A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou nesta terça-feira (27) o Programa de Profissionalização da Arbitragem (PRO), que prevê, pela primeira vez, a contratação direta de árbitros para atuar no Campeonato Brasileiro da Série A, com salário fixo, bônus por desempenho e, como principal novidade, a possibilidade de "rebaixamento" ao fim da temporada para aqueles com pior avaliação.
O projeto marca um novo passo da CBF no processo de modernização do futebol brasileiro, após mudanças no calendário e a implementação do fair-play financeiro.
Inicialmente, o programa contemplará 72 profissionais, que passarão a integrar o chamado "grupo de elite" da arbitragem nacional. Serão 20 árbitros centrais, 40 assistentes e 12 árbitros de vídeo (VAR). Desses, boa parte integra o quadro da Fifa.
A profissionalização começará oficialmente em 1º de março, com contratos assinados ao longo de fevereiro. Os vínculos terão duração anual e serão firmados no modelo de prestação de serviços (pessoa jurídica).
Pela natureza jurídica do contrato, a CBF não pode exigir dedicação exclusiva, mas estabelece prioridade total à arbitragem, com uma rotina intensa de treinos, avaliações e capacitações que, na prática, tende a inviabilizar outras atividades profissionais.
Investimento milionário e nova lógica de remuneração
A CBF planeja investir cerca de R$ 195 milhões no biênio 2026/2027, sendo que aproximadamente R$ 44 milhões serão destinados ao pagamento de salários fixos, variáveis por jogo e bonificações por desempenho. O orçamento anual apenas para a remuneração fixa gira em torno de R$ 12 milhões, representando um aumento significativo em relação ao modelo anterior.
Os valores individuais não serão divulgados oficialmente, mas a estimativa interna aponta que os árbitros do quadro Fifa poderão receber vencimentos mensais acima de R$ 30 mil fixos, enquanto a média geral dos 72 profissionais ficaria em torno de R$ 13 mil, além das taxas de arbitragem já existentes e bônus variáveis. A lógica da mudança é reduzir a dependência da renda por jogo e oferecer maior segurança financeira aos árbitros.
Segundo o presidente da CBF, Samir Xaud, a iniciativa atende a uma demanda antiga do futebol brasileiro. Ele destacou que a arbitragem, por décadas, sofreu com falta de investimento, apoio técnico, estrutura física e tranquilidade financeira. "Trata-se de uma mudança estrutural profunda e necessária, pedida há décadas por todos aqueles que amam nosso esporte", afirmou o dirigente.
Ranking interno, avaliação constante e rebaixamento
Um dos pontos centrais do novo modelo é a criação de um ranking interno de desempenho, atualizado a cada rodada do Brasileirão. As notas serão atribuídas por observadores e pela comissão de arbitragem da CBF, levando em conta critérios como controle de jogo, aplicação das regras, desempenho físico e clareza na comunicação. O ranking não será divulgado publicamente e servirá tanto para balizar as escalas quanto para definir permanência no grupo profissional.
Ao fim de cada temporada, pelo menos dois árbitros de cada função (centrais, assistentes e VAR) poderão ser "rebaixados", ou seja, não terão seus contratos renovados. Em contrapartida, profissionais que se destacarem fora do grupo poderão ser promovidos, iniciando um processo contínuo de renovação da elite do apito. A CBF entende que o sistema de acesso e descenso ajuda a manter o nível de cobrança e motivação elevados.
Além disso, o regulamento prevê afastamentos temporários (chamada "geladeira") em casos de erros graves. Em determinadas situações, o árbitro ficará 28 dias afastado e, ao retornar, atuará em uma divisão inferior. Há ainda avaliações trimestrais; se um profissional for reprovado, ficará até três meses sem trabalhar, recebendo apenas o salário fixo. Em casos de reincidência de falhas, a CBF poderá rescindir o contrato de forma unilateral.
Rotina de atleta, suporte multidisciplinar e tecnologia
Com a profissionalização, os árbitros passarão a ter uma rotina semelhante à de jogadores profissionais. O programa prevê cronograma semanal de treinos físicos e técnicos, planos individualizados de preparação e quatro avaliações oficiais ao longo do ano, com testes físicos e simulações de jogo, geralmente realizados na Granja Comary ou em centros indicados pela CBF.
Os profissionais contarão com suporte de uma equipe multidisciplinar, formada por preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e instrutores técnicos. Cada árbitro também receberá um "kit da arbitragem", que inclui smartwatch para monitoramento de desempenho físico, carga de treinos e até padrões de sono. Os dados serão acompanhados pela área de Ciências do Esporte da CBF.
A capacitação técnica será contínua, com imersões mensais presenciais, aulas teóricas, testes e sessões práticas em campo. Após cada rodada, os árbitros receberão feedbacks individualizados, com análise detalhada de lances polêmicos e tomada de decisões.
Tecnologia: VAR, impedimento semiautomático e refcam
A CBF confirmou que todos os jogos da Série A terão, até o fim da temporada, os recursos tecnológicos aprovados pela Fifa, como VAR, tecnologia da linha do gol, refcam (câmera acoplada ao árbitro) e, futuramente, o impedimento semiautomático.
Apesar de anunciado como uma das grandes novidades, o impedimento semiautomático ainda não tem data para estrear. A entidade informou que 27 estádios da Série A estão no processo de instalação dos equipamentos, que envolve importação, vistorias técnicas e jogos-teste. Até o momento, 16 arenas já passaram por inspeção, e outras ainda serão avaliadas. A CBF reservou cerca de R$ 25 milhões no orçamento para a tecnologia no contrato válido por dois anos.
Outra mudança prática será na estrutura do VAR nos estádios, visto que as cabines de revisão deixarão de ficar próximas aos bancos de reservas, reduzindo a pressão sobre os árbitros. Além disso, as decisões revisadas pelo VAR passarão a ser anunciadas publicamente pelo árbitro no retorno ao gramado.
Quem faz parte da elite do apito
O grupo inicial foi escolhido com base em três critérios principais: pertencer ao quadro Fifa ou CBF, ter sido mais escalado na Série A nas temporadas de 2024 e 2025 e obter boas notas na avaliação de desempenho da CBF nesse período. A ideia é que os 72 profissionais deem conta das 380 partidas do Brasileirão, podendo também atuar em jogos decisivos da Copa do Brasil e da Série B.
Entre os 20 árbitros centrais selecionados estão nomes como Anderson Daronco, Raphael Claus, Wilton Sampaio, Ramon Abatti Abel e Edina Batista. A lista completa inclui ainda 40 assistentes e 12 árbitros de VAR, todos submetidos às mesmas regras de avaliação, promoção e possível rebaixamento.
Inspirado em modelos adotados por ligas como Premier League, LaLiga, Bundesliga, além de experiências no México e na MLS, o PRO foi elaborado por um grupo de trabalho criado em novembro do ano passado, com participação de 38 clubes das Séries A e B, consultores internacionais, federações e representantes da arbitragem.