Novo terminal de Frankfurt escapa de "maldição" das megaobras alemãs

24 abr 2026 - 16h17

Novo terminal no maior aeroporto da Alemanha foi inaugurado sem grandes sobressaltos, em contraste com outras obras do país. Para alguns, conclusão mostrou que alemães ainda são capazes de tocar megaprojetos.Suspiros de alívio, em meio a luz negra e música eletrônica, rondavam por entre os convidados presentes em Frankfurt. No maior aeroporto da Alemanha, o clima era de celebração.

Novo terminal custou 4 bilhões de euros
Novo terminal custou 4 bilhões de euros
Foto: DW / Deutsche Welle

Afinal, a maldição que assolara a construção interminável do Aeroporto de Berlim-Brandemburgo (BER) havia passado longe dali. Na contramão de outros fracassos retumbantes envolvendo megaobras na Alemanha, o novo Terminal 3 do Aeroporto de Frankfurt foi inaugurado com festa - sem estourar significativamente cronogramas e o orçamento nem virar chacota.

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Foram dez anos, do início das obras até a entrega, na quarta-feira (22/04), da nova estrutura que deverá receber cerca de 19 milhões passageiros por ano. O volume colocará o novo terminal, sozinho, em quinto lugar no ranking dos aeroportos do país, atrás de Munique, Berlim e Düsseldorf - e lógico, Frankfurt em sua totalidade.

É verdade que o custo final, de 4 bilhões de euros, superou os 2,5 bilhões de euros inicialmente planejados. O investimento, no entanto, foi tocado de forma privada pela administradora do aeroporto, a Fraport, que também administra, no Brasil, os aeroportos de Fortaleza (CE) e Porto Alegre (RS). A empreitada em Frankfurt contou com financiamentos do Banco Europeu de Investimento e empréstimos com juros baixos viabilizados pelos acionistas públicos majoritários.

Mesmo que se trate de apenas um terminal e não de um novo aeroporto construído do zero, a conclusão sem grandes sobressaltos da expansão em Frankfurt foi comemorada pelas lideranças alemãs, assombradas pela experiência em Berlim, cujo famigerado aeroporto inaugurado em 2020 somou nove anos de atraso e 7 bilhões de euros (de 2 bilhões de euros previstos inicialmente), bancados pelos cofres públicos dos estados de Berlim, do estado de Brandemburgo e do governo federal da Alemanha.

"Esse terminal mostra o que é possível no nosso país. Nosso Estado não é disfuncional, aqui temos a contraprova", declarou, na inauguração, o governador do Estado de Hessen, Boris Rhein, da União Democrata-Cristã (CDU), partido conservador do chanceler federal Friedrich Merz. "Podemos tocar grandes projetos na Alemanha", complementou o ministro dos transportes do governo federal, Patrick Schnieder, vindo de Berlim. "Estou aliviado, não tenho problemas em admitir isso", confessou Stefan Schulte, chefe da Fraport.

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Experiências ruins também ensinam algo

Na recente história dos megaprojetos alemães, o Aeroporto de Berlim-Brandemburgo não é o único exemplo de fracasso. Assim como na capital alemã, falhas de projetos e dificuldades técnicas também afligiram construções como a do projeto ferroviário Stuttgart 21, na cidade homônima de Baden-Württemberg, e da sala de concertos Elphilarmonie, em Hamburgo.

A Filarmônica do Elba, cujo orçamento final de 789 milhões de euros representou quase dez vezes do plano inicial, ao menos foi inaugurada em 2017, depois de um atraso de sete anos. Em Stuttgart, onde as obras para a remodelação da estação de trens de mesmo nome já duram 15 anos e somam um custo de 11 bilhões de euros (dos 2 bilhões de euros originais), nem isso. A inauguração, prevista para 2019, foi adiada novamente no ano passado, com previsão de entrega em 2027.

Mas Frankfurt tampouco foi poupada de dificuldades. A construção do Terminal 3 teve que lidar com uma pandemia de Covid-19 no meio das obras, que já haviam enfrentado outros percalços no início. Antes mesmo do início do projeto, a Fraport constatou que não havia mais empreiteiras dispostas a concentrar sozinhas um projeto bilionário.

A solução foi pulverizar o processo em mais de 300 projetos individuais, licitados e gerenciados pela subsidiária Fraport Ausbau Süd, criada unicamente para esse fim. No final, o terminal passou longe do desastre do aeroporto de Berlim, cuja obra foi concentrada nas mãos de menos empresas, sendo que uma delas faliu antes da inauguração.

