Rodrigo Assad, da Claro, afirma que a inteligência artificial tornará o trabalho humano híbrido, mantendo as pessoas no centro das decisões. Ele destaca que a viabilidade financeira da IA depende do uso de GPUs e modelos abertos para controlar custos em escala. Com a experiência adquirida em suas próprias operações, como no atendimento e na capacitação de funcionários com assistentes virtuais, a Claro busca se posicionar como consultora de IA para apoiar outras empresas no mercado corporativo.
A inteligência artificial começa a deixar de ser apenas uma ferramenta usada por empresas e desenvolvedores e passa a ocupar um espaço cada vez mais próximo das pessoas. Para Rodrigo Assad, diretor de Inovação, Produtos B2B e beOn da Claro, a transformação ainda está no começo — mas já é possível enxergar como essa convivência com a IA vai mudar a maneira como trabalhamos e tomamos decisões.
Em entrevista durante o Febraban Tech 2026, Assad fala sobre os desafios de colocar a tecnologia em escala, a importância de fazer a conta fechar e o papel das GPUs e dos modelos abertos nesse processo. Também explica como a Claro pretende atuar como uma espécie de AI advisor — consultoria ou assessoria especializada em inteligência artificial — para outras empresas e por que, apesar de toda a automação, o ser humano continuará no centro das decisões.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
A IA ficou mais barata para as empresas com o avanço das GPUs?
A IA precisa fechar a conta. Muitas vezes, ela é um brinquedo caro nas mãos de desenvolvedores ou das pessoas que estão usando. O custo do token — a unidade de texto que os modelos de IA processam para gerar uma resposta — é imprevisível, dependendo de como você adota a tecnologia. Quando começa a usar GPUs (unidades de processamento gráfico, chips especialmente eficientes para executar cálculos de inteligência artificial), consegue ter um custo um pouco mais controlado.
Talvez uma parcela significativa, mais de 80% dos problemas que temos, possa ser resolvida com GPUs e modelos abertos, os chamados open source — sistemas cujo código e modelos podem ser utilizados e, em muitos casos, adaptados por empresas e desenvolvedores. Se você consegue controlar esse custo e tem uma maneira de resolver problemas complexos, existe um consenso de que o futuro será híbrido. Você vai usar modelos mais sofisticados à medida que precisar resolver problemas mais sofisticados e uma gama grande de outros problemas poderá ser resolvida com modelos mais simples, controlando o custo. Assim, consegue escalar a IA e socializá-la dentro da empresa.
E como a Claro está levando essa experiência para o mercado B2B?
A gente aprendeu a fechar a conta. A IA é realmente algo complexo de gerenciar quando você escala. Quando faz um piloto, funciona. Mas, quando leva esse piloto para uma empresa como a Claro, com 80 milhões de clientes, o custo se torna impeditivo. Você fecha a conta e o ROI (return on investment, ou retorno sobre o investimento) não fecha. Quando começamos a oferecer isso ao mercado, estamos trazendo a experiência da Claro, nossa vivência prática, mostrando que é possível fazer e quais resultados podem ser obtidos. Os clientes que entendem isso já estão voltando para a gente, e são muitos. Temos uma demanda reprimida grande e estamos começando a cocriar com essas empresas ou ajudá-las a fazer essa jornada.
Quais são hoje as principais aplicações de IA dentro da Claro?
Na estratégia da Claro, definimos três grandes pilares. Alguns casos a gente acaba levando ao mercado. Temos, por exemplo, um case sofisticado de transcrição, em que transcrevemos boa parte ou 100% dos áudios do nosso call center com qualidade. Queremos escutar a voz do nosso cliente para trabalhar produtos com mais qualidade e criar ofertas personalizadas.
É claro que também olhamos para marketing e vendas, mas existem outras verticais nas quais estamos atuando e que ainda não comentamos muito. Temos também a adoção de IA em larga escala. Como liberamos a IA para 40 mil pessoas? Estamos ensinando essas pessoas a criar seus próprios agentes: um agente que lê e-mails, outro que faz recomendações, e assim por diante. Cada um começa a ter seu próprio assessor, seu 'Jarvis', referência ao assistente de inteligência artificial do personagem Homem de Ferro, para ajudá-lo a resolver problemas.
É nesse contexto que a Claro quer se posicionar como uma espécie de AI advisor para as empresas?
Sim. No mercado B2B, o caminho que estamos seguindo é nos tornarmos o AI advisor do Brasil. Isso é um serviço. Se você precisa de uma GPU, nós temos. Se precisa de uma parte de uma GPU, também temos, porque você não precisa começar grande. Pode começar pequeno e ir crescendo. Também trabalhamos nas camadas de software, governança, segurança e rastreabilidade. Podemos entregar agentes aos nossos clientes. Nosso papel como advisor é ajudar cada empresa a seguir sua própria jornada. E fazemos isso contando o que nós mesmos fizemos na prática. Não é uma teoria que você leu em algum lugar. A Claro pode dizer: 'A gente sabe, a gente fez e esse resultado funciona desse jeito'.
Com toda essa automação, onde fica a decisão humana? O ser humano começa a ficar híbrido?
Uma das coisas que discutimos é o que chamamos de human in the loop, ou seja, manter o ser humano dentro do processo de decisão. Temos que manter sempre as pessoas no centro da tomada de decisão da IA. Muitas vezes, preparar as pessoas é melhor do que investir em uma determinada tecnologia. Faço uma brincadeira que uso muito: se você tiver uma Ferrari para andar na Marginal de São Paulo, comprou o carro errado. Existem carros mais baratos que vão produzir o mesmo efeito no mesmo tempo. Se você começa a ensinar esse novo letramento e deixa as pessoas no centro, vai ter muito mais produtividade. É um caminho longo que está chegando.
A IA vai transformar a forma como coexistimos com a tecnologia. Estamos começando a ver óculos, relógios e outros dispositivos incorporando IA. Isso vai mudar a maneira como trabalhamos. A IA deixará de ser vista somente como uma tecnologia e passará a ser algo transformacional para o ser humano. No futuro, vamos estar cada vez mais assessorados por ela.