RIO - O comércio varejista brasileiro registrou queda de 1,5% em abril ante março, pior resultado para esse período do ano desde 2020, quando as vendas encolheram 16,0% em meio ao choque da pandemia de covid-19. Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio divulgados nesta terça-feira, 16, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"Um dos principais fatores por trás desse desempenho mais fraco é o nível elevado dos juros, que segue pressionando o varejo. Ainda assim, as condições de renda continuam bastante favoráveis e têm sustentado algum crescimento do setor. Portanto, apesar da volatilidade observada mês a mês, a tendência é de que o varejo continue apresentando crescimento nos próximos meses, ainda que em ritmo modesto", previu Carlos Lopes, economista do banco BV, em comentário.
A perda de abril sucedeu três meses de avanços consecutivos, que levaram o varejo a operar em nível recorde justamente no mês anterior, em março deste ano. Segundo Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, o recuo de abril tem influência de uma base de comparação elevada, entre outros fatores.
"Tem efeito base. É mais difícil continuar crescendo quando você já está no topo da série, e tem outros sinais que são de certa maneira contraditórios, mas acabam puxando um pouco para baixo", mencionou Santos. "Não há crescimento nem no crédito, nem no rendimento, nem no número de pessoas ocupadas. Além disso, tem o componente da inflação. (...) Quando você tem um rendimento menor fica mais difícil consumir mais. O crédito à pessoa física também parou de crescer."
Na passagem de março para abril, seis das oito atividades varejistas registraram perdas:
- Combustíveis (-6,2%);
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico, que incluem lojas de departamento (-4,6%);
- Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-4,5%);
- Móveis e eletrodomésticos (-0,8%);
- Vestuário e calçados (-0,1%); e
- Artigos farmacêuticos e de perfumaria (-0,1%).
Houve expansão em supermercados (1,3%) e livros e papelarias (1,1%).
"O início do ano foi mais puxado por atividades que vendem bens que não são essenciais. Tem uma diferença de comportamento em relação ao consumo nesse mês de abril, que é a volta (do consumo) a atividades essenciais, como supermercados", apontou o pesquisador do IBGE.
No comércio varejista ampliado — que inclui veículos, material de construção e atacado alimentício —, as vendas caíram 0,7% em abril ante março. Veículos registraram queda de 0,7%, e material de construção encolheu 3,6%. O segmento de atacado alimentício não possui divulgação nessa comparação por não acumular número suficiente de meses para submissão à modelagem de ajuste sazonal.
Santos adicionou ainda que a guerra dos Estados Unidos e Israel no Irã afeta o varejo brasileiro via preços dos combustíveis, que são usados para deflacionar a receita obtida por esse segmento varejista.
"Os preços subiram bastante em março, continuaram subindo em abril, só que com menos intensidade", lembrou. "Essa influência dos preços lá fora não é direta e síncrona com o movimento de preços no Brasil. E além de preços ainda tem a receita obtida", ponderou.
Quais eram as estimativas dos analistas do mercado?
O resultado do varejo em abril veio em linha com as estimativas mais pessimistas dos analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam desde uma queda de 1,6% a uma alta de 0,3%, com mediana negativa de 0,7%.
"Apesar da surpresa baixista em abril, seguimos esperando crescimento do consumo das famílias no curto prazo. A renda real disponível continua em trajetória de alta, refletindo um mercado de trabalho ainda apertado, combinado com o aumento das transferências fiscais. Além disso, um amplo pacote de medidas de estímulo do governo deve dar suporte ao consumo das famílias no curto prazo", escreveram, em nota, os economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, da XP.
Nos cálculos da XP, os números de abril indicam que a parte do varejo mais sensível à renda recuou 0,6% no mês, enquanto o segmento sensível ao crédito contraiu 1,4%. "Isso sugere que a fraqueza de abril foi mais visível em segmentos ligados a compras discricionárias e às condições financeiras, ainda que as categorias relacionadas a alimentos tenham permanecido resilientes", escreveu a corretora.
Com o resultado mais fraco que o previsto, a projeção da XP para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, calculada com base em indicadores antecedentes, passou de uma alta de 0,6% para expansão de 0,5%. A corretora segue esperando crescimento de 2% no PIB deste ano.
O setor que apresentou sinais mais claros de desaceleração
O varejo foi o setor que apresentou sinais mais claros de desaceleração em abril, contrastando com os avanços observados na produção industrial e no volume de serviços prestados no mês, apontou o economista sênior do banco Inter, André Valério.
Valério chama atenção para o crescimento de 2% do varejo no ano até aqui, mas destaca que 60% dessa expansão se deve ao varejo alimentício, farmacêutico e de combustíveis, itens de consumo essenciais. "Quando decompomos o índice de varejo de acordo com sua sensibilidade à renda e ao crédito, vemos queda em ambas as medidas, reforçando esses indícios de fragilidade no consumo, em linha com o ambiente de condições financeiras restritivas que se vê nos últimos meses", observou.
Mesmo que as vendas do varejo tenham destoado dos outros setores, Valério considera que é preciso cautela para a análise da alta da produção industrial (0,7%) e do volume de serviços (1,2%) em abril.
Na produção industrial, segundo ele, há "uma dicotomia clara", com ganhos do lado das exportações, com a indústria do petróleo, enquanto os setores mais sensíveis à economia interna patinam. Já os dados de serviços passaram por ajustes metodológicos em março.
O volume de vendas do varejo chegou a abril em patamar 10,9% acima do nível de fevereiro de 2020, no pré-pandemia de covid-19. No varejo ampliado, as vendas operam 7,1% acima do pré-pandemia.
Os segmentos de artigos farmacêuticos, supermercados, veículos, combustíveis e material de construção estão operando acima do patamar pré-crise sanitária. Por outro lado, equipamentos para informática e comunicação, outros artigos de uso pessoal e doméstico, móveis e eletrodomésticos, vestuário e calçados e livros e papelaria operam abaixo do nível pré-covid.
"Algumas atividades ainda estão bastante distantes lá de fevereiro de 2020. Dá para começar a imaginar que a estrutura de consumo mudou, o padrão de consumo mudou a ponto de essas atividades não conseguirem realizar essa receita como realizavam anteriormente. Isso é muito claro em vestuário e calçados, e menos em outras atividades. Esse resultado tem a ver mais com uma mudança no padrão de consumo e que faz com que as pessoas optem por consumir outros tipos de produtos do que consumiam antes da pandemia", afirmou Santos, do IBGE.
Questionado se o varejo brasileiro de vestuário estaria sofrendo com uma substituição por produtos importados via grandes plataformas chinesas, Cristiano Santos consentiu. "Pode ser que seja, não tenho esse dado", declarou.
Quanto ao novo patamar recorde de vendas dos supermercados, alcançado em abril, Santos acredita que a atividade esteja sendo sustentada por famílias de renda mais restrita.
"Alimentos e bebidas voltam a ser foco das famílias que têm consumo restrito por outros condicionantes, como o crédito e como o aumento do rendimento. Se tem menos pessoas ocupadas, elas vão optar pelo quê? Por itens mais essenciais, remédios e alimentos", concluiu. /Com Daniel Tozzi e Gabriela Jucá