Astrônoma conta a verdade de como é observar as estrelas como profissão

Minha compreensão do céu noturno foi transformada ao observar as estrelas com um telescópio de alta tecnologia

18 ago 2026 - 07h29
Cotidiano é muito diferente do que sugerem os filmes de Hollywood, mas há uma sensação tranquila e constante de alegria por estar catalogando e compreendendo as estrelas que, um dia, poderão mostrar que abrigam outra Terra. metamorworks/Shutterstocl
Cotidiano é muito diferente do que sugerem os filmes de Hollywood, mas há uma sensação tranquila e constante de alegria por estar catalogando e compreendendo as estrelas que, um dia, poderão mostrar que abrigam outra Terra. metamorworks/Shutterstocl
Foto: The Conversation

Jodie Foster dirigindo às pressas por uma estrada de terra, gritando coordenadas do céu em um walkie-talkie, como no filme de ficção científica Contato, de 1997. Salas de controle agitadas por uma cacofonia de "ampliem esse sinal". Descobertas em tempo real. Era isso que eu imaginava quando meu orientador de doutorado me disse que eu iria fazer observações em um telescópio.

Corta para as 2h da manhã no topo de uma montanha em La Palma, em abril passado, a uma altitude que faz você esquecer que está nas tropicais Ilhas Canárias. Estava um frio de rachar, e eu tinha me vestido com roupas leves, adequadas para o arquipélago ensolarado. Quase deixei cair minha caneca ao tentar fechar a porta do telescópio contra o vento.

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Café e comida me esperavam a dois minutos de distância, no prédio de serviços. Na escuridão, o vento agarrou um pedaço solto de tecido e me deixou morrendo de susto. Eu caí em menos de 30 segundos. Ventos de 40 km/h não são incomuns no observatório; eu simplesmente estava totalmente despreparada.

Sentei na estrada, lamentando a perda de minha dignidade. E olhei para cima. Pela primeira vez na vida, vi a Via Láctea diretamente. Ela pintava o céu, lembrando-me violentamente da minha insignificância. Nada na minha vida jamais se comparou a isso. Permiti me deleitar com aquela visão por dez minutos. Então, o trabalho me chamou: eu precisava de café e não tinha dito ao meu colega qual estrela era a próxima na programação das observações.

Como se prepara uma noite de observação?

Uma noite no telescópio começa ainda à tarde. Por volta das 16h, meu colega, que estava me treinando para usar o telescópio, e eu dirigimos até o Nordic Optical Telescope. É um equipamento magnífico, com um diâmetro de 2,56 metros. Ele capta luz estelar suficiente para medições extremamente precisas.

Cada instrumento e filtro precisava ser cuidadosamente testado. Da minha parte, isso significava escrever algumas linhas de código. O operador do telescópio verificou se tudo funcionava corretamente e configurou o equipamento. Enquanto as calibrações eram realizadas, comecei a programar as observações da noite.

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O tempo de uso do telescópio é limitado; portanto, ter três noites no comando significava que eu precisava aproveitar cada segundo possível. Hollywood não me preparou para a quantidade de planilhas que isso envolve. Esse tipo de programação exige um equilíbrio cuidadoso entre muitos fatores. Por exemplo, observar estrelas próximas umas das outras no céu noturno de forma consecutiva para evitar perder muito tempo reorientando o telescópio.

Assim que a calibração e o planejamento foram concluídos, observei o pôr do Sol. Foi lindo, mas também um aviso — o turno de trabalho começaria em breve. Se você pegar o momento certo, pode ver uma pequena frota de astrônomos em carros a caminho de seus respectivos telescópios.

A montanha ganhou vida com as cúpulas se abrindo, captando a primeira luz das estrelas da noite. Há mais de 20 telescópios no observatório na montanha, cujas especialidades vão desde a observação de supernovas até exoplanetas (qualquer planeta além do nosso Sistema Solar).

