Apaixonado pela prática de esportes desde a infância, o gaúcho Anderson Fell, de 49 anos, atingiu o ‘fundo do poço’ quando percebeu, aos 30, que não teria condições de seguir carreira como atleta. Mas foi nas categorias entre veteranos que Fell ‘renasceu’, e, mais recentemente, conquistou o ouro do salto em altura do Campeonato Ibero-Americano de Atletismo Master em Lima, no Peru.
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Formado em Educação Física e professor de basquete no Marista Conceição, colégio de Passo Fundo (RS), Fell se emocionou ao relembrar, em entrevista ao Terra, das abdicações e dos caminhos percorridos até subir ao lugar mais alto do pódio.
Incentivado pelos pais à prática esportiva, Fell cresceu rodeado por modalidades como futebol, vôlei e basquete. Mas foi assistindo às quebras de recordes do salto em altura pela lenda cubana Javier Sotomayor que a paixão pelo atletismo despertou no então adolescente.
“Um dia minha mãe falou: ‘Andi, corre na frente da TV que um homem vai pular por cima de uma trave de futebol’. Eu pensei: ‘Que curioso, como ele vai passar por cima? Por que ele fez isso?’. E ela me explicou a modalidade, os passos, e quando eu cheguei na frente da TV, Javier Sotomayor acabava de fazer o recorde mundial”, conta.
Ele relembrou a inspiração que recebeu do atleta cubano e como, a partir daquele momento, passou a se dedicar ao atletismo: “Quando vi aquilo eu me encantei. Talvez por ser alguém que não sabia colocar uma bola de futebol no gol, pelo menos eu vou tentar pular por cima da trave, né?”, brinca.
A partir de então, o jovem Anderson Fell começou a praticar o atletismo em dois períodos e ganhou destaque e vitórias em torneios juvenis. Mas, à medida em que crescia, surgiram prioridades que, no fim das contas, o afastaram do atletismo competitivo.
“É aquele dia tão temido por todo atleta brasileiro. Quando percebe que vai precisar de uma profissão se quiser se manter e vai ter que deixar o esporte de lado. Quando esse dia chegou, eu fiquei extremamente triste, chateado, e sonhando em um dia voltar”, diz.
“Porém, quando eu passei dos 28 anos, eu sabia que não teria mais chance de voltar a praticar porque já não tinha mais a força da juventude”, lamentou.
Retorno às competições nas categorias Master
Fell descreve o período que passou longe do atletismo como ‘extremamente difícil’. Durante seus 20 anos, ele conta que, após ler que o auge do desempenho esportivo se dava aos 28, cada aniversário que passava o fazia ter a sensação de que seu tempo estava acabando.
“Quando fiz 30, eu bati no fundo do poço. Eu já não corria, não saltava, não fazia nada como na juventude. Eu tenho certeza que vou passar dos 100 anos, mas pensei no que eu vou fazer nesses próximos 70. O esporte já me abandonou, e eu passei mais sete anos procurando um sentido na vida”, relembra.
Aos 37 anos, Fell foi convidado por um amigo para competir em um evento de atletismo Master, com categorias voltadas para pessoas mais velhas. “Fiquei relutante porque faziam anos que não praticava, não queria passar vergonha”.
“Esse amigo disse que não era uma questão de passar vergonha, era para rever os amigos e relembrar os bons tempos. Aceitei e, nessa primeira competição, acabei ganhando o Campeonato Gaúcho e fazendo o novo recorde gaúcho da prova. Aí se acenderam novas luzes”.
Com a ‘virada de chave’, Fell montou a própria pista para treinamento do salto em altura no quintal de casa, aproveitando o máximo que pode de pneus velhos, o colchão da própria cama improvisado e um espaço menor que o ideal.
“Sinto que estou fazendo o melhor possível dentro das possibilidades. E o objetivo não mudou. Eu ainda quero ser o número um do mundo nessas condições”, diz.
Como consequência da dedicação em 12 anos desde que retornou às competições, Fell quebrou recordes e superou grandes desafios pessoais. Um deles foi um diagnóstico de dengue que, como sequela, provocou a perda parcial da audição e afetou seu equilíbrio poucos meses antes da disputa dos Jogos Pan-Americanos Masters de 2024, em Cleveland, nos Estados Unidos.
“Eu me segurava pelas paredes. Procurei fisioterapia, auxílio médico, fiz o que pude e além do que devia para me recuperar. E quando acreditava que poderia estar recuperado, veio uma época de muita chuva no RS e não pude treinar a parte técnica. Eu não sabia se conseguiria correr em linha reta, se conseguiria saltar, mas já estava inscrito e fui no escuro”, conta.
A competição em solo estadunidense foi a prova que Fell precisava para saber se estava no caminho certo. Apesar das dificuldades, ele bateu a própria marca ao saltar a uma altura de 1,75m e conquistou o ouro em sua categoria.
Hoje, além das conquistas pessoais, Fell quer que seus títulos ajudem a inspirar outras pessoas, especialmente seus alunos: “Quero estimular as pessoas a serem ótimas naquilo que elas amam fazer. Me sinto realizado, o professor tem a missão de inspirar as crianças, e isso me motiva a ser uma pessoa cada vez melhor, mais saudável, e é isso que eu tento passar, para que tentem ser um pouquinho melhor todos os dias”.