Oferecimento

Resultado de eleição presidencial pode afetar ESG em empresas no Brasil? O que dizem líderes da área

Ouvidos pelo 'Estadão', gestores de diversas organizações avaliam que resultado eleitoral pode 'mudar ritmo' da agenda no mercado e apontam 'risco de retrocesso'

22 out 2026 - 14h29
(atualizado às 16h11)
Resumo
Líderes e especialistas afirmam que o resultado da eleição presidencial afetará a agenda ESG no Brasil. Mudanças regulatórias, incentivos e o tom político do governo podem acelerar ou frear avanços socioambientais e de inclusão. Enquanto companhias dependentes do Estado são mais vulneráveis a retrocessos, executivos ressaltam que empresas com governança sólida e maturidade estratégica tendem a manter suas práticas sustentáveis como imperativo de competitividade, a despeito de ciclos políticos.

A condução de uma nova fase de liderança em uma reeleição presidencial ou mesmo a vigência de um novo gestor como presidente do Brasil podem afetar a agenda ESG em empresas no Brasil a partir de 2027? Lideranças e gestores da área ouvidos pelo Estadão avaliam que sim, ao comentar sobre o futuro da pauta no mercado após o desfecho da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que terá definição neste domingo, 25.

Publicidade

Durante os últimos anos, especialmente no pós-pandemia, grandes empresas no País fortaleceram ações corporativas relacionadas às pautas e assumiram compromissos públicos com a agenda. No entanto, eventuais novas regulamentações e determinações em torno do tema podem redefinir ou mesmo retroceder o rumo das políticas dessas companhias, principalmente as mais sensíveis às agendas políticas, comentam os gestores.

Leia o que respondem os entrevistados:

Marcio Astrini - secretário executivo do Observatório do Clima

"Creio que haja uma influência direta e indireta. A direta é por conta de regulações que podem existir a partir do governo federal e do próprio congresso. Sabemos que a agenda de clima no Brasil é muito dependente dos movimentos que acontecem na esfera federal. E quanto mais tiver iniciativas que, por exemplo, premiem empresas que adotam a agenda ESG e que tenham compromissos ambientais e sociais, você incentiva, em uma espécie de recompensa e reconhecimento, que elas continuem na sua trajetória e também incentiva que outras empresas se sintam motivadas para aderir ao movimento ESG. A segunda coisa, que é menos mensurável, mas eu não diria menos importante, é o ambiente que se cria no País para a agenda de clima. Se você tem um presidente da República, ministros e toda uma mobilização de governo que dão atenção e importância para essa agenda, você acaba criando no País uma série de recomendações, de ambiente político, de mensagens que valorizam a agenda e, portanto, valorizam aquelas empresas e aquelas ações que adotam essa agenda. Por outro lado, se você tem uma administração pública que desvaloriza a agenda e diz que, por exemplo, a agenda de cuidados com o meio ambiente é uma agenda que afeta a nossa soberania, que é contra os interesses nacionais e que atrapalha o nosso desenvolvimento, você acaba tendo no público uma repercussão negativa dessa agenda. Nesses dois sentidos, sim, a eleição presidencial, tanto em regulamentação, quanto no ambiente favorável ou desfavorável para agenda de clima, presta um serviço importante e que vai influenciar a agenda ESG no Brasil."

Guibson Trindade - gerente executivo e cofundador da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial

"Sim, o resultado das eleições presidenciais pode influenciar as políticas de ESG nas empresas brasileiras, especialmente porque o governo federal tem capacidade de impactar o ambiente regulatório, as políticas públicas, os incentivos econômicos e as prioridades de desenvolvimento do País. Independentemente de quem seja eleito, existe o risco de descontinuidade ou retrocesso nas agendas de inclusão, equidade racial e desenvolvimento social, a depender das prioridades adotadas e das decisões institucionais. Isso pode afetar tanto as políticas públicas quanto o ambiente em que as empresas definem suas estratégias de sustentabilidade e responsabilidade social. Essa discussão é particularmente relevante quando olhamos para a população negra, que representa aproximadamente 56% dos brasileiros, segundo o Censo 2022 do IBGE. Estamos falando da maioria da população do País e de um enorme potencial humano, intelectual, empreendedor, produtivo e consumidor que precisa ser reconhecido e valorizado. A persistência das desigualdades raciais limita o acesso à educação, ao mercado de trabalho, à renda e às oportunidades de desenvolvimento. Para as empresas, o desafio é não permitir que a agenda ESG, especialmente a equidade racial, fique vulnerável aos ciclos políticos."

