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Desfalque de médicos leva a ameaça de greve em São Paulo

Profissionais da saúde paulistana alegam sobrecarga com afastamento de colegas pela covid; Prefeitura diz já ter autorizado contratações

15 jan 2022 05h10
| atualizado às 09h05
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Embora a variante Ômicron cause um número menor de casos graves da covid-19, a velocidade de contágio tem lotado postos de saúde e hospitais pelo Brasil. São mais pacientes e menos médicos - estes, afastados pela doença. Sob o argumento de desfalques nas equipes e sobrecarga de trabalho, médicos da rede municipal de São Paulo aprovaram na sexta-feira paralisação, marcada para o dia 19. Em outros Estados, como Rio e Ceará, os efeitos no sistema de saúde já levam à suspensão de cirurgias eletivas (não urgentes).

Médicos de São Paulo podem fazer greve  
Médicos de São Paulo podem fazer greve
Foto: Divulgação / Estadão

Os médicos da rede paulistana deram até segunda-feira para a Prefeitura apresentar plano de reposição dos funcionários, com a possibilidade de reavaliar se cruzam mesmo os braços. Eles ainda reivindicam o fim da obrigação de trabalhar em fins de semana e feriados.

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"Não adianta pegar uma unidade que devia ter dez médicos e fazer dois médicos atenderem continuamente. Precisa, para além dos dois médicos, contratar a equipe completa", diz Victor Dourado, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp). Segundo a entidade, equipes de ao menos 50 unidades básicas de saúde (UBSs) visitadas relataram desfalques nas últimas semanas.

Segundo ele, a cobrança por mais profissionais é feita desde 2021, mas aumentou nas últimas semanas. Dos cerca de 94,7 mil profissionais da rede de saúde da cidade, 3.193 (3%) estavam afastados na quinta-feira por sintomas gripais. Conforme o Simesp, quase 150 profissionais participaram da assembleia que aprovou a paralisação.

Secretário-adjunto de Saúde da Prefeitura de São Paulo, Luiz Carlos Zamarco disse ao Estadão que considera uma "irresponsabilidade" fazer "greve no meio da pandemia". O município, segundo ele, avalia acionar o Ministério Público contra a paralisação.

A pasta diz ter contratado 280 novos profissionais e autorizado as Organizações Sociais de Saúde (OSSs) a contratarem mais médicos e enfermeiros. Ainda de acordo com a secretaria, houve "pagamento de 50% do banco de horas extras", além das horas extras na folha mensal.

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O Sindicato das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Filantrópicos do Estado informou ter enviado três contrapropostas à categoria, mas sem acordo. O Sindicato dos Enfermeiros do Estado diz ser "solidário" ao movimento e prevê assembleia dia 19.

Pressão

Diante da alta de casos, o Estado do Rio suspendeu, por 30 dias, cirurgias não urgentes a partir da próxima semana. Segundo o governo, 20% dos profissionais da saúde estão afastados. A medida visa também a proteger pacientes de possível infecção.

Em Fortaleza, unidades de saúde já superaram a média diária de atendimentos do pico da 2.ª onda, com 2,7 mil pacientes diários. Guarujá e São Vicente, na Baixada Santista de São Paulo, também cancelaram procedimentos.

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"Se o sistema hospitalar entrar em colapso, tanto na rede privada quanto na pública, óbitos evitáveis poderão ocorrer pela não garantia de acesso à internação", alertou o Conselho de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) em documento ao Ministério da Saúde nesta semana.

Cancelamento de férias e remanejamento de equipes estão entre outras das medidas adotadas. "Felizmente, não temos funcionário de saúde em estado grave, estão todos vacinados com 3.ª dose. Mas um afastamento de sete dias impacta muito no nosso funcionamento", diz o secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz.

Na rede privada, a Ômicron também pressiona. "As pessoas ficam três, quatro horas na fila para pegar pedido de exame, porque precisam de atestado. Se tivéssemos campanha de orientação, um sistema de testagem, estaríamos evitando muito sofrimento", conta uma médica de um hospital privado carioca, que pediu anonimato.

Diretor executivo da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), Antonio Britto pede que só quem tiver sintomas mais graves vá ao hospital, para não sobrecarregar as emergências. "O problema agora é a capacidade de atendimento dos hospitais, diante da demanda que está crescendo de forma absurda nos últimos dias", afirma ele. / COLABORARAM MARCIO DOLZAN E JOSÉ MARIA TOMAZELA

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Depoimento da médica T.J.M. à repórter Roberta Jansen

"A grande diferença em relação às outras variantes é o impacto nas internações. Desta vez, temos menos internações. Mas temos um número nunca visto antes de pessoas com poucos sintomas procurando a emergência. Muita fila, muita gente. A esmagadora maioria das pessoas vem à procura do teste e de orientação. A impressão que eu tenho é que a população está procurando a emergência porque não consegue informação, não consegue fazer exames, não há orientação sobre como se comportar. A rede pública não dá vazão para o volume de pessoas e nunca houve uma política pública de testagem em massa.

"Nenhuma dessas pessoas na fila da emergência está sendo testada para covid. Elas ficam três, quatro horas na fila para pegar um pedido de exame, porque precisam de um atestado. Se tivéssemos uma campanha de informação, de orientação, se tivéssemos um sistema de testagem, estaríamos evitando muito sofrimento. Mas como não tem nada disso, elas vêm para a emergência, que não é feita pra isso.

"A falta de teste diagnóstico é um risco real. Tanto que, aqui no hospital, estamos reservando os testes para os pacientes que vão internar. No caso de uma internação, é muito importante saber se o paciente é positivo ou não para saber se ele precisa ficar em uma ala de isolamento. Isso é fundamental para mitigar o impacto da infecção e postergar a abertura de novas alas covid. Essa política de testagem se estende também para pacientes de alto risco, que vão ficar mais de 24 horas no hospital ou vão passar por cirurgias extensas.

"Não estamos conseguindo remanejar profissionais de saúde para a emergência porque o hospital continua cheio. O centro cirúrgico está funcionando, estamos com os andares cheios de pacientes não covid. Então não dá pra remanejar. Ainda não estamos adiando as eletivas, mas isso pode ocorrer em algum momento. Já se falou também em suspender as férias dos funcionários, mas esse seria um último recurso. Estamos há três anos nesse ritmo intenso de trabalho.

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"Para piorar, estamos com muitos profissionais afastados por covid, de 15% a 20% do total. Nossa força de trabalho está bem reduzida. Os que estão aqui já estão trabalhando muito mais.

"Outra coisa diferente desta vez é que as pessoas já estão muito cansadas do rigor no isolamento, houve um relaxamento. Estamos vivendo um momento de alta transmissibilidade, e as pessoas demoraram a entender que era preciso voltar à política de distanciamento, de restrição de circulação. A mesma dificuldade que estamos vendo na sociedade em geral, estamos vendo dentro do hospital."

T.J.M. é médica da emergência de um importante hospital privado do Rio de Janeiro

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