Carro é coisa de homem? De onde vem esse conceito e por que o cenário mudou

Presença feminina no setor automotivo cresce ano após ano, impulsionada por profissionais que desafiam preconceitos

13 ago 2026 - 11h40

Em meio à avenida paulista, parado no semáforo, estava ele: o EcoSport. Pra você, talvez seja apenas mais um carro, mas para Marinna Silva, é o resultado de 2 anos de trabalho. Seu primeiro projeto como engenheira da Ford, uma das maiores marcas do mundo.

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Formada em engenharia na turma de 2002 pela Universidade de São Paulo (USP), hoje, ocupa os cargos de diretora de Marketing da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), coordenadora do SIMEA - Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva e Gerente Sênior de conformidade na Cummins Brasil.

Carro é coisa de homem, mas só até a página 2

Bertha Benz fez a primeira viagem longa de carro, em 1888, e ajudou a provar que a invenção do marido era útil e viável comercialmente. Nos primeiros anos da indústria, no fim do século XIX e início do século XX, mulheres dirigiam, participavam de competições e contribuíam para o desenvolvimento do setor.

Foi ao longo do século XX que a história começou a mudar. Os automóveis passaram a representar status social e as campanhas publicitárias passaram a dialogar quase exclusivamente com os homens, enquanto as mulheres apareciam costumeiramente como passageiras.

Marinna Silva, citada no início dessa matéria, está há 24 anos na indústria automotiva. Sua entrada no setor aconteceu quase por acaso.

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No último ano da faculdade, ela recebeu um convite para conhecer o campo de provas da Ford, no interior de São Paulo. Até então, sua experiência era principalmente acadêmica e de laboratório. Foi durante a visita que ela descobriu a engenharia automotiva na prática.

"A partir do momento que eu pisei no campo de provas, eu me apaixonei. Porque ali foi a primeira vez que eu vi a engenharia na prática.", conta.

Essa visita acabou levando a um estágio na Ford e, depois, a uma carreira de mais de duas décadas no setor. Mas Marinna logo descobriu que, além de aprender sobre engenharia, teria de aprender a ocupar espaços nos quais quase não havia mulheres.

No primeiro departamento em que trabalhou, ela era a única mulher. Em outro momento da carreira, chegou a ser a única mulher em processos seletivos e, depois de contratada, permaneceu nessa posição solitária: "Por um bom tempo eu fui a única na sala", lembra.

A experiência trouxe situações que hoje ela identifica como parte de um processo de adaptação para conseguir ser ouvida em um ambiente predominantemente masculino. Em determinado momento, Marinna chegou a tentar mudar a própria postura para se aproximar do comportamento dos homens que estavam ao seu redor.

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"Talvez para ser ouvida ou para ser respeitada, eu tentei me transformar num homem no jeito de falar, no jeito de postura", conta.

Ela percebeu, porém, que não precisava deixar de ser quem era para conquistar espaço. O amadurecimento profissional ajudou a entender que sua forma de enxergar os problemas também tinha valor e ainda poderia ser um forte diferencial.

Quando defendia uma gestão mais próxima das pessoas, por exemplo, escutava que era "muito maternal" ou "people centric". Para ela, cuidar das pessoas não significava deixar de lado os resultados ou os processos. "Eu falava: gente, mas a gente só faz o trabalho através de pessoas", afirma.

A experiência também ensinou Marinna a não deixar que a expectativa dos outros determinasse sua maneira de trabalhar. Hoje, uma das principais lições que leva da carreira é justamente a importância de preservar a própria identidade.

"Não me importar tanto com o que os outros vão pensar" e "me manter o mais autêntica possível" são, segundo ela, aprendizados importantes de sua trajetória. Lições que ela passa todos os dias ao seu novo time, desta vez composto por uma maioria feminina, provando que o setor tem evoluído.

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Outra prova desse progresso é Lílian Viana, da Frison, empresa especializada em veículos premium.

Ela entrou na empresa para trabalhar na recepção, mas logo se encantou pelo mundo dos carros. Aos poucos, a curiosidade transformou-se em admiração pela tecnologia, pela engenharia e pela complexidade do setor.

Hoje, Lílian acredita que a participação feminina cresce de forma consistente. Segundo ela, cada vez mais mulheres assumem a gestão de oficinas, tornam-se sócias de empresas ou seguem carreiras técnicas. Isso, no entanto, não significa que as barreiras tenham desaparecido.

"Mulheres precisam se provar o tempo todo", afirma. Para lidar com esse cenário, ela decidiu concentrar esforços naquilo que pode controlar: estudar, buscar conhecimento e investir continuamente na própria formação.

Para Viana, um dos maiores problemas continua sendo a inferiorização da capacidade feminina. Ainda há quem enxergue limitações antes mesmo de conhecer o trabalho desenvolvido por uma profissional.

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Para incentivar outras mulheres, Lílian compartilhou sua história na série "Elas no Comando", produzida pela marca de lubrificantes Mobil e disponível no canal da empresa no YouTube.

As histórias de Giovana e Lílian mostram que o principal desafio das mulheres na mecânica nunca foi aprender sobre carros, mas romper uma estrutura. Felizmente, estamos chegando lá.

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