Sébastien Buemi deixou a Fórmula E, mas ainda não parece disposto a aceitar que sua história na categoria tenha terminado. Depois de 12 temporadas, um título mundial, 14 vitórias e uma trajetória construída desde os primeiros dias do campeonato, o suíço não estará no grid da temporada 2026/27 após a Envision optar por não renovar seu contrato. A saída, entretanto, não foi acompanhada por um anúncio de aposentadoria. Ao contrário de Lucas Di Grassi, que decidiu encerrar voluntariamente sua trajetória nas pistas, o piloto ainda se considera em atividade e não descarta a possibilidade de voltar ao campeonato no futuro.
A diferença entre as duas situações pode parecer pequena para quem olha apenas para a lista de inscritos, mas muda completamente a maneira como um atleta pode vivenciar o fim de um ciclo. Em Londres, palco das últimas corridas da temporada, o suíço sabia que não estaria de volta pela Envision no ano seguinte, mas não enxergava aquele fim de semana como uma despedida. O próprio piloto admitiu que não sentiu a emoção que provavelmente teria caso aquela fosse, de fato, sua última corrida na categoria. Para ele, não havia um ponto final, mas o encerramento de uma temporada que também marcou o fim de uma relação profissional.
Não foi o piloto que decidiu a hora de parar
A declaração ajuda a entender por que a saída da equipe, que contou com o piloto desde 2022, parece ter provocado uma frustração diferente daquela normalmente associada à aposentadoria de um atleta. Buemi não escolheu parar. A decisão sobre sua permanência foi tomada pela Envision justamente no momento em que a Fórmula E se prepara para entrar em uma nova era técnica com o Gen4. O suíço chegou a afirmar que não acreditava que a equipe tivesse tomado a decisão correta, deixando claro que, em sua avaliação, ainda havia espaço para continuar competindo.
A sensação não pode ser dissociada da trajetória construída pelo piloto na categoria. Presente desde a primeira temporada da Fórmula E, ele ajudou a moldar os primeiros capítulos do campeonato e se consolidou como um dos principais nomes da história do automobilismo elétrico. Foi campeão na temporada 2015/16, venceu seis das oito primeiras corridas do campeonato seguinte e acumulou resultados que o colocam entre os pilotos mais bem-sucedidos da categoria. Mesmo depois de deixar de disputar regularmente o título, continuou alcançando resultados relevantes, como a vitória em Mônaco em 2025.
Por isso, a saída carrega uma contradição difícil de ignorar. O veterano possui um currículo que poderia sustentar uma despedida grandiosa, mas não parece enxergar sua ausência no grid como o encerramento natural da carreira. Existe uma diferença entre olhar para trás e concluir que não há mais nada a fazer e olhar para frente acreditando que ainda existe espaço para continuar. Aos 37 anos, o suíço parece estar mais próximo da segunda situação.
Quando a profissão passa a fazer parte da identidade
A psicologia do esporte ajuda a compreender por que essa diferença pode ser tão relevante. Para atletas de alto rendimento, a profissão dificilmente funciona apenas como uma ocupação. Depois de anos de treinamento, competição, viagens e exposição pública, o esporte passa a ocupar um espaço importante na identidade do indivíduo. É o que pesquisadores chamam de identidade atlética, conceito utilizado para descrever o quanto uma pessoa se reconhece a partir do papel que desempenha como atleta. Quando essa identificação é muito forte, o encerramento da carreira pode representar uma mudança muito maior do que simplesmente deixar de competir. Rotina, propósito, relações profissionais, reconhecimento e sensação de pertencimento também podem ser afetados.
A maneira como essa transição acontece também importa. Quando o atleta escolhe o momento da aposentadoria, existe a possibilidade de preparação e de construção de uma narrativa para o encerramento. Ele pode estabelecer objetivos para a última temporada, organizar uma despedida e, principalmente, sentir que continua exercendo algum controle sobre a própria trajetória. Quando a saída acontece por uma decisão externa, essa sensação pode desaparecer. Estudos sobre transição de carreira no esporte apontam que mudanças involuntárias ou inesperadas podem tornar o processo de adaptação mais complexo, especialmente quando o atleta ainda não considera encerrado seu período competitivo.
