Celulares causam cada vez mais acidentes de trânsito — mas os números mostram outra coisa

Polícia não tem como provar, o motorista não admite e o aparelho não deixa rastro. O resultado é um vilão do trânsito que praticamente não existe nas estatísticas

21 set 2026 - 16h39
Resumo
Estudos revelam que o uso de celular ao volante causa grave distração cognitiva e física, equiparável à embriaguez, elevando os riscos de colisão. Embora o hábito gere sete multas por minuto no Brasil e seja comum entre condutores, seu impacto real é subnotificado nas estatísticas oficiais, frequentemente oculto sob registros de falta de reação. Recursos de voz e tecnologias integradas tentam amenizar o problema, mas a demora para recuperar a atenção plena mantém o risco de acidentes alto.

Sabendo que seriam filmados o tempo todo, 32 motoristas de Curitiba aceitaram rodar com três câmeras instaladas no próprio carro, uma delas apontada para o rosto. A vigilância tenderia a fazê-los condutores exemplares, imaginaria o senso comum. Mas isso não ocorreu.

As imagens captaram, na verdade, o uso intenso do celular: cada "olhadinha" no aparelho dos voluntários durou, em média, 55 segundos — o que parece pouco, mas totalizou oito minutos de atenção na tela por hora de volante.

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Além disso, raramente era algo urgente: 45% dos casos eram só uma espiada para checar notificações ou conferir o mapa. Quando pegavam o celular para olhar a tela, os condutores ainda tiravam o pé do acelerador e perdiam, em média, 7 km/h.

Os números vêm do primeiro Estudo Naturalístico de Direção Brasileiro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), que monitorou 381 horas de condução real na capital paranaense.

É a fotografia mais honesta já produzida no país sobre o uso do celular ao volante — e ela desmente a versão dada pela maioria dos motoristas, que negam o ato imprudente.

Cem metros no escuro

Em pesquisa semelhante, o Instituto de Transportes da Virginia Tech, nos Estados Unidos, filmou milhões de quilômetros de direção real e descobriu que digitar uma mensagem tira os olhos da pista por 4,6 segundos, em média.

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A 100 km/h, isso significa quase 130 metros percorridos no "escuro" — mais do que um campo de futebol inteiro. Entre caminhoneiros, o mesmo estudo calculou que digitar ao volante multiplica por impressionantes 23 o risco de colisão.

Radares com câmeras equipadas com inteligência artificial começaram a multar motoristas por uso de celular ao volante e por falta de cinto de segurança nos trechos sul e leste do Rodoanel Mário Covas
Radares com câmeras equipadas com inteligência artificial começaram a multar motoristas por uso de celular ao volante e por falta de cinto de segurança nos trechos sul e leste do Rodoanel Mário Covas
Foto: SPMAR/Divulgação / Estadão

A parte invisível é pior, porque ninguém a percebe: estudiosos da Universidade Carnegie Mellon (EUA) puseram 29 voluntários num aparelho de ressonância magnética e pediram que dirigissem num simulador enquanto julgavam se frases ouvidas eram verdadeiras ou falsas.

Simulador da pesquisa
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil / Estadão

Pela mera distração de raciocínio, a atividade do lobo parietal — a região que cuida da noção de espaço e da navegação — caiu 37%, e os voluntários começaram a sair da faixa. Com o uso do celular, apontam as evidências, esse efeito é ainda pior.

"Não basta manter as mãos no volante; é preciso manter o cérebro na estrada", resumiu o neurocientista Marcel Just, que coordenou o experimento.

Na mesma época, na Universidade de Utah (EUA), o psicólogo David Strayer comparou motoristas ao telefone e motoristas alcoolizados. O grupo do celular reagiu mais devagar às freadas do carro da frente e bateu mais. O grupo alcoolizado não bateu nenhuma vez.

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Strayer batizou o fenômeno de cegueira por desatenção: o motorista olha para o obstáculo e não o enxerga.

A Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) fala a mesma língua: para a entidade, o celular ao volante causa a mesma perda de capacidade que 1 grama de álcool por litro de sangue.

O vilão que some da estatística

Se o celular é tão perigoso, deveria aparecer com destaque nos registros de acidentes do Brasil. Mas isso não ocorre, e gera subterfúgios para quem nega o problema.

Um levantamento do Jornal do Carro com base em dados da Polícia Rodoviária Federal mostrou que, dos 42.322 sinistros registrados em rodovias federais em 2026, apenas 101 foram anotados com a causa explícita "condutor usando celular". São 0,24%, que corresponderiam praticamente a ruído estatístico.

