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'Femenagem' e 'ovulário': o que são as novas palavras que centralizam a mulher?

Para linguista, novos termos não devem ser impostos à sociedade; antropóloga aponta termos como parte de uma guerrilha da linguagem

19 mai 2022 05h00
| atualizado às 11h37
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Tiemblan los Chicago Boys. Aguanta el movimiento feminista
Tiemblan los Chicago Boys. Aguanta el movimiento feminista
Foto: Grafitti na fachada da Universidade Católica de Chile, 2018

Mudanças no nosso idioma não são incomuns. Há alguns anos, "linguiça" tinha trema e, até pouco tempo atrás, "ideia" era uma palavra acentuada, por exemplo. Para além da reforma ortográfica, novas palavras surgem e outras caem em desuso, por não serem mais tão necessárias em nossa sociedade. 

A Língua Portuguesa também sofre alteração à medida em que certos grupos sociais sentem a necessidade de se afirmar e legitimar, difundindo termos específicos até então desconhecidos para os demais. É o caso das palavras "femenagem" e "ovulário".

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"Se isso será restrito ao grupo ou expandirá para uma coletividade maior, apenas o próprio percurso natural da linguagem dirá", aponta Ana Cecília da Costa, mestre em Língua Portuguesa e professora há 20 anos na Universidade Católica de Santos (UniSantos). 

As duas palavras são termos utilizados principalmente por coletivos e representações feministas, em contraponto aos seus "sinônimos", tidos como machistas, centrados no homem. "Femenagem", por exemplo, seria uma versão para "homenagem". "Ovulário", por sua vez, para "seminário".

Há quem discorde que esta seja a melhor forma de tratar do assunto. Na semana passada, a doutoranda em Teoria Literária da Universidade de São Paulo (USP) Juliana Cunha repercutiu no Twitter ao chamar a atenção para os termos e sua pouca efetividade em outras pautas feministas, como a luta contra a violência doméstica. 

A linguista Ana Cecília reforça que um vocabulário não pode ser modificado "à força". Para ela, as nuances e diferenças devem se materializar naturalmente. Caso contrário, os termos podem acabar se tornando jargões do ativismo e com pouca repercussão fora da bolha.

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"Trocar palavras pensando que vamos resolver questões de gênero, que são muito mais amplas, é ingenuidade", critica a professora, que também aponta a necessidade de ações e políticas públicas com as mesmas intenções. "De que adianta mulheres insistirem em termos no feminino, se não votam em outras mulheres para representá-las?", questiona.

Etimologia das palavras

A professora Ana Cecília da Costa diz que a Língua Portuguesa pode ser considerada machista, por alguns grupos, por causa de, por exemplo, ter estrutura dos plurais no masculino ou mesmo substantivos que privilegiam o gênero masculino, mas discorda da afirmação. Segundo ela, a explicação para isso é a estrutura linguística herdeira do latim.

O professor Rafael Rigolon, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), também não vê os termos "femenagem" e "ovulário" como inclusivos. Para ele, que ensina Educação para a Ciência e alimenta a página 'Nomes Científicos' no Facebook, essas novas palavras podem ser consideradas até mesmo incorretas. 

"Eu não tenho absolutamente nada contra a adaptação de uma palavra para dar um efeito mais interessante a um objetivo desejado [...] Para outros fins bem mais sérios, trocar parte da palavra pode também ser interessante. [...] Por divulgação ou qualificação, certamente não é o caso de 'femenagem'. Parece estar mais para misandria mesmo", diz em uma publicação que analisa o uso do termo feminista.

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Ao Terra, Rafael aponta que o uso se justificaria se, culturalmente, homenagens fossem reservadas apenas a homens.

"Etimologia não justifica censura. Por mais que as palavras tenham sido construídas em outros tempos, com outros significados e propostas, a gente tem que avaliar a proposta atual delas", defende.

Segundo o dicionário Oxford Languages, a etimologia das palavras são as seguintes:

  1. Homenagem: do antigo francês homage, "demonstração de respeito pelo seu senhor feudal", de homme, "homem", que vem do Latim homo, "ser humano".
  2. Seminário: seminarium, "viveiro de plantas", derivado de semen, seminis, isto é, “semente”.

"Guerrilha da linguagem"

O idioma deve acompanhar a cultura, os movimentos sociais e o momento histórico em que determinada sociedade está inserida. Pelo menos é isto que defende a antropóloga feminista Miriam Grossi, professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades.

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"A feminilização da língua é uma demanda bastante histórica do movimento feminista", aponta.

Segundo ela, a ação de forçar o uso de palavras no gênero feminino ou adotar novos termos propositalmente pode ser chamado de "guerrilha da linguagem". A antropóloga observa que o homem é sempre valorizado e engloba o feminino.

Os plurais, já mencionados nesse texto, seriam um exemplo. Independentemente da quantidade de mulheres num conjunto, a presença de um homem força o termo no masculino. 

"Uma homenagem tem um caráter sexista, masculinista. Bem ou mal, as homenagens eram tradicionalmente para homens. É muito recente que mulheres recebam homenagens, sobretudo em espaços políticos e públicos", argumenta.

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A antropóloga conclui que "femenagem" e "ovulário" vêm para transformar a linguagem e provocar um estranhamento em quem está escutando. Afinal, ao mesmo tempo em que transformam a língua, transformam também o significante dela.

"Quando você fala em femenagem, você vê uma mulher", diz Miriam.

 

Fonte: Redação Terra
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