Body Positive: "Como em todas as militâncias, as coisas se perderam"

26 jul 2026 - 12h11

Alexandra Gurgel era um dos principais nomes do body positive no Brasil. Mas deixou o movimento e agora planeja emagrecer. Para ela, muitas pessoas faziam uma interpretação errônea sobre o amor próprio.A influenciadora e jornalista Alexandra Gurgel, de 37 anos, era uma das principais vozes do body positive no país. No movimento, também conhecido como body positivity, ela expunha seu corpo gordo para milhares de seguidores na internet e lidava com os efeitos de ser uma voz para tantas pessoas.

Ela fundou o Corpo Livre, uma espécie de versão brasileira do movimento, e se tornou referência. Alexandra lançou livros, foi capa de revistas nacionais e deu palestras sobre a luta contra a gordofobia.

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Mas há dois anos, a influenciadora decidiu recomeçar. Ela parou de fazer publicações sobre o body positive e hoje conta histórias sobre relacionamentos nas redes. A militância, diz ela, é exaustiva e a fez repensar tudo o que fazia até então.

Alexandra, assim como outros influenciadores que defendiam os corpos gordos nas redes, quer emagrecer. Ela diz que só agora se sente segura para iniciar um processo de perda de peso, por conta do avanço das canetas emagrecedoras.

Em entrevista à DW, Alexandra falou sobre esses e outros temas. Confira.

DW: Como você se tornou uma voz do body positive e da luta contra a gordofobia no Brasil?

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Alexandra Gurgel: Tudo aconteceu muito rápido na minha vida. Eu comecei o meu canal no YouTube para encontrar semelhantes. Eu não conhecia a palavra gordofobia, não conhecia o body positive, não conhecia nada. Conheci junto com as pessoas. Até hoje assistem a maratona de body positive que eu fiz no YouTube. Há 10 anos, eu era só uma menina. E eu acredito muito em tudo o que eu falava e acredito muito em tudo o que aconteceu.

Eu só acho que, como em todas as militâncias, no fim das contas, as coisas se perderam.

Na pandemia, foi um momento em que eu cresci muito no Instagram com as pautas que aconteciam. Eu me tornei a pessoa que estava denunciando e também abraçando as pessoas, ao mesmo tempo em que também ganhei fama.

E junto disso veio uma estratégia em cima do meu nome: vamos ser famosa. Você quer ser capa de revista? Você não quer ir pra televisão? Você quer ser atriz? E eu ficava assim: gente, eu nem sei. Eu não estava com isso na cabeça, eu sou uma jornalista.

E eu gostei, por exemplo, quando a [revista] Marie Claire me chamou pra fazer uma capa ou quando eu estava no escritório da Vogue. E eu falava: caraca, venci na vida. Isso foi muito legal. Foi nesse período da pandemia que o body positive pegou uma força mundial e a gente virou uma comunidade de pessoas online que estavam em casa e se reconectando com o corpo. Eu sinto que o corpo livre abraçou a gente na pandemia de uma forma incrível. O body positive foi muito importante pra gente sobreviver a esse momento.

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Como referência no body positive, você tinha a impressão de que falava em nome de muitas pessoas?

Eu, pensando em Alexandre Gurgel, não na pauta do body positive, sempre falei por muitas e acho que eu aceitei esse lugar. Esse lugar fez bem pra minha cura, porque essa pauta sempre foi identitária. Então sempre foi uma coisa que era sobre a minha cura, eu estava falando de coisas que eu estava aprendendo junto.

Só que eu fui colocada em um lugar e tive acessos e lugares que me envaideceram. Eu comecei a me tornar a militante perfeita, que não podia errar. Por exemplo, eu sou fumante e hoje falo abertamente sobre isso. Mas eu não podia fumar na frente de ninguém, não queria falar porque isso não era body positive.

Foi difícil ter se tornado uma referência nesse tema?