Motorista com celular
Foto: Reprodução/Internet / Estadão

Na mesma base, entretanto, outras duas categorias somam 13.144 ocorrências e 828 mortes: "ausência de reação" e "reação tardia ou ineficiente". São 31% do total, com a descrição exata de um motorista que não viu o que estava na frente dele — sem o porquê disso determinado pela PRF.

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No fim, os dados não provam que o celular causou esses 13 mil sinistros. Provam, por outro lado, que não sabemos o que foi, com a participação dos smartphones sendo muito provável.

É um problema mundial: em agosto, o Instituto de Seguros para Segurança Rodoviária (IIHS), dos Estados Unidos, cruzou dados de telemetria de quase 17 mil acidentes com os boletins policiais correspondentes.

Os aparelhos apontaram celular em uso nos 30 segundos anteriores à batida em 7% a 8% das colisões, ao passo que os boletins registraram menos de 1%. A subnotificação é de pelo menos sete vezes.

"Muitas funções do smartphone são difíceis de uma testemunha enxergar", explicou David Harkey, presidente do IIHS. "E os motoristas relutam em admitir que estavam distraídos."

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Eduardo Camargo, CEO da Motiva Rodovias, aponta o mesmo obstáculo do lado de cá. "Ainda não foi possível criar o 'bafômetro do celular' para medir e constatar de forma precisa a distração do condutor", escreveu o executivo.

Sete multas por minuto

Só em janeiro e fevereiro deste ano, 601.349 motoristas foram multados por uso de celular ao volante, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito. Dá sete multas por minuto, dia e noite. É a sexta infração mais registrada do país.

Motorista com celular
Foto: Reprodução/Internet / Estadão

Pesquisa da Fundação Mapfre com a UFRJ em três capitais foi além: 75% dos motoristas e quase 80% dos motociclistas admitiram mexer no aparelho em movimento. E um em cada seis entrevistados já tinha batido, caído ou atropelado alguém enquanto usava o celular.

A Motiva ouviu 24.974 clientes em cabines de pedágio de 14 rodovias em cinco estados e perguntou o que mais os havia irritado no trânsito nos últimos 30 dias. Dois terços tinham alguma queixa — e o primeiro lugar, disparado, com 30% das menções, foi o motorista mexendo no celular, à frente de quem costura entre faixas e de quem cola na traseira.

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A concessionária transformou o achado em campanha, criando o movimento "O alerta que faltava", que já atraiu diferentes marcas e prevê, para esta Semana Nacional de Trânsito, cerca de 150 ações presenciais em sete estados, sob o mote "No trânsito, seja apenas motorista".

O que fazer com o aparelho, então

Por outro lado, dizem especialistas, é preciso uma compreensão realista de que os aparelhos móveis são parte indissociável da vida moderna. Nesse sentido, dá para introduzi-los, de maneira controlada e calculada, na viagem, mitigando riscos.

Isso significa configurar tudo antes da partida do carro: rota traçada, playlist escolhida, aparelho fixado em suporte no painel (ou conectado à central multimídia) e fora da linha de visão da via.

Apple Car Play Ultra
Foto: Aston Martin/Divulgação / Estadão

O Código de Trânsito é claro: manusear o telefone dirigindo é infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na carteira. O entendimento oficial vale até para o carro parado no semáforo.

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Pensando nisso, tanto os iPhones quanto os celulares Android trazem, há anos, um recurso pouco usado que resolve boa parte do problema: o modo de foco ao dirigir, que silencia notificações automaticamente quando o celular detecta movimento ou se conecta ao Bluetooth do carro, e avisa quem mandou a mensagem que você está na estrada.

As interfaces automotivas seguiram o mesmo caminho: o Android Auto trocou o Google Assistente pelo Gemini, que resume mensagens longas em voz alta, sugere respostas prontas e traduz textos — a ideia é eliminar o motivo para olhar a tela.

O Apple CarPlay, no iOS 26, ainda passou a exibir chamadas em formato compacto, sem cobrir a navegação, e ganhou respostas rápidas por ícone, para mitigar a distração.

Mesmo assim, são paliativos, diz Strayer, que testou esses sistemas de voz a pedido da fundação de entidades de segurança viária e encontrou um efeito residual desconfortável: nos piores casos, o motorista leva até 27 segundos para recuperar a atenção plena depois de encerrar o comando.

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"A maioria das pessoas pensa: desliguei, estou pronto", disse o pesquisador. "Mas não é bem assim."

A 100 km/h, 27 segundos são 750 metros. Tempo mais do que suficiente para que um erro previsível vire uma estatística que o Brasil, por enquanto, nem sabe contar.

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