O Grupo Pão de Açúcar (GPA) espera que o seu plano de recuperação extrajudicial seja homologado pela Justiça no terceiro trimestre deste ano, afirmou o presidente da companhia, Alexandre Santoro, em entrevista ao Estadão/Broadcast. "Para nós, isso vai ser uma virada de página bem importante, inclusive com fornecedores e parceiros", afirmou.
O CEO ponderou, contudo, que o prazo depende do andamento do processo no Judiciário, mas que a companhia está confiante na homologação diante da adesão obtida entre os credores.
O GPA apresentou o pedido de homologação do plano em 10 de março. Em 5 de maio, protocolou uma nova versão, apoiada por credores que representavam 57,49% dos aproximadamente R$ 4,57 bilhões em créditos sujeitos ao processo.
Encerrado o prazo para a escolha das alternativas de pagamento, mais de 97% dos créditos sujeitos ao plano apresentaram manifestação válida e dentro do prazo. A Opção A, que prevê a participação dos credores na concessão de novos recursos ao GPA, concentrou R$ 4,04 bilhões, equivalentes a 88,4% dos créditos.
A recuperação extrajudicial, porém, provocou efeitos sobre o abastecimento das lojas durante o segundo trimestre. "Trabalhamos muito próximos dos fornecedores, mas tivemos algumas rupturas e faltas pontuais de produtos, e isso acabou impactando as vendas", disse Santoro.
A companhia afirma que o abastecimento começou a se normalizar gradualmente após maio. Em junho, as vendas voltaram a crescer, com a melhora da disponibilidade de produtos e o efeito da Copa do Mundo. No acumulado do segundo trimestre, as vendas em "mesmas lojas" recuaram 0,8%, descontado o efeito calendário.
A pressão sobre a relação com fornecedores também afetou o capital de giro. O saldo com fornecedores caiu R$ 396 milhões entre março e junho, para R$ 1,753 bilhão. A variação do capital de giro de mercadorias consumiu R$ 179 milhões no trimestre, ante geração de R$ 114 milhões no mesmo período de 2025.
Segundo o diretor Financeiro do GPA, Pedro Albuquerque, os R$ 200 milhões em novos recursos previstos no plano atendem às necessidades de capital de giro da companhia no curto prazo. Ele avalia que a regularização do capital de giro também poderá contribuir para a geração de caixa e para a realização de investimentos futuros.
Impacto na dívida
A dívida líquida efetiva do GPA, incluindo os recebíveis de cartões não antecipados, somava R$ 3,647 bilhões ao fim de junho. A alavancagem financeira estava em 3,9 vezes o Ebitda ajustado pré-IFRS 16 acumulado nos últimos 12 meses.
Esses números ainda não incorporam os efeitos da recuperação extrajudicial. Em uma análise pro forma, considerando os termos do plano e a utilização dos R$ 298 milhões provenientes da venda da participação na financeira FIC para amortizar parte da dívida, a dívida líquida cairia para R$ 1,182 bilhão. A redução seria de aproximadamente R$ 2,5 bilhões, enquanto a alavancagem recuaria para 1,3 vez.
Com a homologação, o GPA espera que o prazo médio de suas dívidas seja alongado de 2,1 anos para 6,4 anos. Os pagamentos previstos até 2028 cairiam de R$ 5,2 bilhões para aproximadamente R$ 400 milhões, enquanto o custo médio da dívida passaria de CDI mais 1,8% ao ano para CDI mais 0,5%.
Segundo o CEO do GPA, a recuperação extrajudicial foi o instrumento encontrado para enfrentar uma estrutura de capital que deixou de ser compatível com o porte atual e a geração de caixa da companhia. Apenas em 2026, o GPA tinha mais de R$ 2 bilhões em vencimentos.
"A recuperação extrajudicial reequilibra a companhia para que a gente possa focar no mais importante, que é o dia a dia do negócio e a execução das lojas", afirmou.