A frágil situação financeira da Oncoclínicas, associada à dificuldade que a empresa tem encontrado para renegociar sua dívida, fez Porto e Fleury se retirarem das negociações que visavam a um possível investimento para reestruturar a companhia. Atualmente, a rede de clínicas de oncologia tem um passivo de R$ 3,1 bilhões e alavancagem de 4,3 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda.
Essa situação levou a empresa a quebrar cláusulas previstas em contratos com debenturistas, o que permitiria antecipar o vencimento de dívidas, entre outras penalidades. Diante desse cenário, a Oncoclínicas recorreu ao Judiciário para se proteger de eventuais cobranças e ganhar fôlego enquanto tenta encontrar uma solução junto a credores.
Outro ponto que pode ter sido avaliado pelos potenciais investidores foi a possível existência de passivos fora do balanço e o aumento de riscos de avançar com uma negociação neste momento. Foi esse cenário de incerteza até para as operações da companhia que levou à retirada das propostas por Porto e Fleury, disseram ao Estadão/Broadcast pessoas a par do assunto e que aceitaram falar sem ter o nome revelado.
À Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambas as empresas destacaram que estariam encerrando as conversas para o potencial investimento, mas não deram detalhes sobre os motivos. As tratativas começaram em meados de março e, se avançassem, poderiam levar à formação de uma nova empresa com as clínicas de oncologia, mas sem os hospitais detidos pela Oncoclínicas. E, nessa nova empresa, haveria o investimento de R$ 500 milhões e uma emissão de debêntures no mesmo valor, com vencimento em 48 meses a partir do desembolso e remuneração de 110% da taxa do CDI.
Contudo, analistas de mercado ainda viam com desconfiança o investimento, uma vez que ele não trazia uma solução concreta para lidar com os passivos da companhia especializada em oncologia.
Por outro lado, o mercado avaliava como estratégico o negócio, caso ele prosperasse, ampliando o acesso da Porto Saúde e do Fleury ao mercado de oncologia, que tem alto crescimento e rentabilidade. Seria, portanto, aderente ao negócio e às estratégias de crescimento das duas companhias.
Agora, restou à Oncoclínicas reavaliar as alternativas para solucionar sua situação fragilizada. Uma delas é uma proposta da Mak Capital, que anteriormente foi rejeitada pela empresa; a outra seria um aporte do Starboard. Contudo, não há clareza sobre se essas potenciais parcerias estratégicas podem voltar à mesa no cenário atual e após a desistência de Porto e Fleury.
Crise
Na semana passada, a Oncoclínicas chegou a informar à CVM que, segundo auditores independentes, sua continuidade operacional depende de fatores ainda incertos, como o sucesso nas negociações com credores e a reestruturação de suas dívidas.
Segundo a companhia, a manutenção das operações está condicionada à obtenção da dispensa de obrigações para o descumprimento de contratos financeiros, à renegociação do passivo e à melhora na geração de caixa, indicando necessidade de ajustes relevantes na estrutura financeira.
A empresa reconheceu a existência de "incerteza relevante" que pode levantar dúvida significativa sobre sua capacidade de continuar operando normalmente. Esse tipo de alerta é incomum e costuma ser adotado quando há riscos concretos à sustentação financeira do negócio, ainda que não represente, necessariamente, uma situação de insolvência imediata.
O principal fator por trás desse cenário é o elevado nível de alavancagem. A companhia encerrou 2025 com dívida líquida próxima de R$ 3,1 bilhões e em descumprimento de indicadores financeiros previstos em contratos, como o limite de alavancagem e a cobertura de juros, sinalizando pressão sobre sua capacidade de geração de resultados.
O não cumprimento dessas cláusulas contratuais desencadeou efeitos adicionais, como o risco de vencimento antecipado de dívidas e a reclassificação de parte relevante do passivo para o curto prazo, o que deteriorou o capital de giro. Com isso, a empresa passou a apresentar capital circulante negativo e maior pressão sobre o caixa, elevando o risco de liquidez.