Integrante do conselho de administração da Vale desde 2019, Marcelo Gasparino renunciou na manhã desta segunda-feira, 27, aos cargos de vice-presidente e membro do colegiado da mineradora, a partir de 1º de agosto. A decisão foi anunciada em uma "carta aos acionistas, ao mercado e à Vale", de cinco páginas, à qual o Estadão teve acesso.
No documento, ele questiona sua destituição e fala em "enfraquecimento" da governança corporativa da mineradora. A Vale não tornou pública a carta de renúncia. Procurada, a companhia informou que não vai se manifestar sobre as alegações de Gasparino. Já o conselheiro disse que não comentaria a carta enviada ao conselho.
Logo após a eleição do novo presidente do conselho, em 22 de julho, em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), com a saída de Daniel Stieler, o colegiado informou que tinha tomado a decisão de destituir Gasparino de seus cargos em razão de vazamento de informações confidenciais pertinentes à reunião do conselho realizada em 19 de junho. Essa decisão dependia ainda de confirmação em uma assembleia que seria marcada.
Na carta, Gasparino disse entender que um conselheiro independente possui "deveres que transcendem sua atuação no conselho", direcionados especialmente a uma "companhia aberta da relevância e com um conturbado histórico recente como a Vale, que deveria manter compromisso permanente com a transparência e as melhores práticas de governança."
Ele afirmou que, nos últimos meses, observou com crescente preocupação decisões e práticas que, na sua avaliação, representam um enfraquecimento de parte da governança corporativa construída ao longo dos últimos anos. Citou, por exemplo, a condução de discussões relevantes fora dos fóruns formais de deliberação, realização de articulações e eventos "secretos", que posteriormente se tornaram públicos, e crescente assimetria na forma como determinadas condutas passaram a ser avaliadas.
O conselheiro da mineradora, que fica no cargo até 1º de agosto, disse que sua renúncia não decorre de qualquer acordo com algum acionista, não envolve vantagem financeira e tampouco resulta de compromisso assumido com terceiros.
Gasparino diz que a decisão foi amadurecida ao longo dos últimos meses e que não decorre apenas dos fatos ocorridos na reunião extraordinária do Conselho de 22 de julho. "Esses acontecimentos apenas tornaram inequívoca uma realidade que, em minha percepção, vinha se consolidando: o progressivo afastamento da companhia de princípios de governança, transparência e independência que orientaram sua reconstrução institucional nos últimos anos".
Ele diz que os fatos da reunião extraordinária, do dia 22 de julho, que pautou pela sua destituição devido a vazamento de informações confidenciais, são "substancialmente diferentes da acusação".
Segundo Gasparino, ele encaminhou em caráter reservado, por WhatsApp, minuta de manifestação e voto de sua exclusiva autoria a um analista de mercado ("sell-side") de reconhecida instituição financeira do Brasil, com quem havia mantido conversa profissional naquela mesma semana. "O documento já havia sido formalmente encaminhado à Companhia."
A própria empresa, diz o conselheiro, já havia afirmado, em comunicado ao mercado divulgado em 24 de junho de 2026, que os principais temas tratados — entre eles as avaliações relativas à Bahia Mineração S.A., às negociações para renovação das concessões ferroviárias e ao Programa Mini-Minas — já haviam sido previamente esclarecidos ao mercado.
Em outro trecho da carta, Gasparino questiona o processo no conselho envolvendo sua destituição. "Fui procurado pelo escritório de advocacia externo responsável pela investigação em 14 de julho de 2026, às 20h57, por e-mail. Respondi às 21h14, solicitando que minha entrevista fosse realizada após a Assembleia Geral Extraordinária de 22 de julho, em razão do sensível contexto eleitoral então existente. Na ocasião, esclareci que me encontrava em viagens e em reuniões com acionistas, cuja agenda havia sido organizada pela própria Companhia".
Sobre isso, o conselheiro afirma que vai apresentar uma defesa jurídica nas instâncias competentes. "O compartilhamento, em caráter reservado, de um documento de minha exclusiva autoria não poderia ser confundido com vazamento de informação confidencial da Companhia", destaca.
Ele reforça que a deliberação do Conselho foi tomada no próprio dia da Assembleia Geral, antes que pudesse prestar esclarecimentos, conhecer integralmente as conclusões da apuração ou se manifestar sobre elas. E pede o "acesso imediato e integral ao relatório final do processo de investigação que fundamentou a deliberação tomada" para exercer seu "direito de defesa nas instâncias competentes".