Eu passei por muitos desafios de ter que ser uma coisa que eu não era. E pra aceitar isso, tinha dinheiro. E você não se envaidece? Você acha que não vai se envaidecer com uma marca que vai te dar muito dinheiro pra falar de uma pauta muito legal pra um monte de gente? Claro que vai. E, de repente, falaram: "ah, mas seria legal você estar em Paris" ou "acho que é legal você usar Dior". E eu: nossa, eu posso comprar isso?

Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida. Eu vendi cerca de 90% das minhas coisas porque eu quis, hoje tenho uma coisa ou outra. Eu parei de ir no circuito de eventos. Eu ia no Baile da Vogue, porque eu considerava que a minha presença seria uma representatividade. E, de fato, foi. Só que eu estava cansada de representar as pessoas. Eu acho que é isso.

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Eu cansei de ter que ser uma voz que sabe o que está falando. Eu quero me dar o direito de errar, mas militante não tem esse direito.

E hoje em dia você se considera militante?

Não, há muitos anos que não mais. Eu assumi isso pra mim mesma em 2024.

Deixar de ser militante tirou um fardo de você?

Tirou. É cansativo, porque eu, de fato, me preocupava. Eu achava que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz. Eu me senti culpada por um bom tempo quando eu saí disso.

Há algo que você falava na época do ativismo que hoje se arrepende?

Eu acho que a única coisa que eu não concordo, que eu trazia um entendimento errado, é que eu falava que obesidade não era doença. Mas eu falava que eu não queria ser vista como doente: não me chama de obesa, me chama de gorda. E até hoje não entendem isso, mas acho que eu poderia ter falado de outra maneira.

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Eu falava que obesidade é uma palavra gordofóbica. E eu não acho mais isso hoje. É a única coisa que eu não acho mais, que eu discordo de mim do passado. E discordo do meu tom, mas eu era uma garota revoltada e tendo atenção pela primeira vez.

Eu acho que quando parei de ser militante, parei de me importar tanto com o que todo mundo falava e pensava. Eu nunca tive o direito de errar. Quando você é militante e erra, você vira o diabo na Terra, na mesma altura em que era a fada sensata. E isso é muito ruim.

Uma das críticas é de que vocês ganharam dinheiro com o movimento e deixaram o movimento depois que ele enfraqueceu. O que acha disso?

Sim, a gente ganhou muito dinheiro. Era isso que a gente fazia: as marcas vinham, queriam comunicar sobre o tema, então dava esse match. Parece que falar que ganha dinheiro com isso é errado, mas era o nosso trabalho.

Só que eu não fiquei milionária e mudei a minha vida. Eu tô trabalhando. Inclusive, muitas pessoas desse meio foram afetadas, justamente pela pauta mundial acabar por causa do reacionarismo.

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E todo mundo desse meio geral de militância, não só do body positive, ficou sem dinheiro. Todo mundo estava ganhando dinheiro. Eu fazia várias palestras em grandes empresas que hoje não fazem mais. Hoje em dia dizem que não têm mais verba destinada para a diversidade.

Como você lida com as críticas recorrentes às pessoas que eram vozes do body positive e emagreceram?

É a mesma pressão e ódio que elas sofriam porque eram gordas demais. Eu acho que as pessoas nunca estão satisfeitas. Ou vão falar que você está "pelancuda" ou que tem que fazer cirurgia ou que se entregaram ao padrão. E antes falavam que era apologia à obesidade.

Quando você vê as pessoas gordas emagrecendo, aqueles que não entendem dessa pauta falam que o body positive acabou, mas não acabou. Na verdade, todo mundo queria só ter uma chance de viver, de aparecer, de ser livre. Por isso que era corpo livre, deixa a gente ser livre.

Eu estou com um médico em um processo de emagrecer com consciência. Eu já vi vários resultados de amigos que me fizeram pensar assim: dá pra ter uma vida normal e resolver essa questão. Eu quero ter uma roupa melhor, eu não resolvi tudo. A gente não resolveu tudo. Quem é que não quer isso?

