Juliana Faustino, de 27 anos, morreu no sábado passado após ser intoxicada ao nadar na piscina da academia academia C4 Gym, na zona leste da capital. Além dela, outras seis pessoas passaram mal. A Polícia Civil investiga o caso e alega se tratar de uma “tragédia anunciada” marcada pela ganância dos donos do estabelecimento, Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração – que foram indiciados e presos preventivamente na noite desta quarta-feira, 11. Confira o que se sabe até o momento.
O Terra tenta contato com a defesa dos três citados. O espaço segue aberto e será atualizado em caso de manifestação.
Cloro, negligência e morte de Juliana
Não há dúvidas que a morte de Juliana foi ocasionada pela mistura de cloros na piscina, é o que aponta a Polícia Civil em coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 12.
No caso, há uma sequência de fatores interligados: havia um funcionário da academia que ficava responsável por fazer as misturas químicas e deixá-las na borda da piscina para que o professor, após ministrar a aula, jogasse os produtos na água. Esse funcionário em questão era manobrista e não tinha nenhum conhecimento técnico para a função de manutenção de piscinas.
Conforme relatou à polícia, era um dos sócios proprietários da academia que indicava tudo que ele tinha que fazer por meio do WhatsApp. Mensagens essas, inclusive, que foram apagadas quando o caso veio a público. A mistura era feita no olhômetro e sem os equipamentos de segurança necessários. Para a polícia, esse funcionário foi manipulado pelos sócios e não deve responder criminalmente.
O que aconteceu no último sábado foi que esse balde acabou caindo dentro da piscina. Juliana, que havia procurado o esporte como parte de um tratamento de problemas respiratórios, estava nadando perto dessa borda da piscina. Os relatos apontam que foi no momento que ela levantou a cabeça da água para respirar que acabou inalando diretamente o gás do cloro. A mistura de cloros é extremamente prejudicial e perigosa. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu.
“O que aconteceu alí não foi uma fatalidade, foi uma tragédia anunciada que poderia ter sido evitada se os sócios proprietários não visassem exclusivamente o lucro, se contratassem uma pessoa responsável para permanecer na academia e fazer as medições nas aulas. Tem que ter medições a cada seis horas em um fluxo desse de grande quantidade de pessoas. E, havendo qualquer irregularidade, as aulas têm que ser suspensas”, aponta representante do 42º Distrito Policial (Parque São Lucas), responsável pelas investigações.
Vítimas e ‘gota d’água’
Além de Juliana, há outras seis vítimas do caso:
- Vinícius de Oliveira, marido de Juliana, segue internado em estado grave;
- Um adolescente de 14 anos, que segue internado;
- Outro homem e sua companheira passaram por atendimento médico já foram liberados;
- Outra mulher passou mal, mas não chegou a precisar de atendimento médico;
- Uma menina de 5 anos de idade, também vem sofrendo com a intoxicação. Ela não estava na aula de sábado, mas nadava na piscina. Esse é um dos indícios de que a situação não se resume a um fato isolado.
Há ainda outros relatos de pessoas que tiveram alergias de pele, queimação nos olhos e outros sintomas do tipo. A polícia ouviu até relatos de pessoas que tiveram suas roupas de natação desbotadas por conta do excesso de produtos químicos na piscina.
Além dos alunos, o professor de natação está debilitado e teve problemas respiratórios em razão de passar muito tempo na piscina, segundo a polícia. Outros funcionários também relataram tosse e problemas respiratórios. O balde que caiu na piscina, portanto, é interpretado apenas como a gota d’água do caso.
‘Cloro de uma semana em um dia’
Os autos apontam que a academia chegou a usar, em um único dia, a quantidade de cloro indicada para ser usada ao longo de toda uma semana.
