A nova lesão de Ayrton Lucas expôs falhas no planejamento do Flamengo para a lateral esquerda. Com Alex Sandro ainda buscando a forma física ideal e Matías Viña emprestado ao Cruzeiro, o clube vive uma carência no setor em meio ao calendário cheio. Embora contasse com três nomes para a posição no papel, a diretoria abriu mão de uma alternativa segura e agora depende da rápida recuperação dos dois atletas que restaram no elenco para não ficar sem opções na temporada.
A nova lesão de Ayrton Lucas recoloca uma pergunta que parecia incômoda, mas necessária: por que o Flamengo decidiu emprestar Matías Viña?
Não se trata de transformar o uruguaio em solução para todos os problemas do elenco. Trata-se de olhar para uma posição que já tinha um histórico conhecido de indisponibilidade.
O Flamengo tinha três laterais-esquerdos: Ayrton Lucas, Alex Sandro e Matías Viña. Hoje, um está machucado, outro tenta recuperar a melhor condição física e o terceiro está no Cruzeiro.
No papel, profundidade. No departamento médico, quase um roteiro de comédia.
A velha máxima do futebol explica melhor do que qualquer planilha: quem tem um, não tem nenhum; quem tem dois, tem um; quem tem três, tem dois.
No Flamengo, aparentemente, é preciso ter três para conseguir um.
Ayrton Lucas voltou a se machucar. Alex Sandro ainda busca sequência depois de problema físico. Matías Viña, que poderia ser uma alternativa neste momento, foi cedido justamente durante uma temporada em que o calendário exige elenco.
E aqui está o ponto que merece discussão.
O problema é o planejamento do Flamengo
Lesões fazem parte do futebol. Não existe departamento médico capaz de garantir que determinado jogador estará disponível durante toda a temporada.
O que pode ser planejado é a margem de segurança.
Quando um clube conhece o histórico físico de seus jogadores, sabe que terá Brasileirão, Libertadores, Copa do Brasil, viagens e uma sequência de partidas em poucos dias, abrir mão de uma alternativa precisa ser uma decisão muito bem calculada.
Viña talvez não fosse titular. Talvez não estivesse satisfeito com a condição de reserva. Talvez o empréstimo tenha sido considerado importante para o próprio jogador.
Tudo isso pode ser compreensível.
Mas o futebol profissional não trabalha apenas com o cenário ideal. Trabalha também com aquilo que acontece quando o cenário ideal desmorona.
E ele desmoronou.
Ayrton Lucas voltou ao departamento médico. Alex Sandro ainda não está plenamente disponível. E o terceiro lateral está vestindo outra camisa.
Não estou dizendo que o Flamengo perderá alguma coisa por causa disso. Nem que Matías Viña resolveria sozinho qualquer problema.
Digo apenas que, olhando para o cenário atual, parecia mais seguro mantê-lo no elenco.
Agora já foi.
O erro, se houve, não será corrigido com lamentação. O Flamengo terá de administrar o que tem, torcer pela recuperação de Ayrton Lucas e esperar que Alex Sandro consiga finalmente ganhar sequência.
Porque há uma diferença enorme entre ter três jogadores para uma posição e ter três jogadores disponíveis.
E, no futebol, é a segunda conta que realmente importa.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.