mesmo das unipessoais, é elevado", aponta Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE e doutor em Economia pela Unicamp. Ele ainda destaca que a tendência é que a população do município cresça mais na periferia do que no centro.

Segundo Mariano, o processo de verticalização em São Paulo, que em 2010 já era intenso no centro, transbordou para as periferias na década seguinte. "Os terrenos ainda disponíveis em bairros centrais são limitados e com metro quadrado elevado. Isso inviabiliza unidades habitacionais mais populares, levando-as para os extremos das zonas sul e leste. Nos últimos anos, houve grande crescimento de apartamentos menores, com preços mais acessíveis, nessas regiões."

É justamente por isso, segundo ele, que empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida e de outros programas habitacionais se concentraram nessas regiões.

Diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp), Rafael da Costa também vê ligação do fenômeno com os programas sociais. "A especulação imobiliária e programas como o Minha Casa Minha Vida, Casa Verde e Amarela (na gestão Jair Bolsonaro) e Cohab fizeram com que a verticalização na periferia começasse a acontecer."

Biderman, da FGV, destaca que o processo de autoconstrução nas favelas paulistanas, muito comum nos anos 1980 e 1990, quando os próprios moradores erguiam suas moradias, recuou. "Isso está acabando, quase não tem mais na periferia."

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O economista e diretor do Secovi-SP Celso Petrucci confirma o interesse do setor na região. "Temos muitos empreendimentos aprovados em habitação social e popular na periferia, que são destinados ao programa Minha Casa, Minha Vida. E nesses prédios, vai ter apartamentos de dois e de um dormitório."

Influência da pandemia de covid-19

Diretor do departamento paulista do Instituto Brasileiro de Arquitetura , o urbanista Leonardo Musumeci alerta, no entanto, que o Censo de 2022 foi realizado em um momento específico, de volta da pandemia, e faz ressalvas sobre os resultados.

"As dinâmicas familiares ainda estavam em certo processo de rearranjo. Houve crescimento demográfico nas periferias. Muita gente foi empurrada para uma situação ainda mais precária, e políticas como o Bolsa Família e Auxílio Emergencial, que têm corte de renda, fizeram com que essa população declarasse morar sozinha para não atingir uma renda que a faria perder o benefício", diz Musumeci.

O coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, o engenheiro civil Jorge Abrahão, também vê relação dos dados com a crise da covid-19. "Tivemos uma crise financeira bastante forte e isso fez as pessoas buscarem alternativas de baixo custo."

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Envelhecimento da população

Viúva há cerca de quatro anos, a psicóloga aposentada Bernadete Kanzato mora sozinha.
Viúva há cerca de quatro anos, a psicóloga aposentada Bernadete Kanzato mora sozinha.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Bernadete Kanzato, de 64 anos, não mora exatamente sozinha: divide um sobrado no Sacomã, na região sudeste de São Paulo, com sua shih-tzu Kimi. Viúva quatro anos, a psicóloga aposentada viu os dois filhos crescerem, se formarem e seguirem seus próprios caminhos. Desde então, passou a ter o imóvel no Sacomã apenas para si — e diz gostar. "Cuido da minha casa, da minha saúde. Faço tudo ao meu tempo."

Assim como Bernadete, 40% das pessoas que moram sozinhas em São Paulo são idosos. Professora de Demografia da Unicamp Joice Vieira, afirma que o aumento de pessoas vivendo só, especialmente as mais velhas, ocorre no mundo todo.

"Os filhos saem de casa. Elas se divorciam ou ficam viúvas. A casa dos filhos é pequena e não tem um quarto a mais para abrigar a parente. E elas já investiram no seu imóvel e não querem sair." Para Joice, o fenômeno é um alerta às autoridades sobre a necessidade de políticas públicas para esse grupo — sobretudo em áreas pobres.

Mudança da dinâmica das famílias

Adan Martins, 29 anos, no prédio onde mora sozinho na Vila Mariana.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

O curitibano Adan Martins, 29 anos, mora em São Paulo desde a flexibilização da pandemia. Ele já passou por apartamentos compartilhados, mas nunca se sentiu totalmente confortável. Há cerca de um ano, o estudante de Design de Interiores passou a ter um lugar apenas para si na Vila Mariana, na zona sul. "Tem dias que é cansativo manter tudo sozinho. Por outro lado, há praticidade e conforto de fazer as coisas na hora que quiser."

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O número de jovens (18 a 29 anos) morando sozinhos cresceu 74% nesses 12 anos. Em 2010, os recém-adultos que saíam das casas dos pais para morar sozinhos na capital paulista preferiam três destinos: Consolação, Jardim Paulista e Vila Mariana. Em 2022, os distritos campeões de habitações solo para jovens são Grajaú, Bela Vista e Jardim Ângela. As novas gerações representam 11% do total de solitários.

"A primeira moradia do jovem normalmente será na periferia, até por conta de não terem condições de morar nas regiões mais centrais", afirma Mariano, do IBGE.

"Todo mundo está tentando estudar mais, conquistar estabilidade financeira antes de formar família. Isso ocorre desde os anos 2000 e, para as camadas altas e médias, já é bem visível. O Censo 2022 indica esse adiamento chegando aos grupos mais humildes também", acrescenta Joice, demógrafa da Unicamp.

Aumento de estúdios e quitinetes pela cidade

Os especialistas ainda citam relação com a popularização dos estúdios e quitinetes. "Em torno de 15% dos imóveis que oferecemos em São Paulo são de até um dormitório", diz Petrucci, do Secovi.

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O economista destaca, porém, que o apartamento de dois dormitórios segue como a principal demanda (cerca de dois terços da oferta). "Continua o padrão de primeira moradia para quem deseja formar família."

O boom dos estúdios ocorreu após o Plano Diretor de 2014 e a Lei do Zoneamento de 2016, que estimularam, por meio de isenções fiscais, habitações populares próximas a estações de metrô e corredores de ônibus.

"O incentivo não determina necessariamente que as moradias sejam pequenas, mas, submetidas à lógica de maximização da rentabilidade imobiliária, a tendência é de apartamentos cada vez menores", diz Clareana Cunha, do Instituto Pólis.

Ela frisa, porém, que morar sozinho e moradia pequena não são sinônimos. "No centro expandido, há jovens morando sós em estúdios novos e compactos. Já na periferia, há pessoas residindo sozinhas nas casas de onde os filhos saíram ou em edículas independentes construídas no mesmo lote."

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