DALLAS - Menos tiki e menos taka. A Espanha chegou à semifinal da Copa do Mundo com um estilo de jogo que prioriza a posse de bola, mas a equipe, em campo, se difere daquele time bicampeão europeu e campeão do mundo entre 2008 e 2012. Ainda assim, o Mundial de 2026 marca o sucesso de uma reinvenção da identidade do jogo espanhol, consolidado com as conquistas há pouco mais de uma década.
Até aqui, a partida em que a Espanha teve menos posse foi a vitória sobre Portugal nas oitavas de final. O time ficou com a bola em 55% do tempo. Nos demais jogos, o dado superou os 65%.
O time valoriza o meio de campo e tem atuado com Mikel Oyarzabal como falso 9. Na mesma função, entra Mikel Merino, talismã da equipe. Borja Iglesias, centroavante de ofício, entrou em campo por um minuto apenas até aqui.
A origem do tiki-taka
No papel, o estilo espanhol pode lembrar a equipe vencedora da Eurocopa de 2012. A escalação de Vicente del Bosque contra a Itália, na final daquele torneio,foi montada num 4-6-0, com os meias Andrés Iniesta e David Silva como os mais avançados.
O termo "tiki-taka" já havia sido popularizado pelo jornalista esportivo espanhol Andrés Montes. O Barcelona de Pep Guardiola e a seleção, com Luis Aragonés e Vicente del Bosque, consolidaram o estilo, inspirado no "futebol total" de Rinus Michels e Johan Cruyff nas décadas de 1960 e 1970.
Depois de del Bosque, a ideia de jogo foi mantida pelos comandantes seguintes (Julen Lopetegui e Luis Enrique), mas sem o mesmo sucesso. A Espanha amargou duas eliminações em oitavas de final nas Copas de 2018 e 2022.
A mudança de estilo também foi vista na seleção feminina. A Espanha manteve o alto nível, disputando as finais da Copa do Mundo de 2023, da Liga das Nações de 2024 e da Eurocopa de 2025.
A então técnica Montserrat Tomé, que assumiu após o Mundial, continuou com o DNA de posse de bola, mas priorizou passes que buscassem o ataque em vez de a simples retenção no meio de campo.
"É uma mescla entre aplicar estritamente o plano de jogo e, ao mesmo tempo, se deixar levar, se divertir, deixar que as coisas fluam", definiu a duas vezes vencedora da Bola de Ouro, Alexia Putellas.
A forma desde a base
Além de se ter talentos, o futebol espanhol já ganha atletas com compreensão sobre um estilo de jogo "instalada" desde cedo. A partir das categorias infantis, entre 7 e 8 anos, a Espanha tem campeonatos de base estruturados.
Antes do profissional, todos os clubes profissionais espanhóis têm "equipes B" que jogam na terceira ou quarta divisões. Na Inglaterra, por exemplo, são níveis profissionais.
A Federação Espanhola entende que jogadores de 17 anos podem estar prontos por terem adiantado o processo de formação ao estilo "da casa". Foi o caso de Lamine Yamal, que estreou no Barcelona aos 15 e completou 17 na véspera da final da Eurocopa de 2024.
Em comparação, Xavi estava no Barcelona desde 1998, mas viveu o auge a partir de 2008, inclusive com a seleção, já aos 28 anos. Iniesta chegou ao profissional do clube catalão em 2002, aos 18 anos, mas passou a brilhar aos 24. Yamal é o principal jogador do time, já antes dos 19, completos nesta segunda-feira.