Roubini: Cenário brasileiro depende mais de questões domésticas do que de geopolítica

Em evento do Bradesco BBI, o economista que previu a grande crise global de 2008 afirmou que o resultado das urnas no Brasil definirá a direção do endividamento público

7 abr 2026 - 15h22

O economista Nouriel Roubini, conhecido como o "doutor apocalipse" por ter previsto a eclosão da grande crise financeira de 2008, afirmou nesta terça-feira, 7, que as perspectivas para economia brasileira dependem mais de questões domésticas, como as eleições, do que do cenário geopolítico.

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Em palestra durante evento do Bradesco BBI, Roubini disse que o resultado das urnas definirá a direção do endividamento público. "Pode haver uma situação em que, no futuro, haja uma dominância fiscal, em que o déficit fica tão alto que a tentação para monetizá-lo (com a política monetária) cresce", ressaltou o professor da New York University Stern School of Business.

Roubini vê um cenário mais provável de um recrudescimento nas disputas bélicas com vitória americana, em 55% de possibilidade
Roubini vê um cenário mais provável de um recrudescimento nas disputas bélicas com vitória americana, em 55% de possibilidade
Foto: World Economic Forum/Flickr / Estadão

O economista disse que a alta dos preços do petróleo tem efeito comercial favorável ao Brasil, exportador da commodity (matéria-prima em dólar). No entanto, alertou que o movimento também pode impulsionar a inflação. "Há um crescimento menor e uma inflação um pouco mais alta, embora o impacto econômico seja menor que na Europa e na Ásia", disse.

'75% de probabilidade de EUA escalarem guerra no Irã'

O economista estima 75% de probabilidade de haver uma escalada na guerra dos Estados Unidos no Irã. Roubini disse ainda ver 25% de chance de um arrefecimento do conflito. Neste cenário, o mercado financeiro reagiria com alívio, mesmo que esse resultado seja estrategicamente negativo para os Estados Unidos e aliados.

O economista vê um cenário mais provável de um recrudescimento nas disputas bélicas com vitória americana, em 55% de possibilidade. Por outro lado, ele cita 20% de chance de a piora ocorrer, mas sem um triunfo dos EUA.

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Para Roubini, se o presidente dos EUA, Donald Trump, aceitar um cessar-fogo nas condições atuais, o Irã vai continuar controlando o Estreito de Ormuz, o que manterá um prêmio permanente dos preços de petróleo.

Nesse cenário, o país persa se rearma e o republicano teriam consequências políticas desfavoráveis, com derrota nas eleições de meio de mandato deste ano, na visão dele. "Talvez tenha sido um erro começar essa guerra em primeiro lugar", argumenta. "Mas agora que eles começaram, parar desse jeito e, na prática, deixar o Irã vencer, será um desastre econômico, financeiro e geopolítico para o Trump."

'Hiper-incerteza'

"Estamos em um período de hiper-incerteza, de incertezas sem precedentes na economia mundial", disse Roubini. Ele mencionou o conflito na Ucrânia, a guerra de Israel no ano passado com o Hamas e agora a guerra no Irã, além de restrições comerciais de Trump e os efeitos da pandemia nas cadeias produtivas.

"Trump ficou agressivo geopoliticamente", disse o professor, citando a investida da Casa Branca na Venezuela, no Irã, além de uma retórica mais agressiva com o Canadá e com a Groenlândia.

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Há ainda dúvidas entre investidores e economistas se existe uma bolha na inteligência artificial, o que Roubini não acredita. Outro temor é de um problema sistêmico no mercado de crédito privado nos EUA, mencionou ao falar da elevada incerteza.

No caso do conflito do Irã, Roubini avalia que os efeitos nos preços do petróleo já são maiores do que na investida de Israel na Palestina em 2025, que teve impacto temporário, mas devem ser menores que os efeitos dos choques de petróleo dos anos 70. A razão é que há mais países produtores do óleo no mundo, como o Brasil, e mais fontes alternativas de energia hoje na economia mundial.

"É óbvio que, quanto mais durar a guerra no Irã, pior será o impacto nos preços do petróleo e na inflação", disse Roubini. Para ele, os mercados estão precificando neste momento que Trump quer uma solução para o conflito, mas este pode não ser o caso. De qualquer forma, o professor avalia que haverá "algum" impacto na inflação mundial e também no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) global.

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