A frota de veículos São Paulo está envelhecendo. Segundo levantamento do Detran-SP feito a pedido do Jornal do Carro, cerca de 66,5% dos veículos ativos no estado já têm 10 anos ou mais de idade.
Dos 27,58 milhões de veículos ativos em São Paulo, 10,87 milhões têm entre 10 e 20 anos, correspondendo à maior parcela da frota. O segundo maior grupo é o de veículos acima de 20 anos, com 7,45 milhões de unidades.
Enquanto isso, a parcela de veículos novos — com até dois anos de idade — tem a menor representatividade. Apenas 1,45 milhão de veículos têm até 1 ano, enquanto 1,11 milhão têm entre 1 e 2 anos. Somados, eles representam apenas 9,31% de toda a frota ativa.
Logo, há cerca de três vezes mais veículos fabricados até 2006 do que modelos produzidos nos últimos dois anos em circulação, evidenciando o ritmo lento de renovação da frota paulista.
Porque a idade da frota de veículos avançou tanto
Para Marcelo A. L. Alves, professor do Centro de Engenharia Automotiva da Escola Politécnica da USP, o principal motivo para o envelhecimento da frota é econômico.
"Os carros estão mais caros e o poder de compra (mesmo com crédito) está reduzido. O consumidor posterga a compra, pois teme o comprometimento financeiro. O endividamento dos consumidores brasileiros também é um problema", explica o especialista.
Marcelo relembra que parte desse problema vem de uma produção local que passou por diversas dificuldades nos últimos anos. Desde 2013, o país não consegue alcançar o patamar de 3,71 milhões de veículos produzidos. Segundo a Anfavea, a previsão é de que o Brasil fabrique cerca de 2,8 milhões de veículos em 2026, mantendo-se abaixo da marca de 3 milhões de unidades.
"Estamos há mais de 10 anos com uma reposição menor da frota", resume Marcelo.
Quais os problemas de ter uma frota envelhecida?
Uma frota mais antiga significa carros mais poluentes. Além disso, ela também tende a exigir mais manutenção. Como muitos proprietários adiam reparos por questões financeiras, aumentam os defeitos mecânicos e até os congestionamentos nas grandes cidades provocados por veículos quebrados.
"Em alguns países, com melhor condição econômica que o Brasil, também há frotas antigas. Os EUA têm idade média da frota na casa dos 12,8 anos, mas estamos falando de um mercado em que a produção e a venda de veículos não tiveram a mesma redução que houve no Brasil desde 2013.
Muitas famílias têm mais de um carro na garagem (um mais velho e outro mais novo) e as condições de manutenção são muito diferentes. Não existe o fenômeno do carro 'só para rodar' — sem documentos, em péssimo estado de conservação — que é cada vez mais comum em São Paulo e em todo o Brasil", explica o professor.
Outro ponto que atrapalha a renovação da frota é a redução da oferta de carros de entrada.
"As montadoras reorientaram sua produção para uma linha de produtos cuja venda proporciona um melhor retorno financeiro", explica o especialista. "Mas cabe lembrar que, no caso brasileiro, mesmo os modelos mais simples estão fora das possibilidades financeiras da maioria", conclui.
Medidas como o próprio programa Move Brasil têm como objetivo renovar a frota nacional, facilitando o acesso ao crédito e a compra de modelos mais novos. No entanto, segundo Marcelo, há pouca efetividade em programas voltados para nichos específicos.
"[O Move Brasil] terá pouco efeito porque é destinado a um setor específico. Não vai resolver o problema principal, que é o fato de o automóvel ter se tornado um bem menos acessível ao consumidor brasileiro."