Responsabilizar Memphis Depay pela possível contratação de Seedorf no Corinthians é uma covardia da diretoria. Embora o atacante possa sugerir nomes, a decisão final, a análise técnica e a assinatura do contrato cabem exclusivamente aos dirigentes do clube. Usar a indicação do jogador como escudo preventivo para eventuais fracassos reflete a velha postura cartola de colher os louros do sucesso e terceirizar a culpa, ignorando que o dever institucional de avaliar o negócio é da gestão.
A contratação de Clarence Seedorf pelo Corinthians mal entrou em discussão e já há quem tente pendurar a conta no pescoço de Memphis Depay. Se o holandês foi indicado pelo atacante, como aconteceu com Zakaria Labyad, o problema não está em quem sugeriu o nome, mas em quem decidiu transformar a ideia em contratação.
Parece elementar. No Corinthians, aparentemente, precisa ser explicado.
Memphis não é executivo de futebol, não ocupa a presidência e não tem obrigação de transformar palpites em contratações acertadas. Pode sugerir treinadores, recomendar jogadores e defender suas preferências. Faz parte do ambiente do futebol. O que não faz sentido é tratá-lo como autor de uma decisão que depende de negociação, avaliação técnica e aprovação institucional.
Quem negocia é o executivo. Quem assina é o presidente. Ou será que os cargos servem apenas para distribuir cartões de visita e aparecer nas fotografias quando chega alguém com sobrenome internacional?
A cartolagem brasileira tem talento para esse malabarismo. Na hora de anunciar uma contratação, os dirigentes se apresentam como arquitetos do projeto. Quando a escolha desperta desconfiança, surgem as insinuações sobre influências externas. O jogador indicou, o empresário sugeriu, alguém pressionou. De repente, quem tinha a caneta parece não ter participado do negócio.
É a velha política do futebol: reivindicar os méritos antes dos resultados e procurar um culpado antes mesmo de o trabalho começar.
Dirigente não pode ser poderoso só na fotografia
Se Seedorf foi uma indicação de Memphis, cabia aos responsáveis pelo futebol corintiano examinar o currículo do holandês como treinador. A carreira extraordinária como jogador não garante competência à beira do campo. Seus resultados anteriores precisavam ser analisados, assim como sua capacidade de trabalhar sob a pressão que envolve o Corinthians.
Se a aposta foi considerada válida, que seja sustentada. Se der errado, será preciso explicar os critérios utilizados. Transformar Memphis em escudo, porém, é tentar converter uma sugestão em álibi para uma decisão oficial.
Torcedores pressionam, jornalistas opinam, conselheiros cobram e empresários oferecem alternativas. Jogadores também têm voz. Nada disso dispensa quem ocupa cargos de comando de fazer o próprio trabalho.
O Corinthians não precisa de cartolas à procura de desculpas antes mesmo de o treinador começar a trabalhar. Precisa de gente capaz de avaliar uma contratação sem se esconder atrás de quem sugeriu o nome.
Memphis pode indicar até o treinador do Real Madrid. Se o Corinthians contratar, a escolha é do clube. O resto é conversa de quem quer mandar como dirigente e escapar como inocente.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.