Camylla Renata cresceu sem conhecer o pai. Sua mãe contava histórias sobre ele, mas sempre mantendo um ar de mistério, de dúvida. Já ele, Roberto Monthyny, sequer tinha conhecimento da existência da filha. Os rumos da história mudaram quando ela perdeu a mãe em um acidente de carro no fim do ano passado e, de um dia para o outro, se viu sozinha, sem ter com quem contar. Foi então que resolveu procurar o pai, contratou um detetive particular e o encontrou. Aos 18 anos, em janeiro, ela conversou com ele pela primeira vez. E aos 35 anos, o homem descobriu não só ser pai, mas também avô. Tudo mudou na vida dos dois, que contam mais sobre o que aconteceu em entrevista ao Terra.
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Camylla pagou R$ 250 a um detetive particular para encontrar o pai, após ter buscado por ajuda ao compartilhar sua história em um grupo de Facebook. No mesmo dia, o profissional o localizou. Camylla e Roberto vivem na mesma cidade, em Campina Grande, na Paraíba, e nunca tinham se visto antes, nem por acaso. “Foi coisa de Deus, era preparado para ser só agora”, acredita a jovem.
O primeiro contato entre os dois foi por meio do WhatsApp. Ela foi direta. Primeiro perguntou se ele conhecia um tio dela, e logo já perguntou se lembrava de sua mãe. Na sequência, em meio a um sentimento misto de medo e coragem, disparou: ‘Eu acho que sou tua filha!’. Ao ler isso, Roberto ligou para a Camylla e eles puderam ouvir a voz um do outro pela primeira vez.
Foi nesse momento em que o homem também descobriu ser avô, pois a foto de perfil de Camylla mostrava um ensaio feito enquanto ela estava grávida. Na época, a bebê já havia nascido – Ísis, de 10 meses. “Apesar do susto, das dúvidas que ficaram no passado, o acolhimento dele comigo foi imediato. O amor surgiu ali, sabe? Naquele primeiro oi. Ele me acolheu de uma forma linda, se tornou pai e avô no mesmo instante e abraçou essa responsabilidade com amor e carinho”, conta a jovem.
“Foi um misto de emoções. Quando eu vi a foto dela, eu tinha certeza de que ela era minha filha mesmo, porque parecia muito comigo. A gente se parece muito. Quando soube da minha neta, foi uma emoção dobrada. Não tem nem como explicar”, revela Roberto, contando seu lado da história.
A certidão de nascimento de Camylla contava apenas com o nome de sua mãe. Para mudar isso e ter certeza da paternidade, ela sugeriu que fizessem um exame de DNA, apenas para desencargo de consciência. “Foram dez dias de uma ansiedade sem fim, mesmo com a gente tendo certeza. Quando saiu o resultado confirmando, foi um alívio”, relembra.
A jovem conta que já deu entrada na atualização do documento e que agora aguarda a nova versão chegar. “Meu nome era Camylla Renata Avelino do Nascimento e foi para Camylla Renata do nascimento Fernandes”, diz com orgulho por agora passar a levar consigo o sobrenome do pai.
Não é só o nome. Desde o reencontro, fotos de dois juntos passaram a ser frequentes nas redes sociais e, até mesmo, estampam o plano de fundo do aplicativo de mensagens de Camylla.
“Hoje eu só sei dizer que a minha vida mudou. Mudou por completo, radicalmente. Porque aquele vazio foi preenchido, mesmo com o luto que há dentro de mim. Um vazio que nunca era completado foi preenchido. Meus planos agora são só ser feliz ao lado dele, da minha filha. Recuperar cada dia dos 18 anos que passamos longe um do outro”, relata a jovem.
Amor de adolescência
A história dos pais de Camylla foi breve e aconteceu quando os dois ainda eram adolescentes. A família de Roberto morava em um sítio, onde a tia de Camylla vivia com o esposo, pois eram cuidadores do terreno. Foi nesse contexto que, aos 16 anos, a mãe de Camylla passou alguns dias lá e conheceu Roberto, que tinha 17. Eles se encontraram apenas duas vezes.
Roberto explica que sua família era evangélica e muito rígida. “Foi uma coisa bem escondida e bem rápida. Só que na mesma semana eu acabei descobrindo que ela tinha outra pessoa com quem se relacionava. Através disso nós acabamos discutindo. Ela foi minha primeira mulher da minha vida. Fiquei sabendo agora, pela minha filha, que eu a magoei muito. Não lembro as palavras que disse a ela”, relembra.
Ele chegou a saber que a mulher engravidou, por meio da tia de Camylla. A questão é que diziam a ele que o filho era do outro homem. Quando a bebê nasceu, ele chegou a tentar confirmar: e a mãe reforçou que o filho não era dele. “Na época não tinha celular, rede social, nem nada. Elas eram de Juazeirinho, uma hora de distância de Campina Grande, e não tivemos mais contato”, conta.
Camylla diz que sua mãe era rancorosa e orgulhosa, e que a discussão que ela teve com seu pai na juventude, ao se verem pela última vez, foi determinante: “Ela guardou com ela as coisas. Depois ela se relacionou com o homem que veio a ser o esposo dela e seguiu sozinha, sabe? Também com medo da rejeição, com medo da família do meu pai, que era muito rígida. Ela nunca me proibiu de procurá-lo, mas nunca o encontrei”.
Roberto é solteiro e sempre quis ser pai. Teve relacionamentos pela vida, mas diz que nenhum chegou a ser duradouro a ponto de chegar nesta etapa – ao menos, pelo que sabia até então. O que quer, agora, é compensar o tempo perdido. “Pra mim mudou tudo. Minha vida agora tem sentido. Tudo que eu faço agora, que eu penso, é pra ela e pra minha neta. Tentar organizar o máximo que eu puder da vida delas, e também poder participar”.