A noite em si

Por volta das 20h, a primeira luz de uma estrela — HD153557, neste caso, uma estrela anã a cerca de 59 anos-luz de distância — entrou no telescópio. Isso é sempre um pouco especial. O zumbido da cúpula se movendo, as persianas se abrindo, ver os monitores exibirem os primeiros traços de dados. Tomei um gole do meu café, aumentei o volume das músicas dos anos 1980 e fiquei satisfeita ao saber que ainda estaria naquela cadeira daqui a 12 horas.

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Essa noite começou de forma bastante previsível. O tempo estava perfeito, sem nenhuma nuvem à vista, e o telescópio funcionou lindamente. Em pouco tempo, tínhamos uma planilha sendo preenchida aos poucos com as observações concluídas. Eu sabia que a tranquilidade não duraria. Até aquele momento da minha carreira, eu já havia feito dez noites de observação em dois telescópios diferentes, e em nenhuma delas algo não atrapalhou meus planos codificados por cores. Normalmente, uma nuvem passa bem na frente de uma estrela que estou tentando observar, ou chove, o que significa que temos que fechar a cúpula. Mas, a cada poucas noites, acontece algo um pouco mais emocionante.

Um e-mail pouco antes da meia-noite trouxe um alerta de Alvo de Oportunidade. Trata-se de observações que precisam ser feitas imediatamente, um momento do tipo "piscar os olhos e você perde". Esse era uma explosão de raios gama. É um dos eventos mais violentos do Universo, mais de um trilhão de vezes mais brilhante que o nosso Sol. O evento foi captado por um detector espacial e nos foi enviado por e-mail para solicitar a observação.

As explosões de raios gama não fazem parte da minha área de especialização — eu pesquiso estrelas como o Sol e os planetas que as orbitam. Muito menos explosivas. Entre trocar os instrumentos de observação, girar a cúpula e verificar as calibrações, eu também estava assimilando o máximo de informação possível sobre o que é uma explosão de raios gama. Essa provavelmente foi a hora em que mais cheguei perto do meu "momento Jodie Foster", e acabou sendo uma imagem um tanto anticlimática e borrada, carregando muito lentamente na tela.

Depois que a explosão de raios gama foi observada, a sala de controle voltou a ficar em silêncio. E eu de volta às minhas planilhas e tropeçando ao tentar pegar um café. À sensação é de um pouco de solidão, mas vendo outra cúpula girando ao luar quando saí para fora, e me lembrando dos outros astrônomos cansados, todos trabalhando sob as mesmas estrelas, alivia o sentimento.

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Eram 8h30 da manhã quando finalmente voltei para o meu quarto. Pronta para um banho, para a cama e para acordar em cinco horas e fazer tudo de novo.

O resultado científico final

A realidade é que a interpretação científica raramente acontece em tempo real. As medições do telescópio são primeiro limpas e calibradas por um programa de computador, que as transforma em espectros utilizáveis. Em seguida, aplico meu próprio código de análise a esses espectros. Para mim, isso acontece muito mais tarde, na minha mesa de trabalho em Birmingham, depois que meu ritmo de sono se normaliza. Essas observações específicas nos proporcionaram espectros estelares: quando a luz de uma estrela se divide em um arco-íris, sobreposto por padrões que revelam sua temperatura e composição química.

As noites de observação mais comuns envolvem ajustar planilhas, tomar muito café e, aos poucos, render-se ao delírio da privação de sono.

Algumas delas trazem alertas dramáticos. Outras acabam totalmente obscurecidas pelas nuvens e permitem ir dormir mais cedo.

Não há um momento decisivo do tipo "amplie esse sinal", mas há uma sensação tranquila e constante de alegria por estar catalogando e compreendendo as estrelas que, um dia, poderão mostrar que abrigam outra Terra. Hollywood não me preparou para o processo científico. Mas acertou em cheio na sensação de assombro e admiração.

The Conversation
Foto: The Conversation

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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