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Além disso, para evitar que o plano inicial ficasse refém de reformulações que atrasassem infinitamente a conclusão - como em Stuttgart, Berlim e Hamburgo -, a concessionária implementou o mecanismo de "Design Freeze", literalmente, um congelamento do projeto inicial, que não poderia mais ser modificado. "Foi a base para o bom andamento da obra", disse Harald Rohr, diretor-executivo da Fraport Ausbau Süd. Cerca de 2 mil profissionais atuaram na construção.

Terminal 2 fechado até pelo menos 2035

Após ser celebrado pelos líderes políticos em Frankfurt, o Terminal 3 foi inaugurado na prática na quinta-feira (23/04), logo no início da manhã, com a aterrissagem de um voo da China Southern Airlines que veio da cidade de Shenyang. A aeronave foi batizada com água jogada pelas mangueiras dos bombeiros que trabalham no aeroporto.

A nova construção tem uma área total de cerca de 90 mil metros quadrados, maior que o bairro carioca do Leblon.

Além da China Southern Airlines, o Terminal 3 vai alocar mais 56 companhias aéreas, cujas operações serão transferidas do Terminal 2, que será fechado nos próximos meses para passar por uma longa reforma - companhias como Lufthansa, Latam e TAP, que fazem voos para o Brasil, continuam no Terminal 1; já Air France, KLM, United Airlines e a low-cost EasyJet serão afetadas a partir de maio. A previsão é que o Terminal 2 seja reaberto só em meados da década seguinte, ou seja, depois de 2034.

De acordo com a Fraport, o trânsito de passageiros no novo local pode chegar a 25 milhões por ano, ultrapassando os 19 milhões inicialmente previstos. Seria uma boa notícia, já que o Aeroporto de Frankfurt movimentou 63 milhões de passageiros no ano passado, ainda abaixo do patamar de 70 milhões em 2019, último ano antes da pandemia.

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Porém, o contexto atual dificulta o otimismo. O choque no mercado de energia causado pela guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã vem gerando receio de desabastecimento, o que já está levando aéreas a cortar voos na Europa. Mais recentemente, a Lufthansa, maior companhia de aviação da Alemanha, anunciou o cancelamento de 20 mil trechos de curta distância até outubro para economizar querosene.

Uma provável retração econômica e queda no poder de compra causados pelo conflito no Oriente Médio também poderão impactar o número de passageiros pelo mundo.

Nem todo mundo está feliz

Em geral, os conservadores e social-democratas que lideram a coalizão no governo federal alemão, elogiaram o novo terminal. No campo político, foram dos Verdes que encamparam as maiores críticas, desde o início do projeto. Ainda em 2013, o líder da oposição na Assembleia estadual de Hessen, o deputado Tarek Al-Wazir, havia classificado, em entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, o terminal de "absurdo".

Dois anos depois, já como responsável pela secretaria estadual de Economia e Transportes, Al-Wazir aconselhou a Fraport a desistir da obra e afirmou que os esforços poderiam se concentrar em aumentar a capacidade do Terminal 1.

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Na terça-feira, um dia antes da festa de inauguração, a porta-voz dos Verdes da bancada estadual de Hessen, Katy Walther, disse que, em vez de um projeto novo e caro, o aeroporto poderia ter investido em uma reforma mais econômica dos terminais existentes. De acordo com a Fraport, a recauchutagem do Terminal 2 deverá custar 1 bilhão de euros.

Associações civis e entidades como a Iniciativa para a Proteção Climática, Ambiental e Acústica no Transporte Aéreo criticaram também os impactos ambientais causados pela estrutura. A organização chamou o projeto de "símbolo de planejamento falho, destruição ambiental e megalomania", apontando que a ampliação prejudicará o clima, o meio ambiente e os moradores ao redor do aeroporto, que sofrem com barulho e poluentes.

Mas as diferenças de 60% entre o orçamento inicial e o final, e o atraso de quatro anos nas obras, que deveriam ter sido concluídas em 2022, também não faltam. Em entrevista ao FAZ, Ursula Fechter, porta-voz de uma associação crítica ao tráfego aéreo de Frankfurt afirmou que o Terminal 3 virou um "monumento que mostra como bilhões são desperdiçados contra o clima, o bom senso e os interesses dos cidadãos".

Segundo a associação, a obra foi desnecessária, já que as previsões de passageiros para o aeroporto antes da pandemia, de 90 milhões anuais, que estavam nos primeiros planos, recuaram para a casa dos 60 milhões nos últimos anos.

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