A Shein planeja arrecadar até US$ 1,7 bilhão em seu IPO na Bolsa de Hong Kong para financiar sua expansão e tecnologia, após entraves regulatórios em Londres e Nova York. Com avaliação de mercado de US$ 26,8 bilhões, valor inferior ao almejado, a gigante do fast fashion busca provar sua rentabilidade aos investidores diante da desaceleração de vendas, aumento de tarifas de importação, pressões regulatórias e multas na Europa, além de críticas frequentes por seus impactos socioambientais.
A plataforma online de fast fashion vai utilizar os recursos captados na estreia na Bolsa para financiar sua expansão, ampliar suas capacidades tecnológicas e fortalecer sua presença internacional.
Segundo comunicado da Bolsa de Hong Kong, a gigante da moda rápida planeja oferecer 280 milhões de ações para captar até 13,86 bilhões de dólares de Hong Kong (US$ 1,7 bilhão). Com esse valor, a empresa alcançaria uma avaliação de mercado de US$ 26,8 bilhões (R$ 137 bilhões). O preço das ações deve variar entre 47,60 e 49,50 dólares de Hong Kong.
A avaliação é muito inferior às metas que a Shein pretendia atingir anteriormente. Fundado na China em 2012 e atualmente sediado em Singapura, o grupo buscava uma avaliação entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões no início de agosto. A plataforma estreia na Bolsa de Hong Kong após ter sido impedida de abrir capital nas bolsas de Londres e Nova York por dificuldades regulatórias.
Crescimento precisa ser retomado
Para convencer os investidores, a empresa precisa demonstrar que seu modelo de negócios é capaz de voltar a crescer de forma rentável. A receita do grupo avançou apenas 8% no ano passado, contra 20% em 2024, em razão de um cenário econômico mais desafiador.
Em 2025, a empresa registrou faturamento de US$ 41,8 bilhões (R$ 214 bilhões), entregou mais de 1 bilhão de encomendas em todo o mundo e obteve lucro líquido de US$ 2,1 bilhões. Porém, a plataforma registrou prejuízo líquido de US$ 99 milhões no primeiro trimestre, resultado que a empresa atribuiu a fatores contábeis.
O aumento das tarifas de importação e o fim de determinados benefícios fiscais para pequenas encomendas têm pressionado o modelo de negócios da Shein, que foi obrigada a elevar os preços de seus produtos. Como resultado, nos Estados Unidos, mercado responsável por um quarto das operações da plataforma, as vendas caíram 15% no primeiro trimestre.
Modelo de negócios contestado
Além disso, a empresa enfrenta pressão crescente de órgãos reguladores ao redor do mundo. Na França, a Direção-Geral da Concorrência, do Consumo e da Repressão a Fraudes aplicou, em junho deste ano, duas multas à Shein, totalizando € 22 milhões, por descumprimento das normas de proteção ao consumidor. No ano passado, o grupo já havia sido multado em € 40 milhões na França por práticas comerciais enganosas. Também no ano passado, a Shein abriu sua primeira loja física no mundo, em Paris, com grande estardalhaço.
A força da Shein está na China, em sua indústria têxtil de baixo custo, em sua logística eficiente e em um setor de comércio eletrônico altamente desenvolvido. A empresa consegue responder às tendências em constante mudança em tempo recorde, com uma rápida renovação de coleções a preços muito baixos, e se destaca por atingir o público jovem por meio das redes sociais. A plataforma de vendas online da Shein opera em mais de 150 países, entre eles o Brasil, e a marca afirma possuir 273 milhões de clientes, dos quais 23 milhões estão na França.
Críticas
A plataforma é criticada com frequência por seu impacto ambiental e por incentivar uma cultura de consumo excessivo que gera resíduos e poluição, uma vez que o setor têxtil representa quase 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.
A Shein também foi acusada de violações de direitos humanos, embora o CEO da empresa tenha declarado no ano passado que o grupo adota uma política de "tolerância zero" em relação ao trabalho forçado.
A Shein reconhece que a abertura de capital pode não garantir aos futuros acionistas um crescimento tão acelerado quanto o registrado em seus primeiros anos. Diante da legislação americana e europeia, o grupo anunciou nesta segunda-feira que está estudando "uma ampla gama de opções, incluindo o aumento de seus preços, para compensar parte dos custos adicionais".