Fruto de parceria entre o projeto Ateliê 11 e o programa Mãos e Mentes Paulistanas, da Prefeitura de São Paulo, uma oficina gratuita capacita 25 artesãs em técnicas de estamparia, upcycling e empreendedorismo. A formação visa agregar valor a peças manuais, estimular a economia circular e impulsionar a geração de renda em um setor que movimenta R$ 100 bilhões anuais no Brasil e é majoritariamente feminino. O projeto já qualificou 125 pessoas em quatro cidades paulistas.
Uma bermuda jeans usada, um desenho e uma nova técnica de estamparia. Foi o suficiente para a estilista Sandra Pena Gonçalves criar uma peça apresentada em um desfile de moda e experimentar novas possibilidades para o negócio que já mantém. A experiência aconteceu durante uma oficina gratuita do projeto Ateliê 11, realizada em parceria com o programa Mãos e Mentes Paulistanas, da Prefeitura de São Paulo, no Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (CATe Central).
A iniciativa reúne 25 participantes que já atuam em diferentes atividades artesanais e buscam ampliar suas possibilidades de criação e comercialização. A formação técnica começou em 29 de setembro e tem encerramento previsto para 10 de novembro, seguida de duas aulas de empreendedorismo. Além de aprender a produzir estampas, as participantes terão acesso a conhecimentos que podem contribuir para agregar valor aos produtos, conquistar clientes e aumentar a renda.
O projeto chegou à capital depois de passar por três cidades do interior paulista e encontrou no Mãos e Mentes Paulistanas um público que já possui experiência em costura, crochê, bordado, pintura e outras atividades manuais. A proposta é incorporar a estamparia ao trabalho dessas artesãs, criando novas possibilidades de produtos e negócios.
Segundo Kizzi Kauana, coordenadora do projeto, o perfil das participantes é um dos diferenciais dessa oficina. "Muitas já têm seus próprios negócios, vendem pela internet, participam de feiras e trabalham com técnicas como costura, crochê, bordado e pintura. A estamparia chega para acrescentar novas possibilidades ao que elas já produzem, permitindo diversificar os produtos e agregar valor ao trabalho", explica.
Uma técnica que já chegou à passarela
Proprietária da Pena Atelier, Sandra trabalha há quatro anos com costura e há dois anos e meio com upcycling, prática que transforma roupas e materiais usados em novas peças. Ela participa frequentemente de desfiles de moda e feiras, além de vender suas criações por indicação de clientes. Seu trabalho inclui principalmente peças em jeans, brincos e customização de calçados.
A oficina surgiu como uma oportunidade de ampliar seu repertório. Antes mesmo do encerramento da formação, Sandra utilizou a técnica de estêncil para criar uma estampa em uma bermuda masculina apresentada em um desfile.
"Decidi fazer o curso porque vi uma oportunidade de agregar algo novo ao meu trabalho. Já consegui aplicar o que aprendi em uma peça que apresentei num desfile de moda. A estampa fez muito sucesso e o público gostou bastante", conta Sandra.
Outra participante, Juliana Sintra, proprietária da Concrecriar, fundada em 2024, trabalha com objetos decorativos em concreto. Ela comercializa seus produtos em feiras e espaços de venda, incluindo shoppings, e procurou a oficina para incorporar novos elementos às peças.
"Acredito que combinar a arte em concreto com a estamparia será um grande diferencial para o meu trabalho. Não vejo muitas pessoas que produzem peças em concreto utilizando essa técnica e quero explorar essa possibilidade", explica Juliana.
Para Juliana, aprender uma nova técnica significa ampliar as possibilidades de criação e buscar diferenciação em um mercado no qual produtos personalizados podem conquistar consumidores interessados em peças exclusivas.
Um mercado de bilhões com forte presença feminina
A aposta na qualificação de artesãs acompanha a importância econômica do setor. Estimativas divulgadas pelo Sebrae apontam que o artesanato movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano no Brasil, o equivalente a aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB), e gera renda para milhões de brasileiros.
A presença feminina é expressiva nesse mercado. Segundo informações divulgadas pelo Sebrae, as mulheres representam mais de 77% dos artesãos profissionais cadastrados no país, o que reforça a importância de iniciativas que associam qualificação profissional, empreendedorismo e autonomia econômica.
Criado em 2019 pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o programa Mãos e Mentes Paulistanas atua no fortalecimento do setor artesanal e de manualidades da capital, oferecendo formação técnica e empreendedora, além de oportunidades de comercialização.