É importante não transformar esse contexto em um diagnóstico sobre Sébastien. Não é possível afirmar, de fora, o que ele sente ou qual impacto psicológico a saída da equipe terá sobre sua vida. Suas declarações, entretanto, mostram que o momento não é interpretado como uma aposentadoria. Quando questionado sobre a possibilidade de continuar na Fórmula E, o suíço deixou a porta aberta e destacou que sua situação é diferente da de Di Grassi, que decidiu encerrar a carreira. A escolha das palavras revela justamente a principal diferença entre os dois. Di Grassi tomou a decisão de parar. O campeão de 2015/16 perdeu a vaga.
Uma carreira marcada pelo que poderia ter sido
Essa distinção também ajuda a compreender a ausência de emoção relatada pelo piloto em Londres. Se aquela não era, em sua cabeça, a última corrida, não havia necessariamente motivo para vivenciá-la como uma despedida. O fim de um vínculo profissional não significa automaticamente o fim de uma identidade. Mesmo fora do grid, ele ainda se enxerga dentro daquele universo, tanto que continuará ligado à Envision em funções de desenvolvimento e consultoria e mantém a possibilidade de retornar à categoria caso surja uma oportunidade.
Existe ainda outro componente nessa história que torna a frustração mais complexa. A carreira na Fórmula E foi marcada não apenas pelas conquistas, mas também por oportunidades que escaparam por circunstâncias externas. O exemplo mais evidente aconteceu na temporada 2016/17, quando Buemi chegou a dominar o campeonato e venceu seis das oito primeiras corridas. Um conflito de calendário com o Mundial de Endurance o impediu de disputar a rodada dupla de Nova York, enquanto Lucas Di Grassi aproveitou a ausência para reduzir a diferença e posteriormente conquistar o título. Ao fim daquela temporada, os dois terminaram empatados em pontos, mas o brasileiro ficou com a taça pelo critério de desempate.
Anos depois, a situação é obviamente diferente, mas existe uma espécie de continuidade na maneira como decisões tomadas fora do cockpit ajudaram a definir sua trajetória. O calendário do WEC já havia interferido em uma disputa pelo título. Agora, a escolha de uma equipe interfere diretamente em sua permanência na Fórmula E. Em ambos os casos, não foi simplesmente uma questão de desempenho ou de vontade de abandonar o campeonato. Circunstâncias externas tiveram um peso importante sobre o caminho que o piloto pôde seguir.
Ainda havia algo a provar?
Isso não significa que o suíço precise provar alguma coisa. Seu currículo na Fórmula E já é suficiente para colocá-lo entre os grandes nomes da categoria. Talvez a questão seja outra. Para alguém que passou mais de uma década construindo a própria carreira dentro de um cockpit, aceitar que outra pessoa decidiu quando aquela etapa deveria terminar pode ser muito mais difícil do que simplesmente reconhecer que chegou a hora de parar.
A próxima temporada será a primeira da história da Fórmula E sem o nome do suíço no grid desde a criação do campeonato. Ainda assim, seria precipitado tratar sua saída como uma despedida definitiva. O piloto continuará envolvido com a Envision, seguirá competindo no Mundial de Endurance pela Toyota e não fechou as portas para um eventual retorno à categoria elétrica.
Talvez seja justamente essa a melhor maneira de entender o momento vivido por ele. Ele não anunciou que terminou. Apenas descobriu que, por enquanto, não havia mais um lugar para ele. Existe uma diferença enorme entre abandonar uma carreira e ser obrigado a imaginar a própria vida profissional sem aquilo que, durante 12 anos, ajudou a definir quem você era.
Aos 37 anos, o futuro ainda está em aberto. O piloto não sabe se voltará à Fórmula E, mas também não parece disposto a decidir que não voltará. Enquanto essa decisão continuar em aberto, sua história na categoria também permanece. O grid pode ter seguido sem ele, mas Buemi ainda não colocou um ponto final.