Um incêndio destruiu um galpão com 320 boxes na Ceagesp na noite de sábado, causando prejuízos estimados em mais de R$ 40 milhões a cerca de 100 comerciantes. Apesar de não haver vítimas, a estrutura foi interditada pela Defesa Civil. Permissionários relatam perda total de estoques e denunciam a falta de manutenção e riscos elétricos prévios ignorados pela administração. A Ceagesp dialoga para definir medidas emergenciais, enquanto apurações sobre as causas do fogo continuam em andamento.
Dezenas de comerciantes da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Cegesp) relatam um prejuízo milionário após incêndio que atingiu um galpão com 320 boxes na noite deste sábado, 5. A estrutura do local foi comprometida, mas, segundo a Defesa Civil, não houve vítimas. As causas do incêndio ainda são desconhecidas. Um laudo de interdição temporária foi emitido.
O galpão reunia mais de 100 permissionários e abrigava, em sua maioria, quiosques de frutas, além de dois restaurantes e lojas de embalagens. No espaço, também ficavam os escritórios das lojas em uma espécie de mezanino construído sobre os estabelecimentos que funcionavam no local.
Em nota, a Ceagesp afirmou que mantém "diálogo permanente" com uma comissão de comerciantes que operam no local para definir medidas emergenciais e alternativas para o funcionamento dos negócios. A companhia não detalhou, porém, qual espaço poderá ser disponibilizado nem quando a solução será implementada.
Ao longo da manhã deste domingo, 6, comerciantes chegavam ao local para avaliar os estragos, enquanto outros retornavam após terem passado a noite acompanhando o trabalho do Corpo de Bombeiros no combate às chamas.
Um dos comerciantes impactados é o Emílio Katsuki, de 69 anos. Ele trabalha na Ceagesp desde 1987 e há pelo menos uma década mantinha uma loja de frutas no galpão incendiado. O prejuízo financeiro é incalculável, lamentou o empresário, ao lado do filho Enzo Katsuki, de 23 anos, que também cuidava do negócio.
Durante a manhã deste domingo, 6, a comerciante Maria Helena também chegou ao local para entender o estrago causado pelo fogo. No dia anterior, uma carga de melão havia sido descarregada no box que mantém há 30 anos no galpão. "Perdemos tudo. O box estava cheio de mercadoria. Não sabemos como vamos trabalhar", diz.
Somente de estoque o prejuízo gira em torno de R$ 300 mil, sem contar com os equipamentos da loja. "Acabou tudo", lamentou a comerciante que emprega 12 funcionários.
Ao lado de Maria Helena, o comerciante Marcio Neto estava sendo consolado por outros colegas enquanto tentava encontrar o que sobrou do negócio familiar. Ele diz ter sido um dos mais afetados pelo incêndio. Há mais de 40 anos na Ceagesp, ele herdou a loja de embalagens do pai. O comerciante afirma que o prejuízo é na casa dos milhões. Recentemente, havia feito o estoque da loja para o resto do ano.
Quem também diz ter perdido tudo é o comerciante Aldemir Soares, que atua há mais de 15 anos no local. "Temos prejuízo de espaço, de equipamento e de estoque", afirma. Um empresário que presta serviços a mais de 100 comerciantes do galpão estima que o prejuízo provocado pelo incêndio ultrapasse R$ 40 milhões. Ele esteve no local na manhã deste domingo para acompanhar a situação.
Os comerciantes ouvidos pela reportagem não sabem se vão conseguir trabalhar nos próximos dias. A direção do Ceasa havia marcado uma reunião para a tarde deste domingo na tentativa de articular um local de trabalho provisório, segundo relatos. Inicialmente, a solução seria trabalhar nas ruas em frente ao galpão, alternativa criticada pelos permissionários.
Procurado por telefone e via e-mail, o Ceasa não deu retorno até a publicação desta reportagem.
Comerciantes denunciam estado do local
Embora a causa do incêndio ainda não tenho sido revelada e esteja em fase de perícia, muitos comerciantes disseram que o galpão apresentava riscos elétricos e que a direção do Ceasa havia sido alertada diversas vezes.
Um deles, que preferiu ter a identidade preservada por medo de retaliação, disse que "todo mundo sabia que isso (o incêndio) ia acontecer". Outro afirmou que a fiação estava danificada e relembrou que durante o natal do ano passado houve um apagão no local.
A empresária Marcela Costa diz que, em comparação com outros permissionários, não teve tantos prejuízos financeiros. Ainda assim, o escritório recém reformado de sua loja de cocos foi completamente destruído pelo incêndio. Os danos são estimados em cerca de R$ 250 mil.
Marcela conta que, há cerca de dez dias, uma caixa de energia próxima ao mezanino onde ficava o escritório começou a fazer barulhos de "papoco", como se algo estivesse estourando. De acordo com a empresária, a direção da Ceagesp foi notificada sobre o problema, mas só enviou alguém ao local para verificar a situação no dia seguinte.
Para José Aires, de 51 anos, as pessoas que trabalham no galpão estão desassistidas. "Estamos à deriva", diz o comerciante que atua no local há 14 anos. "Nosso dano é irreparável por causa de falta de manutenção, sempre fazem vista grossa. Tudo isso aqui está jogado ao deus-dará. Isso é um descaso", afirma.
Ele perdeu toda a mercadoria e os equipamentos usados na refrigeração das frutas, como as câmaras de armazenamento. José ainda não conseguiu calcular o prejuízo total.
Alguns comerciantes criticaram a condução do Ceasa. Segundo relatos ouvidos pela reportagem, houve uma tentativa de conter as chamas com um caminhão-pipa da própria Ceagesp e o Corpo de Bombeiros foi acionado apenas depois. A demora teria contribuído para que o fogo se alastrasse mais rapidamente, de acordo com os relatos.
Procurados por e-mail e telefone para comentar as denúncias e esclarecer questões relacionadas à manutenção do local, o Ceasa e a Ceagesp não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
O fogo começou pouco depois das 23h. O Corpo de Bombeiros mobilizou 16 viaturas para o combate às chamas e informou que o fogo foi controlado por volta das 6h deste domingo, 6, enquanto a fase de rescaldo, de apagar focos menores e esfriar locais ainda quentes, foi encerrada às 8h34.
A Defesa Civil informou que a estrutura do galpão sofreu danos significativos. O local permaneceu isolado, sinalizado e preventivamente interditado, com acesso restrito.