“Eles faziam tudo isso visando o lucro máximo, para que a piscina nunca fosse fechada. Eles davam aula de segunda a segunda, faziam a manutenção com pessoas por lá, justamente para evitar fechar a piscina”, informa a polícia. No caso, a aplicação dos produtos do tipo deve ser feita sem a presença de terceiros e há necessidade de que a piscina fique um período em ‘descanso’ antes de voltar a ser utilizada.
Além disso, segundo a polícia, os donos da academia não apresentaram os registros de medições de cloro e PH referentes à piscina – e que este tipo de documentação deveria estar organizada, preenchida regularmente, e posta à disposição de qualquer pessoa que solicitasse checar as informações em meio às aulas.
Outro ponto que alegam é que os donos não colaboraram. “Eles sequer conseguiram nos fornecer uma relação dos alunos que deveriam estar na aula para a gente conseguir contatar todo mundo e passar isso para vigilância sanitária, para um acompanhamento epidemiológico. Nem isso eles fizeram”, complementaram os representantes da Polícia Civil de São Paulo.
Dificultaram as investigações
Não foi só a lista de quem estava na piscina, logo após a ocorrência, que os donos da academia não passaram de pronto. Segundo a polícia, eles dificultaram o acesso aos produtos químicos utilizados no local – o que era uma solicitação médica dos hospitais, para entenderem a rotulagem dos produtos e atuarem de forma mais precisa no diagnóstico e tratamento das vítimas. Foi preciso obter essas informações com a força policial, pois não se dispuseram a fornecer.
“Fica muito claro a ganância dessas pessoas, o descaso com as vítimas e o descaso com a investigação criminal e com a Justiça”, afirma o delegado.
A prisão dos três representantes da academia se deu dentro deste contexto. Sem se apresentarem à delegacia nos primeiros dias conforme o combinado, e com tratativas “infrutíferas” com os advogados, a decisão da prisão preventiva teve como objetivo evitar qualquer tipo de interferência futura.
“O que não significa que essa prisão tenha perdido a sua motivação, tendo em vista que trata-se de um crime muito grave”, pontua a policia.
Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração foram indiciados por homicídio com dolo eventual. Ou seja, quando não se busca, diretamente, pela morte da vítima, mas se age com indiferença “assumindo o risco” quando se sabe que certos comportamentos perigosos podem causar mortes.
“Nós percebemos que eles tratam a investigação com descaso, tratam os funcionários com descaso. Eles visam apenas o lucro. Não se manifestaram, não se colocaram à disposição das vítimas, ao contrário do que eles falam. As vítimas permanecem em contato com a polícia, afirmam que não foram procuradas, que ninguém falou com elas, que ninguém se dispôs, que ninguém deu uma satisfação”, complementa o delegado.
Próximos passos
A Polícia Civil aguarda que documentações sobre a academia e a piscina sejam entregues aos investigadores. Além disso, ainda seguem pendentes os resultados do exame necroscópico e toxicológico realizado na vítima Juliana; do exame pericial realizado no local; e dos exames químicos da água colhida na piscina e do produto químico colhido do balde que caiu. Também há mais funcionários para depor.
O que diz a academia?
A Academia C4 Gym se posicionou por meio de nota oficial divulgada em suas redes sociais na segunda-feira, 9. Eles afirmaram receber com “profundo pesar” a notícia do falecimento de uma das alunas e que estão “totalmente solidários à família e aos amigos”, se colocando “à disposição para todo o apoio necessário neste momento difícil”.
“Seguimos acompanhando de perto o estado de saúde dos demais alunos afetados e também prestando todo o apoio possível. Gostaríamos de esclarecer que, assim que tomamos conhecimento do ocorrido, interrompemos imediatamente as atividades da piscina, acionamos o socorro e seguimos todas as orientações das autoridades competentes. Estamos conduzindo uma rigorosa apuração interna e também colaborando com as autoridades competentes e com a investigação. Reforçamos nosso compromisso com a transparência junto aos nossos clientes, colaboradores, parceiros e autoridades”, afirmou a academia.