Diante da queda de sua popularidade para 37% e da crise econômica doméstica, o presidente argentino Javier Milei endureceu o discurso sobre as Ilhas Malvinas contra o Reino Unido e anunciou sanções a petroleiras na região. A manobra nacionalista, incentivada por acenos de Donald Trump, repete táticas históricas para desviar o foco do desemprego e da inflação antes das eleições, buscando coesão interna. Contudo, analistas apontam que a disputa deve se limitar ao campo diplomático, sem rupturas reais.
A busca por coesão interna através de disputas territoriais externas é uma ferramenta clássica na história política da América Latina. Em um momento de crescente desgaste de sua gestão, o presidente da Argentina, Javier Milei, colocou novamente a histórica reivindicação sobre as Ilhas Malvinas no centro dos debates em Buenos Aires.
O líder libertário endureceu a retórica diplomática contra o Reino Unido e anunciou sanções severas a petroleiras internacionais, como o consórcio formado pela israelense Navitas Petroleum e a britânica Rockhopper. A mudança drástica de postura ocorreu após o veículo norte-americano The Wall Street Journal e a revista britânica The Economist associarem a nova ofensiva à queda do apoio popular do governo, que atingiu 37% segundo levantamento da AtlasIntel divulgado pela Bloomberg.
The Wall Street Journal analizó el giro de Javier Milei con Malvinas y lo vinculó con la caída de su popularidad. https://t.co/Tl5UeWDHB4
— Perfil.com (@perfilcom) September 6, 2026
Como Milei resgata o passado para conter a queda de popularidade
O resgate do tema não é inédito e carrega um peso histórico profundo no imaginário argentino. Em 1982, a ditadura militar enfraquecida apelou à invasão do arquipélago no Océano Atlântico para tentar unir a população, desfecho que acabou precipitando o fim do regime após a derrota para as forças de Londres.
Desta vez, a motivação reside nas pressões do cenário econômico doméstico: o desemprego formal estagnado, o endividamento das famílias monitorado pelo Banco Central argentino e o custo de vida elevado corroeram parte da base de apoio. Ao inflamar o sentimento cívico, o Executivo tenta construir uma blindagem política antes das eleições legislativas e da corrida pela reeleição no próximo ano.
O apelo ao patriotismo diante dos desafios econômicos
A manobra também reflete uma aproximação tática com estratégias adotadas por correntes opostas, como o próprio kirchnerismo, já que a causa territorial é uma das raras unanimidades nacionais. Durante pronunciamento oficial, a liderança argentina convocou a união do país e criticou a exploração de petróleo na região sem autorização da capital.
A professora de Relações Internacionais da UNIFESP, Carolina Pedroso, apontou, em entrevista à CNN, que a retórica repete um padrão conhecido: "É claramente um expediente político, o mesmo que foi usado na ditadura. Milei tenta de novo essa cartada nacionalista como uma forma de se blindar das críticas e das dificuldades que tem enfrentado para o próximo ciclo eleitoral".
A geopolítica das Ilhas Malvinas e os sinais enviados por Donald Trump
Assim, a postura mais assertiva de Javier Milei ganhou tração após declarações do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerindo a possibilidade de rever a histórica neutralidade norte-americana sobre a soberania do arquipélago.
O movimento foi interpretado na Casa Rosada como uma oportunidade estratégica para pressionar os britânicos. No entanto, o especialista em América Latina do think tank Diálogo Interamericano, Michael Shifter, alerta para a conveniência do movimento: "Quando se tem problemas políticos, essa é uma maneira comprovada de tentar superá-los e aumentar o apoio. Por isso, não é surpreendente que Milei esteja tentando tirar o máximo proveito disso".
Apesar da firmeza verbal e das medidas administrativas no setor energético, analistas internacionais concordam que o confronto deve permanecer estritamente no campo diplomático, evitando retaliações comerciais e protegendo as negociações do país com o FMI.