Apesar de garantir vaga na final da Libertadores ao superar o Fluminense nos pênaltis, o Palmeiras de Abel Ferreira foi duramente criticado por sua postura excessivamente defensiva. Mesmo com um elenco poderoso, o time abdicou de atacar, finalizou apenas uma vez e perdeu no tempo normal. O autor pontua que, embora vitorioso, o treinador adotou uma covardia tática injustificável ao apenas administrar a vantagem, avançando com o resultado, mas em dívida com o futebol bem jogado.
Abel Ferreira transformou uma semifinal de Copa Libertadores da América em um exercício de resistência ao futebol. Durante 90 minutos, o Palmeiras praticamente não atacou, deu apenas um chute a gol e esperou o relógio trabalhar a seu favor. Perdeu para o Fluminense, mas avançou nos pênaltis.
Está na final. E daí? A classificação não torna menos covarde a postura de uma equipe que pareceu ter medo até de tentar jogar.
O treinador português tem títulos suficientes para não precisar de defesa automática a cada decisão. Construiu uma trajetória vitoriosa, competitiva e respeitada. Mas currículo não é salvo-conduto, muito menos licença para transformar qualquer retranca em demonstração de inteligência tática.
Contra o Fluminense, Abel Ferreira escolheu sobreviver. Não controlar o jogo, não impor o elenco, não buscar o gol que encerraria a discussão. Sobreviver. O Palmeiras tratou a vantagem como se fosse uma ordem para abandonar a iniciativa e fez do cronômetro seu principal aliado.
Um chute a gol em 90 minutos não é detalhe estatístico. É a síntese de uma equipe que renunciou à possibilidade de decidir a semifinal com futebol. O Fluminense teve espaço para acreditar, avançou e marcou com Hércules. O Palmeiras, dono de um dos elencos mais fortes do continente, respondeu com cautela quase absoluta.
É possível chamar isso de pragmatismo. Também é possível reconhecer que existe uma fronteira entre administrar uma vantagem e se esconder atrás dela. Abel Ferreira atravessou essa fronteira. Sua equipe não demonstrou superioridade; demonstrou disposição para aceitar qualquer sofrimento, desde que o placar agregado continuasse favorável.
A classificação veio nos pênaltis. O treinador pode comemorar a vaga e o direito de disputar mais uma final. Mas seria bom que a celebração não apagasse a pergunta central: por que um time com tantos recursos precisou jogar tão pouco para chegar lá?
Fluminense desperdiçou chances; Abel abdicou do jogo
O Fluminense também tem motivos para lamentar a eliminação. No Maracanã, poderia ter construído uma vantagem maior. Na volta, demorou a transformar a necessidade de vencer em pressão constante. Respeitou demais o adversário e agora ficará com a sensação de que a final escapou por erros próprios.
A crueldade está em ter vencido fora de casa depois de perder em casa e, mesmo assim, cair nos pênaltis. O time tricolor fez sua parte no Nubank Parque, mas chegou à decisão derradeira sem margem para corrigir o que deixou de fazer antes.
Isso não absolve Abel Ferreira. Pelo contrário: torna ainda mais constrangedora a postura palmeirense. O Fluminense ofereceu dificuldades, mas também encontrou um adversário satisfeito em esperar. Em vez de aproveitar a vantagem para jogar com inteligência e iniciativa, o Palmeiras transformou a semifinal em uma contagem regressiva.
Abel Ferreira está na final mais uma vez. Seu currículo merece respeito, não imunidade crítica. O resultado confirma a classificação; não transforma a atuação em obra-prima. O Palmeiras avançou, mas seu treinador saiu dessa semifinal com uma vaga no bolso e uma dívida com o futebol.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte