Impulsionada pela busca por saúde e pelo uso de remédios emagrecedores, a demanda por whey protein explodiu no Brasil, elevando os preços e gerando escassez da matéria-prima. Para conter custos e abastecer o mercado em expansão, gigantes do setor, como Nestlé, Piracanjuba e Lactalis, realizam investimentos milionários em fábricas no Sul do país. Paralelamente, a indústria amplia o portfólio de produtos proteicos e pesquisa o uso de fontes vegetais alternativas.
Maior fabricante de alimentos e bebidas do mundo, a multinacional suíça Nestlé decidiu recalibrar o mix de produtos. Marcas icônicas como Nescau, Charge e Nescafé acabam de ganhar versões proteicas. Até a aveia da empresa passou a ter uma opção proteinada.
Este ano, a expectativa é dobrar o número de categorias de alimentos com proteínas em comparação a 2025, com lançamentos envolvendo marcas como Prestígio e Alpino.
"A Nestlé vem observando uma mudança acelerada no comportamento do consumidor brasileiro, que tem passado a enxergar a alimentação cada vez mais como uma ferramenta de saúde e prevenção", disse a empresa, em nota.
"Observamos o boom das proteínas, associadas à manutenção da massa muscular, mas também cresce a relevância de outros nutrientes-chave, como as fibras, fundamentais para saúde metabólica e especialmente relevantes para usuários de GLP-1 (canetas emagrecedoras)", diz a fabricante, que em março retomou a fabricação em Carazinho (RS) depois de investir R$ 60 milhões na unidade para dedicá-la à produção de soro de leite.
Mas a concorrência vem se mexendo. A goiana Piracanjuba deve inaugurar no próximo ano uma fábrica de R$ 612 milhões em São Jorge d'Oeste, no Paraná, voltada à produção de whey protein, lactose em pó, muçarela e manteiga. A Nutrata, famosa pelas barrinhas de proteína, também pretende dar início à fabricação de proteína do soro do leite, junto a produtores da bacia leiteira do oeste de Santa Catarina.
Além disso, a Lactalis estuda a implantação da segunda fábrica no Brasil, enquanto a Sooro Renner investe R$ 650 milhões na terceira planta, em Francisco Beltrão (PR), a ser inaugurada no ano que vem.
Indústria busca proteína até no bagaço de milho
A produção própria no Sul do País, que concentra a maioria das bacias leiteiras, é uma forma de ampliar a disponibilidade do insumo no mercado nacional e suavizar a disparada de 230% no preço do produto nos últimos dois anos.
"O quilo do WPC passou de R$ 70 na metade de 2024 para R$ 230 agora; já estamos pagando este preço para a matéria-prima que vai chegar em janeiro do ano que vem", diz Charles Formigari, fundador e CEO da Nutrata, fabricante de suplementos alimentares, com sede em Xaxim (SC).
Com faturamento na casa dos R$ 500 milhões ao ano e parceria com grandes marcas em barrinhas — a exemplo de Nestlé, Bacio di Latte e Havanna —, a Nutrata testa fontes alternativas de proteína, como bagaço de milho e ervilha. "Se não buscarmos alternativas, no ano que vem, o whey protein será um artigo de extremo luxo, vai passar de uma média de R$ 130 para R$ 300 para o consumidor", diz Formigari.
Segundo Diego Freitas, CEO da Growth Supplements, a escassez não é só brasileira, mas mundial. "O whey deixou de ser commodity barata e virou ingrediente premium e escasso. O mercado vê agora um choque de demanda estrutural: além do consumidor fitness, tem o que busca mais saúde, o que deseja um envelhecimento saudável ou o que usa canetas emagrecedoras", diz Freitas, que também vem testando o uso de proteínas vegetais. Mas a tecnologia ainda precisa evoluir mais. "As proteínas vegetais ainda apresentam características de sabor e textura diferentes das do whey", afirma.
A Growth é líder nacional no mercado de suplementos e fatura cerca de R$ 2 bilhões ao ano. Freitas diz que a empresa absorveu parte do aumento de preços do WPC e ampliou o portfólio com opções de menor concentração proteica ou embalagens menores, de 450 gramas. "Muitos consumidores não utilizam um quilo de whey por mês; faz sentido oferecermos formatos mais adequados ao seu perfil", diz.
Para Guilherme Portela, diretor de assuntos regulatórios e corporativos da Lactalis Brasil, os benefícios da produção própria vão além do menor custo logístico. "Permite maior controle da produção e, consequentemente, do padrão de qualidade", diz o executivo. "Mas exigem investimentos altíssimos. Na nossa fábrica em Três de Maio, anexa a uma grande queijaria, que produz 1,6 milhão de litros de leite por dia, o soro é enviado por tubulação até a fábrica de whey protein".
Juliana Romero, analista da StoneX, que acompanha o mercado de commodities, explica que a forte variação de preços se deu no WPC80 (80% de proteína na formulação). O valor da matéria-prima com menor concentração de proteína — o WPC34, usado para enriquecer alimentos industrializados — também subiu, mas em menor proporção, assim como o preço do WPI. "Em janeiro de 2025, a tonelada do WPC80 estava em US$ 10.200 (R$ 52,2 mil) e hoje está em US$ 28 mil (R$ 143,3 mil), um salto de 180%", diz ela.
A StoneX estima que, nos Estados Unidos, maior produtor mundial, o mercado de WPC e WPI tenha alcançado aproximadamente US$ 4,3 bilhões (R$ 22 bilhões) em 2025, alta de 35% em relação a 2024. No acumulado de janeiro a maio de 2026, o valor já soma US$ 2,7 bilhões (R$ 13,8 bilhões), avanço de 69% frente ao mesmo período do ano anterior.
De acordo com a Future Market Insights, o Brasil é o terceiro país com a maior projeção de crescimento do mercado de proteína de soro de leite para os próximos anos, média de 7,8% de alta anual até 2035, só depois da Índia e da China.
No País, o sucesso das canetas emagrecedoras também faz crescer a busca por proteína, uma vez que o emagrecimento acelerado costuma levar à perda de músculos. "Em whey protein, o Brasil vem crescendo mais do que a média global e já é quarto maior consumidor mundial, depois de Estados Unidos, Japão e Inglaterra", diz Guilherme Machado, analista da Euromonitor. "O canal e-commerce tem sido fundamental na expansão da categoria, aumentando o alcance dos produtos, assim como a presença no canal alimentar".