Esse é um dos diferenciais da iniciativa. Depois da qualificação, os artesãos podem participar de feiras, eventos e processos seletivos para ocupar espaços de venda em lojas e quiosques do programa instalados em centros comerciais e shoppings da cidade. Também têm acesso a ações de divulgação e outras oportunidades oferecidas pela Prefeitura.
Assim, o aprendizado não termina necessariamente na sala de aula. A formação pode abrir caminhos para que os participantes apresentem seus produtos a novos consumidores e ampliem suas atividades profissionais.
Criatividade, sustentabilidade e economia circular
Nas oficinas do Ateliê 11, as participantes aprendem técnicas de estêncil, pintura, produção de moldes, corte e acabamento. O estêncil permite reproduzir desenhos e padrões em diferentes superfícies por meio de moldes recortados, oferecendo possibilidades de personalização de roupas, tecidos, acessórios e objetos.
O processo começa com a criação de um desenho, que é transferido para o material utilizado como molde. Depois do recorte, a imagem pode ser aplicada à superfície escolhida, permitindo que cada participante desenvolva composições próprias.
O educador Eduardo Fugisse, que trabalha há cerca de cinco anos com oficinas de estamparia, explica que a técnica pode ser aprendida gradualmente, mesmo por quem nunca teve contato com esse tipo de produção.
"Todas as pessoas podem trabalhar e produzir estêncil. Não é uma técnica muito difícil, mas exige bastante atenção, principalmente na hora de fazer os recortes com estilete", explica Eduardo.
O reaproveitamento de materiais é outro aspecto importante da formação. As oficinas incorporam princípios da economia circular e do upcycling, estimulando a transformação de peças descartadas ou em desuso em produtos com novas funções e valor agregado.
Uma roupa usada, por exemplo, pode ganhar outra identidade a partir de uma intervenção artística, prolongando sua vida útil e criando uma nova possibilidade de comercialização. O mesmo princípio pode ser aplicado a acessórios, objetos decorativos e outros produtos artesanais.
Todos os materiais utilizados nas oficinas são fornecidos gratuitamente, permitindo que as participantes aprendam e experimentem as técnicas sem precisar investir na compra de equipamentos ou insumos durante a formação.
Da criação ao negócio
Depois da formação técnica, o Ateliê 11 oferece aulas de empreendedorismo, abertas também a pessoas que não participaram das oficinas de estamparia.
Nessa etapa, o foco é mostrar como transformar conhecimentos artísticos em oportunidades econômicas, abordando questões como organização da produção, formação de preços, negociação, comercialização e relacionamento com clientes.
Para Ana Silvia Forgiarini, idealizadora do Ateliê 11 e responsável pela Frida! Produtora Cultural, que há 15 anos desenvolve projetos sociais ligados à arte e à inclusão, a combinação entre formação artística e empreendedorismo é fundamental para ampliar as oportunidades das participantes.
"As aulas de empreendedorismo complementam esse percurso, estimulando as participantes a transformar os conhecimentos adquiridos em possibilidades de geração de renda", afirma.
A importância de associar formação artística e oportunidades profissionais também é destacada pelo Grupo Cury, patrocinador exclusivo do Ateliê 11. "Acreditamos que a qualificação profissional, aliada à arte, é uma ferramenta potente para gerar autonomia e novas oportunidades de renda", afirma Leonardo Mesquita, copresidente executivo da Cury.
Cinco oficinas em quatro cidades paulistas
O Ateliê 11 realizou cinco oficinas em quatro cidades do estado de São Paulo, capacitando cerca de 125 pessoas em mais de 220 horas de atividades. O projeto passou por Cerquilho, Lençóis Paulista e Nova Odessa, no interior paulista, e chegou à capital com duas formações destinadas a públicos com diferentes perfis e experiências profissionais.
Além da turma do Mãos e Mentes Paulistanas, realizou uma formação no Centro de Referência LGBTI+ Brunna Valin, na região central, destinada principalmente a mulheres cis e trans em situação de vulnerabilidade social.
As duas experiências mostram diferentes possibilidades de aplicação do mesmo conhecimento. Enquanto no Brunna Valin a formação representa uma oportunidade de aprender uma atividade que pode abrir caminhos para a inserção profissional, no CATe Central a proposta é acrescentar novas técnicas ao trabalho de pessoas que já empreendem.
A iniciativa é viabilizada pelo Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (PROMAC), realizada pela Frida! Produtora Cultural e conta com patrocínio exclusivo do Grupo Cury.
Local da oficina
Programa Mãos e Mentes Paulistanas / CATe Central
Endereço: Rua Álvares Penteado, 203, Centro, São Paulo/SP.
Formação técnica: de 29 de setembro a 10 de novembro de 2026, seguida de duas aulas de empreendedorismo.