As múltiplas ameaças ao orangotango de Tapanuli, o grande primata mais raro do mundo

Várias pressões atuam simultaneamente ameaçando o orangotango de Tapanuli, de indústrias extrativas à exploração madeireira, além da expansão agrícola e, cada vez mais, desastres climáticos

5 ago 2026 - 04h05

Nas profundezas das florestas do Norte de Sumatra, na Indonésia, vive o orangotango de Tapanuli (Pongo tapanuliensis), o grande primata mais raro do mundo. Restam menos de 800 indivíduos, confinados ao ecossistema de Batang Toru, uma região que também abriga outras espécies raras, como tigres-de-Sumatra (Panthera tigris sumatrae), o pangolim-malaio (Manis javanica), gibões-ágeis (Hylobates agilis) e calaus-de-capacete (Rhinoplax vigil).

Durante anos, os debates sobre o futuro de Batang Toru se concentraram principalmente em grandes projetos de desenvolvimento, especialmente usinas hidrelétricas, mineração de ouro e energia geotérmica. Mas nossa nova pesquisa, publicada na revista Biological Conservation, sugere que a história é mais complicada.

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Rastreamos a perda florestal e as atividades humanas que a impulsionam combinando três abordagens. Primeiro, utilizamos dados de satélite para identificar onde a floresta foi perdida e quais eram os fatores por trás dessa perda. Em segundo lugar, conversamos com as comunidades locais para validar nossas observações espaciais e determinar os fatores causais a partir de uma perspectiva local. Por fim, utilizamos uma abordagem de avaliação de impacto chamada "método de controle sintético" (synthetic control method, no original em inglês). Essa técnica criou um gêmeo artificial da floresta para mostrar o que teria acontecido se as indústrias extrativas nunca tivessem chegado a Batang Toru.

Ao combinar esses três métodos, examinamos os locais de perda florestal, os processos sociais e econômicos que a impulsionam e seus impactos adicionais no ecossistema. Os resultados revelam que não há uma única ameaça ao orangotango de Tapanuli. Em vez disso, múltiplas pressões atuam simultaneamente — variando de indústrias extrativas e exploração madeireira à expansão agrícola e, cada vez mais, a desastres relacionados ao clima.

Perda florestal acelerou após 2012

Entre 2000 e 2023, Batang Toru perdeu 7.659 hectares de floresta, o equivalente a cerca de 5% de sua cobertura florestal total. A perda florestal acelerou drasticamente após 2012, por volta da época em que três grandes projetos extrativistas foram iniciados na região.

Utilizando o método de controle sintético, estimamos que Batang Toru perdeu aproximadamente 3.472 hectares a mais de floresta do que seria esperado na ausência desses projetos. Isso sugere que os empreendimentos de grande escala alteraram a trajetória da perda florestal em toda a paisagem.

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Mas a pegada direta das indústrias extrativas conta apenas parte da história.

Nossa análise espacial mostra que cerca de 70% da perda florestal total esteve associada à agricultura de pequena escala e à exploração madeireira. Embora as indústrias extrativas tenham causado um aumento repentino na perda florestal, a expansão agrícola e a extração de madeira persistiram e até aumentaram ao longo do tempo.

Isso não significa que os empreendimentos industriais não tenham um impacto importante. Em vez disso, destaca que diferentes fatores atuam em escalas de tempo distintas. Grandes projetos de infraestrutura podem desencadear mudanças abruptas, enquanto a expansão agrícola e a exploração madeireira exercem uma pressão mais lenta, porém contínua, que fragmenta gradualmente o habitat.

Olhando além das imagens de satélite

Entender por que as florestas desaparecem requer mais do que apenas mapear onde árvores são perdidas. As imagens de satélite podem mostrar quando e onde ocorre o desmatamento, mas muitas vezes não conseguem explicar as complexas forças sociais e econômicas por trás das mudanças no uso da terra.

Para resolver isso, colaboramos com a ONG indonésia Tangguh Hutan Khatulistiwa (TAHUKAH), com o apoio da Sumatran Orangutan Society (SOS) — com a qual temos uma parceria para implementar programas de conservação em Batang Toru desde 2021. Estas instituições realizaram observação participante, entrevistas e discussões em grupo com as comunidades que vivem nos arredores de Batang Toru.

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Esses métodos de conservação baseados na etnografia revelaram como as variações nos preços das commodities, as mudanças nos arranjos de posse da terra, a construção de estradas e as estratégias locais de subsistência moldam as decisões sobre o uso da terra.

Por exemplo, a queda nos preços da borracha levou os moradores a desmatar plantações de borracha para dar lugar a cultivos de banana. Essas conversões do uso de terras não regulamentadas podem ocorrer devido à sobreposição de reivindicações sobre territórios consuetudinários e de propriedade do Estado, bem como à fraca fiscalização das atividades madeireiras de pequena escala.

Em conjunto, essas descobertas demonstram a importância de integrar perspectivas sociais e ecológicas na conservação. Essa abordagem é particularmente crítica porque as comunidades locais e os orangotangos de Tapanuli coexistem no mesmo habitat há gerações. Os problemas de conservação são, em última análise, tanto humanos quanto ambientais.

Mudanças climáticas trazem nova ameaça

Como se essas pressões de longa data não fossem suficientes, Batang Toru enfrenta agora um novo desafio.

No final de 2025, o ciclone tropical Senyar trouxe chuvas intensas para Sumatra, provocando inundações e deslizamentos de terra generalizados.

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Estimativas recentes sugerem que cerca de 8.300 hectares de floresta intacta foram destruídos pelo ciclone apenas no Bloco Ocidental de Batang Toru, o que pode resultar na perda de aproximadamente 58 orangotangos de Tapanuli — cerca de 7% da população global da espécie.

Notavelmente, a perda florestal causada por esse evento climático extremo de seis dias superou o total de desmatamento registrado em todo o ecossistema de Batang Toru entre 2000 e 2023.

Prevenir extinção é enfrentar múltiplas ameaças

O orangotango de Tapanuli está ameaçado por uma combinação de indústrias extrativas, expansão agrícola, exploração madeireira, desafios de governança, forças de mercado e mudanças climáticas.

É improvável que lidar apenas com uma dessas pressões garanta o futuro da espécie.

Em vez disso, uma conservação eficaz exigirá abordagens integradas que fortaleçam a segurança da posse da terra, melhorem o monitoramento da exploração madeireira, apoiem meios de subsistência sustentáveis e recompensem as comunidades pela manutenção das florestas.

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Os atores do setor privado também têm um papel importante a desempenhar por meio da restauração, de compensações de biodiversidade e da gestão de longo prazo.

Em última análise, prevenir a extinção do orangotango de Tapanuli vai além da proteção de uma única espécie. Trata-se de manter a resiliência de toda uma paisagem e garantir que tanto os seres humanos quanto a vida selvagem possam continuar a prosperar em um dos ecossistemas mais biodiversos e ameaçados do mundo.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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