Nissan cobra mais de R$ 1 milhão e tem fila de 3 anos para mexer nos carros de clientes

Visitamos a sede da Nismo, divisão de performance da Nissan, que atrai entusiastas de todo o mundo dispostos a esperar anos por uma customização completa

19 abr 2026 - 13h03

Existem lugares onde o tempo anda mais devagar e o dinheiro evapora mais rápido. Um deles é o quartel-general da Nismo, em Yokohama, no Japão. A divisão de performance da Nissan transformou o local em algo que beira o culto. Lá se construiu um templo onde o carro do cliente entra como máquina e sai com alma.

O Jornal do Carro esteve no HQ da Nismo, casa que serve basicamente para atender aos entusiastas do Skyline GT-R — cultuado esportivo da Nissan. Um veículo preparado na sede da divisão começa com um "Pix" de cerca de US$ 250 mil (R$ 1,25 milhão em conversão direta) e termina, no melhor dos cenários, quase quatro anos depois. Isso porque a fila de espera já bate três anos. Depois disso, a customização em si leva entre seis e nove meses.

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Tudo é feito de forma praticamente artesanal. Não há linha de produção, robôs coreografados ou pressa. O que existe é mão, olho e obsessão típica dos japoneses. A Nismo aplica, de certo modo, engenharia de competição a um carro de cliente com o tipo de atenção que, em qualquer outra indústria, seria considerado inviável.

São feitas alterações estruturais e também, evidentemente, na mecânica do carro. A reportagem viu na oficina modelos de diferentes gerações, da R32 até a R34. Todos eles contavam com detalhes de deixar qualquer fã de Initial D ou da franquia Velozes e Furiosos boquiabertos.

Para a nossa felicidade, os engenheiros da Nismo abriram os capôs de algumas das unidades em exposição. Pudemos ver alguns RB26DETT em excelente estado. O icônico 2.6 de seis cilindros em linha chega a ser tratado como peça de exposição.

O cofre do motor é organizado quase que de modo obsessivo e evidencia projeto que foge do improviso típico de preparações apressadas. A presença da barra de torção unindo as torres de suspensão já aponta a clara preocupação com rigidez estrutural e comportamento dinâmico, algo que só faz sentido em um carro pensado para ir além do rolê do de fim de semana.

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A admissão também não ficou intocada. O duto de ar com acabamento mais refinado indica revisão no fluxo, tipo de ajuste clássico em motores sobrealimentados que vivem de respirar melhor para entregar mais.

O que surpreende, contudo, é o cuidado típico que prefere por não ostentar modificação, mas que deixa a eficiência dos japoneses sussurrar (é um povo discreto, de fala baixa em público). Mangueiras bem posicionadas, ausência de excessos e um layout que privilegia tanto a estética quanto a funcionalidade demonstram o quanto a engenharia é discreta, porém precisa.

A assinatura Nismo não está ali à toa. Radiador mais eficiente e até intercooler de maior capacidade entram facilmente na lista do que pode estar escondido fora do alcance imediato do olhar. Em builds do tipo, é comum que o conjunto vá além do visível, com turbos revisados ou substituídos por unidades maiores, sistema de alimentação reforçado com novos bicos e bomba de combustível, além de um acerto eletrônico mais refinado e, em casos mais ambiciosos, internos forjados.

Clientes e sede da Nismo

Os entusiastas que procuram pela Nismo, em Yokohama, recebem o que querem — e gostam. Metade vem do Japão e a outra do resto do mundo. Curiosamente, ao menos de acordo com a equipe que atendeu a reportagem, nenhum brasileiro apareceu até o momento. O grosso da demanda internacional vem do Oriente Médio, região onde exclusividade e performance costumam andar de mãos dadas.

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Importante ressaltar que existe detalhe peculiar que ajuda a explicar o nível da experiência e a pequena fila de espera. Existe apenas uma loja oficial da Nismo no mundo. Justamente a da sede em Yokohama. Por isso, donos dos veículos não medem esforços, e transportam seus carros até o local por terra, ar ou mar.

A sede da Nismo funciona desde 2013 colada à base global da Nissan. O edifício concentra engenharia, desenvolvimento, manutenção de carros de corrida e produção de componentes em fibra de carbono. São mais de 150 profissionais trabalhando em um layout integrado a fim de acelerar (me perdoem o trocadilho) a troca de conhecimento entre pista e rua.

O prédio também funciona como vitrine. O showroom reúne desde troféus, modelos históricos até máquinas atuais e carros de competição, incluindo um monoposto de Fórmula E da Nissan (um Gen2 pilotado por Sébastien Buemi). É o tipo de lugar onde cada carro conta uma história, e cada detalhe parece calculado para reforçar a mística.

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