Regime dos aiatolás teme ser um dos próximos alvos do presidente Donald Trump, que já fez várias ameaças ao Irã.O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, que culminou com a captura do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, ativou os alarmes da liderança do regime do Irã.
O Irã era um dos aliados mais próximos de Maduro, que se manteve no poder em 2024 após uma ampla fraude eleitoral e não é reconhecido nem pela Alemanha nem pela União Europeia como presidente legítimo da Venezuela.
Com essa intervenção surpreendente, o presidente dos EUA, Donald Trump, demonstrou que a sua administração está disposta a recorrer a medidas militares para derrubar um regime inimigo, em violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional, o que envia um sinal claro de alerta a outros regimes autoritários.
O Irã exigiu a libertação imediata de Maduro. "O presidente de um país e a sua esposa foram sequestrados", declarou um porta-voz do Ministério iraniano do Exterior. "Não há motivo para orgulho. É um ato ilegal", concluiu.
Unidos por um inimigo comum
As relações entre o Irã e a Venezuela dificilmente se explicam pelos padrões tradicionais da política externa. A Venezuela situa-se no Caribe e tem uma população majoritariamente católica, enquanto o Irã está no Golfo Pérsico e é predominantemente muçulmano. O comércio bilateral é modesto e não existem voos diretos entre Caracas e Teerã.
O que os une é um inimigo comum: os Estados Unidos. Eles também estão unidos na resistência às sanções internacionais e na habilidade de sobreviver dentro de uma ordem mundial dominada por Washington.
Nas últimas três décadas, a combinação de simpatia política mútua e retórica antiamericana evoluiu para uma rede complexa de cooperação que abrange petróleo, finanças, indústria e segurança.
Ameaças de Trump
Os acontecimentos políticos na Venezuela surgem num momento sensível para o Irã. O país é palco de protestos que já duram mais de suas semanas. Motivados inicialmente pela inflação, os manifestantes passaram a se voltar cada vez mais contra o regime dos aiatolás.
Diante disso, Trump não hesitou em lançar alertas ao Irã, até mesmo ameaçando com uma intervenção militar dos EUA. "Se começarem a matar pessoas como fizeram no passado, penso que serão atingidos com muita força pelos Estados Unidos", ameaçou.
Nesta segunda-feira (12/01), a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que ataques aéreos estavam entre as "muitas, muitas opções" que Trump estava considerando, mas que a diplomacia é sempre a primeira opção.
Em junho, a Força Aérea dos EUA atacou instalações nucleares iranianas no contexto da guerra israelo-iraniana para destruir as capacidades nucleares do Irã.
O vice-presidente do Bundestag (Parlamento alemão) Omid Nouripour, nascido em Teerã e que emigrou para a Alemanha aos 12 anos, disse que muitos iranianos querem uma mudança de regime. "Mas as intervenções dos últimos anos, e agora também na Venezuela, mostram que Trump não tem plano para o dia seguinte. Por isso sou muito cauteloso", ressalvou.
Reação de Teerã
A mensagem de Trump certamente chegou a Teerã. A liderança iraniana sabe que pode se tornar alvo militar dos EUA. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse numa conferência de embaixadores estrangeiros em Teerã que o Irã "não está buscando a guerra, mas está totalmente preparado para ela", e pediu negociações justas.
O governo em Teerã afirmou que mantém os canais de comunicação com Washington abertos. Segundo o portal de notícias americano Axios, Araghchi entrou em contato com o enviado especial de Trump para o Oriente Médio e a Ucrânia, Steve Witkoff, no fim de semana passado, com a aparente intenção de reduzir a tensão com Washington.
O analista de política internacional Damon Golriz diz que a operação contra Maduro evidencia uma mudança de posição de Trump. Em 2025, ele havia se mostrado relutante em apoiar os planos israelenses para atacar o líder supremo Ali Khamenei e outros dirigentes militares iranianos.
"Os EUA devem cuidar dos seus soldados", advertiu Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Os EUA têm até 45 mil soldados estacionados em vários países do Médio Oriente, incluindo Iraque, Síria e Catar.
Em junho, o Irã atacou a maior base militar norte-americana no Oriente Médio, situada no Catar, em retaliação pelo bombardeio das suas instalações nucleares. Não houve feridos. Segundo Trump, os EUA foram avisados previamente pelo Irã.
Impacto psicológico
A queda de Maduro tem implicações para a segurança e o aparelho militar iraniano, sublinha Golriz. A busca por um sucessor de Ali Khamenei já estaria em andamento. Ao contrário da Venezuela, o país não tem uma oposição significativa dentro da sua estrutura de poder altamente personalizada.
O ataque dos EUA à Venezuela teve um impacto psicológico em Teerã, afirma o jornalista iraniano Reza Talebi, que vive exilado na Turquia. Os tomadores de decisões iranianos enfrentam uma questão crucial: "Se os EUA conseguiram realizar um golpe como esse no Hemisfério Ocidental, porque não haveriam de fazer o mesmo em outros lugares?"
Talebi considera que isso pode alterar os cálculos estratégicos do Irã nas suas relações com os EUA e Israel. Após a captura de Maduro, Israel lançou um forte aviso a Teerã, com o líder da oposição e ex-primeiro-ministro Yair Lapid dizendo que é preciso acompanhar de perto os acontecimentos em Caracas.
Mas a intensificação das ameaças externas também dá ao governo iraniano um pretexto para reprimir ainda mais os protestos.
Já Talebi avalia que a esperança numa intervenção militar dos EUA ou num "salvador externo" pode enfraquecer a vontade da sociedade civil iraniana de protestar e alerta que "a ideia de que a pressão do governo Trump visa sobretudo apoiar o povo iraniano é ingênua e superficial."