Publicidade
Lígia Maura Costa - coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGVethics)

"Sim, o resultado eleitoral pode mudar o ritmo e as prioridades da agenda ESG, pois o governo influencia a regulação, a fiscalização e os incentivos econômicos. As respostas das empresas mais afetadas por políticas públicas - estatais e de controle estatal - podem, inclusive, estimular um efeito manada no mercado. Entretanto, o cenário internacional mostra que essa influência não determina uma resposta uniforme: um estudo de 2025 do Pacto Global da ONU e da Accenture revelou que 88% dos CEOs consultados consideram mais forte a justificativa empresarial para a sustentabilidade do que há cinco anos, apesar das incertezas geopolíticas. (Por isso) empresas com boa governança preservarão seus compromissos ESG, independentemente de quem esteja no poder."

Jandaraci Araujo - cofundadora do Instituto Conselheira 101
'Em um cenário global de transformação econômica, ficar parado também significa retroceder.', diz Jandaraci Araújo
'Em um cenário global de transformação econômica, ficar parado também significa retroceder.', diz Jandaraci Araújo
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

"Sim, acredito que o resultado das eleições presidenciais poderá impactar significativamente a agenda ESG no Brasil. Mas minha maior preocupação não está apenas em quem será eleito, e sim na ausência de propostas claras, estruturadas e de longo prazo para a sustentabilidade, a inclusão e a governança. Esse silêncio, por si só, já representa um risco de retrocesso. Ao observarmos as propostas apresentadas, percebemos diferenças importantes. De um lado, compromissos com a transição energética, o financiamento sustentável e o enfrentamento das mudanças climáticas, ainda que existam contradições na execução dessas políticas. De outro, uma maior ênfase na exploração econômica dos recursos naturais e na flexibilização regulatória, sem compromissos suficientemente claros com a descarbonização. O Brasil já possui avanços institucionais relevantes, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima, o Eco Invest Brasil, a Taxonomia Sustentável Brasileira e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. São instrumentos que precisam de continuidade, aprimoramento e segurança jurídica, independentemente do governo. Também não podemos reduzir o ESG à pauta ambiental. Diversidade, direitos humanos, redução das desigualdades, transparência e integridade são igualmente estratégicos para o desenvolvimento do país. O maior risco não é apenas o desmonte dessas políticas, mas a falta de ambição, a descontinuidade e a ausência de compromissos mensuráveis. Em um cenário global de transformação econômica, ficar parado também significa retroceder."

Ricardo Sales - presidente e fundador do Instituto Mais Diversidade
'É só no estado democrático de direito que as diferenças podem ser celebradas', diz Sales
Foto: Fábio Audi/Divulgação / Estadão

"Certamente. O papel do governo, exercido tanto diretamente como a partir de estruturas como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), pode acelerar ou frear avanços na agenda ESG. Nos EUA, por exemplo, o que temos visto é praticamente uma criminalização do tema como resultado de ações do governo federal. Por aqui, caso Lula vença, será importante avançar em políticas públicas e em marcos como a política nacional de empresas e direitos humanos, que está na Casa Civil. No caso de vitória de Flávio Bolsonaro, preocupam os ataques recorrentes a populações já vulneráveis e a falta de compromisso com a democracia. É só no estado democrático de direito que as diferenças podem ser celebradas."

Margareth Goldenberg - gestora executiva do Movimento Mulher 360
'É um momento importante para as empresas mostrarem a consistência de seus compromissos', diz Margareth Goldenberg
Foto: Divulgação / Estadão

"Sim, acredito que o resultado das eleições presidenciais pode influenciar as políticas de ESG nas empresas brasileiras, independentemente de quem seja eleito. O cenário político interfere nas prioridades do governo, no debate público e até na disposição de algumas empresas de se posicionarem sobre questões sociais e ambientais. Mas vejo uma diferença importante entre as empresas que já incorporaram a sustentabilidade à sua estratégia de negócios e aquelas que ainda tratam ESG como uma agenda de reputação ou de resposta a pressões externas. As empresas que entendem a relação entre sustentabilidade, gestão de riscos, inovação, atração de talentos e competitividade têm mais razões para manter seus compromissos, mesmo diante de mudanças no cenário político. Na dimensão social, especialmente em diversidade, equidade e inclusão, já vimos como a polarização e as pressões externas podem influenciar discursos, investimentos e prioridades. O risco é que compromissos construídos ao longo de anos sejam enfraquecidos por circunstâncias políticas de curto prazo. Acredito que esse também é um momento importante para as empresas mostrarem a consistência de seus compromissos. Afinal, não basta assumir publicamente uma posição, é preciso que ela esteja presente nas decisões, nas práticas e na forma como os negócios são conduzidos."

Publicidade
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se