O cronômetro marcava apenas 18 segundos de jogo e a torcida santista já esbravejava na Vila Belmiro. Não era para menos. Poucos instantes após o árbitro paraguaio Carlos Benítez trilar o apito, a equipe já estava atrás da Universidad Central. O gol-relâmpago dos venezuelanos saiu graças a uma pixotada do zagueiro Adonis Frias. O argentino errou ao tentar recuo para Gabriel Brazão e acabou permitindo ao habilidoso Samuel Sosa encobrir o goleiro santista com um tapa por cima. Assim, em um átimo, os torcedores viam se repetir uma cena que tornou-se rotina. Ou seja, falha grotesca de um zagueiro gerando gol de adversário.
No caso específico do jogo da última terça-feira (28), o erro não teve consequências negativas porque o rival da Copa Sul-Americana era frágil. No fim, o Santos venceu por 4 a 2 e, com placar somado de 8 a 3 no confronto dos playoffs, assegurou vaga nas oitavas de final. Porém, o fato de ter levado três gols somados os dois duelos, os seguidos erros individuais de zagueiros e a incapacidade de sair de campo sem ser vazado explicam, em boa parte, as dificuldades atuais da equipe.
O confronto contra a UCV foi o quarto do Santos na retomada do futebol brasileiro após a pausa para a Copa do Mundo. Em todos eles, a equipe levou gol. Além disso, os quatro principais zagueiros e o goleiro titular cometeram ao menos um erro fatal. Assim, o Peixe não deixa o campo sem passar incómule desde 26 de maio, quando fez 3 a 0 no Deportivo Cuenca (EQU), pela última rodada da fase de grupos da Sul-Americana. Já são cinco partidas consecutivas na temporada sofrendo gols.
"Em termos de construção foi ótimo, 25 finalizações. Mas o aproveitamento foi pequeno. O que preocupa mais do que tudo é ter tomado dois gols em casa. Deixar o adversário finalizar o dobro de vezes do que finalizou lá. Essas coisas que saio com ela na cabeça e hoje vou pensar muito, encontrar o equilíbrio", declarou Cuca após o novo triunfo sobre a UCV, citando a vulnerabilidade defensiva da equipe.
Falhas primárias e presentes para os adversários
A coleção de falhas bisonhas de defensores começou já no primeiro jogo da retomada das competições oficiais. E custou um ponto precioso no Brasileirão, competição em que o Santos luta contra o rebaixamento. Contra o Botafogo, a equipe perdeu por 2 a 1 em dois lances primários. No primeiro gol dos cariocas, aos 40 minutos do primeiro tempo, Luan Peres e Lucas Veríssimo erraram na troca de passes e Lucas Emanuel marcou. No último ato da partida, aos 49 minutos do segundo tempo, Gabriel Brazão saiu em disparada e chutou em cima do próprio Luan Peres uma bola que surgiu a esmo e ela sobrou para Kadir, com liberdade, dar a vitória aos mandantes.
Na partida seguinte, contra a UCV, o gol de honra dos venezuelanos veio após passe errado de Moisés dentro da área. Mais uma falha individual, a única cujo responsável não foi um defensor. Quatro dias depois, contra a Chapecoense, o Santos deixou de vencer a lanterna por lambanças em série. O Peixe levou a virada, no segundo tempo, com dois gols parecidos pelo lado esquerdo do sistema defensivo. No primeiro, Giovanni Augusto cruzou para Marcinho finalizar com liberdade. Já no segundo, foi a vez de Yannick Bolasie tocar rasteiro para a área. Desta vez, o zagueiro João Ananias foi cortar e acabou fazendo contra.
Essas duas falhas custaram mais dois pontos. Pior, levaram o Santos a somar apenas um nos dois jogos que fez contra o pior time do Brasileirão. No primeiro turno, a Chapecoense obteve sua única vitória até o momento justamente na estreia. Na ocasião, fez 4 a 2 no Peixe.
"Nós fizemos uma linha errada lá atrás e demos condição pelo lado direito. Tínhamos o dobro de jogadores em relação ao adversário na jogada. Mas nos posicionamos mal duas vezes em lances pelo lado esquerdo. Falhamos mesmo com superioridade numérica", argumentou Cuca após a partida.
Ninguém se salva no caos defensivo
Dos quatro zagueiros principais do elenco do Santos, restava Adonis Frias cometer um erro fatal. E ele aconteceu no jogo da última terça (28). O argentino ganhou uma chance de titular por decisão de Cuca de rodar o time e poupar Lucas Veríssimo, que viria a entrar no segundo tempo. Aos 18 segundos, o Peixe tomou seu segundo gol mais rápido na história da Sul-Americana após a falha gritante do atleta.
O Santos está nas oitavas de final das Copas Sul-Americana e do Brasil, mas não consegue se distanciar do Z4 do Brasileirão. E a explicação para isso está nos péssimos números defensivos. Afinal, a equipe tem a segunda pior defesa da competição, com 33 gols sofridos em 20 jogos (média de 1,5 por partida). Apenas a lanterna Chapecoense foi vazada mais vezes (41).
Agosto tem desafios que definirão rumos da temporada
Nos torneios de mata-mata, apenas na Copa do Brasil a equipe demonstra rara solidez. Porém, a amostragem é muito pequena. O time entrou apenas na quinta fase e eliminou o Coritiba sem ser vazado (0 a 0, na Vila Belmiro, e vitória por 2 a 0, no Couto Pereira). Por sua vez, na Sul-Americana, a média é de um gol sofrido por partida (as redes de Brasão balançaram oito vezes em oito jogos).
Nos próximos compromissos, a torcida faz votos de que os defensores cessem de cometer erros básicos. Em agosto, o time terá duelos por Copa do Brasil, contra o Remo, e Sul-Americana, contra o Macará (EQU), valendo vaga nas quartas de final dos torneios. Construir uma mínima solidez defensiva será vital para manter o sonho de algum título no ano e aumento de receitas em cenário de colapso financeiro. Além disso, serão quatro partidas pelo Brasileirão, contra Atletico-PR e Mirassol, na Vila, e Vasco e Corinthians, fora de casa. Uma sequência essencial para se distanciar do Z4 e abrir caminho para um fim de ano menos turbulento.
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