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Agora parece que a gente emagreceu e virou um monte de Gisele Bündchen. E a gente, na verdade, só está mais magro. A maioria ainda é lido como gordo socialmente.

Você quer emagrecer? Como encara esse tema hoje em dia?

Quero. Eu quero emagrecer. Isso sempre foi uma questão, sempre quis emagrecer durante a minha vida toda. Eu parei de querer isso quando deixei de fazer dieta, porque pensei: vou parar de ferrar a minha cabeça. Eu não tinha alternativa, era: faça a dieta, faça isso e faça aquilo. Hoje, parece que a gente tem uma alternativa que nunca teve. Então, acredito que se isso pode me ajudar na questão com o meu corpo e na minha genética para que eu tenha uma vida melhor, por que não?

No meu caso, emagrecer dentro do que foi ensinado pela cultura da magreza nunca funcionou.

Por isso, se tiver uma caneta que se associe comigo, com meu estilo de vida, e que eu consiga ter uma qualidade de vida melhor, por que não? Quando a gente fala de se aceitar, do body positive, a gente não tá falando que tem uma vida feliz, a gente só quer ser aceito. Tem gente que [por causa da obesidade] não vai passar na catraca, tem gente que não vai conseguir fazer um exame ou uma cirurgia se não conseguir emagrecer. Então são alternativas que tornam a nossa vida mais viável.

Eu nunca tô batendo no peito e falando: vamos ser gordos. O que tô falando é: a gente é assim, então vamos nos aceitar, porque senão a gente vai se odiar para sempre. É o direito de ser feia. É disso que surgem os meus memes, mas é daí que também sai o meu lema.

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O que acha de ter que se explicar publicamente sobre o seu emagrecimento?

Existe uma cobrança porque a gente sempre falou do nosso corpo. O nosso movimento era muito sobre biquíni, sobre mostrar o corpo no verão.

Como você enxerga o body positive atualmente?

Eu enxergo que ele ainda existe. Ele só talvez não esteja tão coordenado dentro de um discurso ou de um movimento de minoria. Ele é uma realidade.

A gordofobia acabou? Claro que não. As pessoas continuam sendo gordofóbicas, mas eu acredito que hoje as pessoas entendem que existe um outro lugar.

O que a gente ensinou, o que a gente praticou e o que a gente trouxe ainda existe. E se você for ver no TikTok, o body positive tem outro nome hoje. E as pessoas discutem essa pauta. Virou falar sobre você se sentir bem com você mesmo. É uma coisa mais liberal. Eu acredito que entrou num lugar muito menos de revolta, de "você precisa me aceitar", e está muito mais para um lugar de: "a gente tem que considerar a diversidade".

No último ano, você mudou o seu conteúdo nas redes, começou a contar histórias de relacionamentos e não fala mais sobre o body positive. Como foi a recepção dos seguidores?

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E eu paguei o preço por isso. Eu estaria muito melhor hoje se ainda estivesse falando da mesma pauta, pensando no que me fez crescer. Eu paguei um preço durante uns dois anos sem saber o que eu estava fazendo.

Mas eu não desfaço, não cuspo no prato que eu comi, porque eu amo a minha história. O meu livro hoje [Pare de se odiar] hoje é um grande meme, e eu adoro. Eu virei meme com tantas coisas que eu falei, como pelo direito de ser feia. O povo LGBT, principalmente os gays, me amam nesse lugar de tia Xanda. E isso até me abriu para pensar: cara, vou contar histórias.

E contar histórias foi uma coisa que trouxe um novo olhar, onde eu não tenho que falar sobre mim. Eu até conto minhas histórias raramente, mas eu conto mesmo as de outras pessoas. E aí deu muito certo e eu só faço isso hoje nas redes. Eu cresci 400 mil seguidores de dezembro para cá. Foi a primeira vez em anos, porque eu estava sem fazer conteúdo até então.

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